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Publicado: 16/10/2014 | 10:14
ARTIGO: Um programa crível
Cada candidato precisa responder na televisão a três perguntas elementares. O resto é puro “marquetismo” para vender sabonete.

Terminou o primeiro turno da campanha presidencial onde nada se esclareceu. Chegou a hora de a onça beber água. Combinemos inicialmente:
1. Que a economia brasileira está em situação desagradável, mas não à beira do apocalipse. 2. Que sua recuperação exige ajustes importantes, mas não catastróficos. 3. Que mais de 70% dos cidadãos clamam por “mudanças”, mas temem qualquer retrocesso aos bem-sucedidos programas de integração social (aumento da renda real e da disponibilidade de crédito), da redução da pobreza (Bolsa Família com condicionalidade) e da ênfase ao continuado aumento da “igualdade de oportunidades” (ampliação do acesso à saúde e à educação, ambos precários, mas com avanços significativos). 4.Que parte da deterioração da economia deve-se à mudança do ambiente externo não percebido a tempo e que exigia uma melhor harmonia entre a política econômica e a social. 5. Que a disponibilidade de recursos diminuiu a partir de 2010, quando terminou o “vento de cauda”, a melhora das relações de troca. 6.Que parte significativa da deterioração fiscal é devida à dramática redução da taxa de crescimento do PIB interpretada equivocadamente como “falta de demanda” interna. 7. Que a murcha do PIB foi, basicamente, devida à redução da produção de manufaturados, cuja demanda foi desviada para as importações. Finalmente, mas sem extinguir a lista: 8. É evidente que, mesmo protegidos por uma reserva de 380 bilhões de dólares, não podemos continuar a ter déficits em conta corrente de 80 bilhões de dólares, principalmente agora que as exportações agropecuárias vão crescer menos, devido à provável valorização do dólar.
Vamos precisar aumentar as exportações de manufaturados em condições muito adversas: a) Boa parte dos exportadores perdeu seus clientes e se transformaram em eficientes importadores. b) Estamos tecnologicamente atrasados por falta de investimentos. c) Perdemos o passo na integração das cadeias produtivas. d) As exportações de manufaturados produzidos por empresas estrangeiras dependem das decisões políticas das matrizes e teremos de negociar com elas um “bônus de porta-luvas”. e) Há sérias desconfianças sobre os créditos tributários nas exportações. f) A situação da economia é de recuperação lenta nos nossos clientes industriais (EUA e Eurolândia), o que atrasa o eventual “efeito câmbio”. g) É preciso convencer os exportadores de que, daqui para a frente, a sobrevalorização cambial não será usada como substituta das políticas monetária, fiscal e salarial no combate à inflação.
Combinado isso, o que se espera dos dois competidores? Que esqueçam o protagonismo teatral e deseducador que os “marqueteiros” lhes impuseram no primeiro turno e apresentem claramente, sem ataques diversionistas, como vão enfrentar o problema da volta ao crescimento do PIB nas condições iniciais de que dispomos:
A. Uma estrutura demográfica que vai limitar a oferta de mão de obra a, no máximo, 1% ao ano. B. Como desejamos um crescimento do PIB per capita de 3% ao ano, que dobra a renda a cada geração (25 anos), precisamos que a produtividade de cada trabalhador cresça à mesma taxa de 3%. C. A produtividade do trabalhador depende da quantidade da infraestrutura (determinada pelo sucesso das concessões) somada ao estoque de capital privado (determinado por uma recuperação do “espírito animal” do empresariado). D. O aumento do PIB passa pela recuperação da produção industrial, que para aproveitar as economias de escala precisa complementar a demanda interna de 200 milhões de habitantes com uma exportação competitiva que absorva parte dos custos fixos.
Cada candidato precisa responder, nas cinco horas que dispõe na televisão, a três perguntas elementares:
1. Como vai aumentar a poupança pública, sem a qual todo o resto é mais difícil e instável?
2. Como espera atrair o setor privado para aumentar o investimento em infraestrutura e produzir um ambiente econômico propício a que ele aumente o seu próprio investimento?
3. Como vai estimular a construção de um mecanismo eficaz para devolver ao setor industrial o seu dinamismo exportador?
O resto é puro “marquetismo” para vender sabonete!
* Antônio Delfim Netto é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, professor catedrático de Economia Brasileira e de Teoria do Desenvolvimento Econômico, professor emérito da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e presidente do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Fonte: Carta Capital
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