Notícias Publicado: 3/11/2015 | 10:18

ARTIGO: Banqueiros, bancários e sociedade

Diferente das dificuldades que atingem parte do setor produtivo, em especial a indústria e a construção, o setor bancário mantém um sorriso econômico largo. Para os bancos, no Brasil, as crises só fazem aumentar os seus lucros








por Clemente Ganz Lúcio






Os bancários estão em plena negociação coletiva para definir as regras que regerão as relações de trabalho para o período 2015/2016. Como as demais categorias, as campanhas enfrentam uma situação econômica adversa decorrente da recessão pela qual passa a economia brasileira, em um ambiente político conturbado.

Entretanto, muito diferente das dificuldades que atingem parte do setor produtivo, em especial a indústria e a construção – e que tem reflexos no setor de serviços e comércio - o setor bancário mantém um sorriso econômico largo de quem atua em céu de brigadeiro. Para os bancos, no Brasil, as crises só fazem aumentar os seus lucros.

O estudo “Desempenho dos Bancos em 2104”, produzido pela Rede Bancários do DIEESE (www.dieese.org.br), evidencia essa contradição. Naquele ano, os bancos apresentaram um fraco crescimento do crédito, desempregaram e melhoraram seus resultados. O estudo destaca que os cinco maiores bancos – Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, Itaú e Santander – consolidaram, em 2014, um total de ativos de R$ 5,3 trilhões, crescimento de mais de 14% e o capital próprio é da ordem de R$ 370 bilhões, aumento de mais de 18% em relação a 2013.

Esses cinco bancos obtiveram em 2014, um lucro líquido de mais de R$ 60 bilhões, o que representa um crescimento de 18,5% em relação ao ano anterior. Os dados já divulgados com os resultados do primeiro semestre desse ano revelam que a tendência de ótimos resultados permanece, mesmo diante da crise pela qual passa o país, como pode ser visto em estudo sobre o primeiro semestre de 2015 que o DIEESE divulgou esta semana.

O aumento da taxa básica de juros (Selic), as extorsivas taxas de juros cobradas de consumidores e empresas, o valor e os elevados reajustes das tarifas bancárias, conformam uma assustadora capacidade de transferência de renda da sociedade (trabalhadores, consumidores e setor produtivo) para o setor bancário e para os rentistas. Uma economia que tem e alimenta esse perverso fluxo de apropriação da riqueza não conseguirá alçar um projeto nacional de desenvolvimento. A renda e a riqueza produzidas pelo trabalho serão concentradas, ampliando desigualdades. Os bancos operam, nas condições atuais da política econômica e institucionalidade do país, essa brutal deformação.


Função


Entretanto, na sociedade capitalista, os bancos devem cumprir um papel relevante, determinado por uma política econômica de desenvolvimento produtivo, para emprestar os recursos que a sociedade deposita em seus cofres para que: (a) as empresas invistam na ampliação da capacidade produtiva (novas plantas, novas máquinas); (b) financiando a compra de insumos e pagamento dos salários para que as empresas produzam as demandas que recebem; (c) financiando o crédito para o consumidor e habitação; (d) emprestando para o governo fazer investimentos em infraestrutura econômica e social. O custo desses empréstimos deve seguir o critério de razoabilidade, algo desconhecido pelo sistema financeiro brasileiro.

Os bancários lutam pelos seus salários e condições de trabalho. Os bancos oferecem uma proposta provocativa, metade da inflação do período, ou seja, propõem arrochar os salários. A luta será dura!

A sociedade quer alçar seu desenvolvimento. Para isso terá que alterar radicalmente o papel dos bancos no Brasil, mexer na estrutura da dívida pública, na sua composição e forma de remuneração; criar os mecanismos de crédito de longo prazo para que empresas e governos invistam; atuar de maneira determinada para reduzir os spreads bancários com consequente redução dos juros para o consumidor. Precisa, ainda, refrear a atividade bancária de remessa de riqueza para paraísos fiscais bem como impedir a circulação de recursos de caixa dois desviados da estrutura tributária. Se a sociedade brasileira quer mesmo alçar seu crescimento econômico e desenvolvimento social terá uma dura e longa luta para mudar os bancos no Brasil!    






* Clemente Ganz Lúcio é professor universitário e sociólogo. Atua como diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - DIEESE






Fonte: Caros Amigos