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Publicado: 26/01/2015 | 09:47
ARTIGO: As políticas da estupidez econômica
O Ocidente acreditou que a política monetária pode salvar tudo, mas o mundo precisa de demanda, e o setor privado sozinho não poderá fornecer isso.

por Joseph Stiglitz
Em 2014, a economia mundial permaneceu travada na mesma rotina em que está inserida desde o surgimento da crise financeira global de 2008. Apesar da ação aparentemente forte dos governos na Europa e nos EUA, ambas economias sofreram profundas e longas retrações. A distância entre onde elas estão e onde elas estariam se a crise não tivesse acontecido é enorme. Na Europa, esta distância aumentou em 2014.
Os países em desenvolvimento se saíram melhor, mas mesmo lá as notícias foram desagradáveis. A economia mais bem sucedida entre elas, tendo baseado seu crescimento em exportações, continuou a crescer no início da crise financeira, mesmo com o endurecimento dos mercados de exportação. Mas sua performance começou a cair significativamente em 2014.
Em 1992, Bill Clinton baseou sua campanha vitoriosa para a presidência dos EUA em um slogan simples: "É a economia, estúpido." Da perspectiva de hoje, as coisas naqueles tempos não pareciam tão ruins; a renda do americano médio hoje é menor. Mas nós podemos nos inspirar nos esforços de Clinton. O mal-estar que aflige a economia global hoje pode ser refletido em dois slogans simples: "é a política, estúpido" e "demanda, demanda, demanda."
A estagnação quase global testemunhada em 2014 é obra do ser humano. Ela é o resultado de políticas em algumas grandes economias - políticas estas que sufocaram a demanda. Na ausência da demanda, o investimento e os trabalhos não se materializarão. Simples assim.
Em nenhum lugar isso está tão claro quanto na Zona do Euro, que adotou oficialmente as políticas de austeridade - cortes nos gastos do governo que aumentam a fragilidade do setor privado. A estrutura da Zona do Euro é parcialmente culpada por ter impedido os ajustes necessários quando do choque da crise; na ausência de uma união bancária, não é nenhuma surpresa que o dinheiro tenha fugido dos países mais afetados, o que enfraqueceu seu sistema bancário e diminuiu os empréstimos e investimentos.
No Japão, um dos três pontos do programa do Primeiro Ministro Shinzo Abe para a revitalização econômica foi lançado na direção errada. A queda do PIB que se seguiu ao aumento da taxa de consumo em Abril conferiu maior evidência a favor da economia keynesiana - isso se não havia evidências suficientes.
Os EUA impuseram a menor dose de austeriade, e tiveram a melhor performance econômica. Mas, mesmo nos EUA, há cerca de 650.000 funcionários públicos a menos do que antes da crise; normalmente, nós esperaríamos dois milhões a mais. Como resultado, os EUA também estão sofrendo com um crescimento tão anêmico e os salários se mantêm basicamente estagnados.
Boa parte da desaceleração do crescimento em países emergentes e em desenvolvimento refletem a desaceleração da China. A China é hoje a maior economia do mundo (em termos de paridade de poder aquisitivo), e ela tem sido há tempos a maior contribuinte do crescimento global. Mas o sucesso chinês criou seus próprios problemas, que mais cedo ou mais tarde serão apontados.
A mudança da economia chinesa da quantidade para a qualidade é bem-vinda - e quase necessária. E apesar da luta do presidente Xi Jinping contra a corrupção ter feito com que o crescimento econômico diminuisse, pois paralisou contratos públicos, não há razão para Xi afrouxar. Pelo contrário, outras forças que minavam a confiança em seu governo - problemas ambientais generalizados, um alto e crescente nível de desigualdade e a fraude no setor privado - devem ser apontados com igual vigor. Em suma, o mundo não deve esperar que a China escore a demanda global agregada em 2015. Talvez haja um buraco maior ainda para ser preenchido.
Enquanto isso, na Russia, podemos esperar que as sanções do ocidente façam com que o crescimento diminua, com efeitos adversos a já enfraquecida Europa. (Este não é um argumento contra as sanções: o mundo tinha de responder à invasão russa da Ucrânia, e os CEOs ocidentais que argumentaram o contrário, buscando proteger seus investimentos, demonstraram uma completa falta de princípios.)
Nos últimos seis anos, o Ocidente acreditou que a política monetária pode salvar tudo. A crise levou a grandes déficts orçamentários e um aumento das despesas, e a necessidade de desalavancagem, alguns acham, significa que a política fiscal deve ser posta de lado. O problema é que baixas taxas de juros não motivarão as empresas a investirem se não houver demanda por seus produtos. Nem irão fazer com que os consumidores peguem emprestado para consumir se eles estão apreensivos quanto ao futuro (e com razão). O que a política monetária pode fazer é criar bolhas nos preços dos ativos. Isto até pode sustentar os preços dos títulos da dívida do governo na Europa, prevenindo uma crise da dívida. Mas é importante que sejamos claros: a probabilidade de que políticas monetárias frouxas restaurarão a prosperidade global é zero.
Isso nos traz de volta à política e às políticas públicas. A demanda é o que o mundo mais precisa. O setor privado - mesmo com um apoio generoso das autoridades monetárias - não poderá fornecer isso. Mas uma política fiscal pode. Temos uma ampla gama de escolhas de investimentos públicos com retornos elevados - muito maiores do que o real custo do capital - e isso fortaleceria os balanços dos países que empreendessem nesta direção.
O grande problema que o mundo enfrenta em 2015 não é econômico. Nós sabemos como escapar do atual mal-estar. O problema são nossas políticas estúpidas.
* O professor da Universidade de Columbia, Joseph Eugene Stiglitz, foi ganhador do Prêmio Nobel de Economia no ano de 2001, presidente do Conselho de Assessores Econômicos (Council of Economic Advisers) no governo do Presidente Bill Clinton (1995-1997) e vice-presidente sênior para Políticas de Desenvolvimento do Banco Mundial.
** Texto traduzido por Roberto Brilhante
Fonte: Carta Maior
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