Notícias Publicado: 22/08/2014 | 11:32

ARTIGO: Ainda o poder do financismo

A lógica da acumulação crescente de capital impõe a necessidade da sustentação e da sobrevivência de imensos e poderosos grupos econômicos






por Paulo Kliass



O processo de ampliação e extensão do capitalismo ocorre conjuntamente à tendência de concentração e internacionalização de suas atividades econômicas. O sistema só se mantém vivo graças ao seu próprio movimento de expansão, naquilo que passou a ser conhecido também como reprodução ampliada do capital.

As necessidades desse tipo particular de crescimento supõem novos espaços para a realização da dinâmica da acumulação. Assim, setores e ramos que não eram ainda marcados por relações de produção tipicamente capitalistas passam a ser incorporados ao centro da modernidade conservadora, com avanços de processos de assalariamento nas relações com a força de trabalho e de mercantilização explícita dos bens e serviços gerados na escala econômica.

Assim, toda a complexa rede do processo produtivo no campo e no espaço rural  converte-se ao “modus operandi” da lógica do capital, tanto nas atividades agrícolas como na pecuária. Por outro lado, a produção industrial capitalista em sentido estrito também se amplia pelo lado dos serviços, que passam cada vez mais a serem gerados e ofertados na forma de mercadorias. Trata-se do caminho inevitável rumo à generalização crescente das relações capitalistas no âmbito das mais variadas e diversas sociedades, espalhadas por todos os continentes.

Imperialismo, globalização e mundialização são termos genéricos para se referir ao processo de superação das barreiras geográficas e dos limites dos Estados nacionais no processo de consolidação desse modo de produção. À medida que se afirma como a forma hegemônica de organização social, o capitalismo se impõe sobre as demais tentativas de articular a produção e a distribuição de bens e serviços. A organização em torno de grandes conglomerados empresariais oferece a possibilidade de gerar ganhos econômicos em escala e permite avançar na conquista de mercados por meio da redução de custos e de preços.

A lógica da acumulação crescente de capital impõe a necessidade da sustentação e da sobrevivência de imensos e poderosos grupos econômicos. Os oligopólios se assentam como a marca do capitalismo concentrador, com sua dominação sobre os mercados e a prevalência sólida e articulada dos agentes de oferta sobre a pulverização da estrutura fragilizada da demanda. A antiga marca do liberalismo econômico se vê cada vez mais abandonada na realidade da dinâmica do capital.
 
O sonho utópico da busca de um equilíbrio perfeito - a partir da liberdade de ação das forças de oferta e demanda – se desfaz a partir do enfrentamento da dureza da realidade concreta. A profunda assimetria de poder existente entre o mundo das empresas e o universo dos consumidores evidencia a natureza da exploração.

Por outro lado, o processo de acumulação de capital se verifica com a tendência ao fortalecimento de sua dimensão financeira. Num primeiro momento, tratava-se de uma natureza que dizia respeito à simples articulação entre o capital industrial e o capital bancário. As necessidades impostas à dinâmica da acumulação e a forte concorrência intercapitalista forçavam os industriais a buscarem recursos antecipados sob a forma de empréstimos e outras formas de crédito. Assim, dessa simbiose entre as empresas produtoras e os bancos no início do século XX nascia uma forma inovadora de capital – o financeiro.





* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris.
 




Fonte: Carta Maior