Notícias Publicado: 16/06/2014 | 09:43

ARTIGO: O ataque do Financial Times

A crítica do jornal ao trabalho de Piketty é obra da indústria de negação da desigualdade






por Paul Krugman




O economista Thomas Piketty respondeu extensamente à tentativa de derrubar seu trabalho em O Capital no Século XXI, feita por Chris Giles, o editor de economia do Financial Times, e o fez com muita eficiência. Basicamente, Giles tentou comparar maçãs com laranjas, e o resultado foi um limão.

O ponto central aqui é conhecido por qualquer pessoa que trabalhe há tempo em questões de desigualdade. Temos dois tipos de dados sobre distribuição de renda e de riqueza: as pesquisas, em que as pessoas são indagadas sobre quanto ganham ou possuem, e os dados do Fisco. Os dados de pesquisas são melhores ao descrever as famílias de renda mais baixa, muitas vezes não sujeitas a impostos; mas os dados subestimam notoriamente as rendas mais altas e a riqueza,grosso modo porque é difícil entrevistar bilionários. E também os dados de pesquisas começaram recentemente – depois da Segunda Guerra Mundial, e com frequência muito depois disso.

Então, Piketty trabalhou principalmente com dados fiscais, embora também tenha feito certo uso de dados de pesquisas; quando os combinou, fez ajustes para o conhecido viés descendente das estimativas de grande riqueza das pesquisas. Giles, entretanto, basicamente notou que algumas estimativas relativamente recentes de grandes fortunas são menores que algumas estimativas baseadas em impostos de períodos anteriores, e usou isso para alegar que não há qualquer tendência clara para a concentração de riqueza.

Bzzzzz! Errado! Isso deveria realmente resolver a questão, mas é claro que não resolverá. Os negadores da desigualdade vão aproveitar a má crítica do Financial Times e ela se tornará parte do que eles “sabem” que é verdade.

Está bem, eu não sei o que Giles pensou que estivesse fazendo – mas sei o que ele realmente fazia, e é aquela velha negação da desigualdade. Desde que ficou óbvio o aumento da desigualdade – lá na década de 1980 –, houve uma indústria de negação da desigualdade bastante substancial na direita. Essa negação não contava com nenhum argumento específico, nem continha objeções consistentes. Em vez disso, envolvia atirar na parede muitos argumentos diferentes, esperando que algum colasse: a desigualdade não está aumentando; está aumentando, mas é compensada pela mobilidade social; é cancelada pela maior ajuda aos pobres (que estamos tentando destruir, mas não importa); de qualquer modo, a desigualdade é boa. Todos esses argumentos foram defendidos ao mesmo tempo; nenhum deles jamais é abandonado diante das evidências – continuam retornando.

Veja o artigo que escrevi para The American Prospect há 22 anos, “The Rich, the Right, and the Facts” (“Os Ricos, a Direita e os Fatos”). Todos os argumentos falsos que identifiquei ali continuam sendo defendidos hoje. E sabemos perfeitamente por quê: tudo tem a ver com a defesa do 1% da ameaça de impostos mais altos e outras ações que poderiam limitar as rendas mais altas.

O que é novo na última rodada é o local. Tradicionalmente, a negação da desigualdade foi efetuada na página editorial de The Wall Street Journal e outros semelhantes. Vê-la expandir-se para o Financial Times é uma novidade, e é um sinal de que o FTpode estar sofrendo de uma paralisante “murdochização”.





* Paul Krugman recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008, é professor de Economia na Universidade de Princeton, onde leciona regularmente nos cursos introdutórios. Também participou por um ano do Conselho de Assessores Econômicos da Presidência dos Estados Unidos em 1982-1983.





Fonte: Carta Capital