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Publicado: 16/08/2016 | 08:34
Artigo: Reforma monetária - hereges contra excêntricos
A escola pós-keynesiana demostra com clareza que é o investimento que gera a capacidade de economizar, e não o contrário.
A escola pós-keynesiana demostra com clareza que é o investimento que gera a capacidade de economizar, e não o contrário.
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por Alejandro Nadal
A partir da crise de 2008, vem surgindo novas interpretações e visões sobre o papel do dinheiro e dos bancos na economia. Estas diferentes perspetivas monetárias são muito diferentes do que vemos na teoria econômica convencional. Porém, existe também uma polêmica entre os que se opõem à teoria tradicional dentro das universidades ou desde os movimentos da sociedade civil.
A nova discussão gira em torno da teoria da moeda endógena numa economia capitalista. A ideia é simples, e existe, devido à crise, uma melhor percepção sobre a forma com a que os bancos podem criar dinheiro do nada. Ou seja, o funcionamento dos bancos não se limita a receber depósitos das economias dos clientes para emprestar aos investidores.
A sociedade civil entende hoje, melhor do que no passado, que quando um banco outorga um crédito a uma pessoa ele abre uma conta com um saldo a seu favor pelo montante do empréstimo. Não precisa ir a um cofre para ver se há depósitos suficientes para viabilizar a operação. O banco efetivamente cria dinheiro do nada. A teoria econômica convencional se mantém fiel à ideia de que os bancos privados são simples intermediários entre os cidadãos comuns que querem poupar seu dinheiro e os investidores.
No mundo acadêmico também existem correntes analíticas distintas que adotam um ponto de vista mais realista, baseado na teoria da moeda endógena. As perspectivas pós-keynesianas, as da teoria do circuito monetário e da chamada teoria monetária moderna, são as mais destacáveis nesta paisagem acadêmica emergente.
Na sociedade civil, surgiram organizações como a Nova Fundação Econômica, na Inglaterra. Sua proposta central é rever questionar o poder de criação monetária que os bancos atribuíram a si mesmos. Também se busca restringir a atividade dos bancos, para evitar o crescimento descontrolado da economia e a destruição do meio ambiente, com medidas como a exigência aos bancos de manter 100% das reservas sempre disponíveis – ou seja, cada crédito teria sua contraparte em reservas no banco prestamista. Deste modo, os bancos não poderiam criar moeda, e só seria possível concretizar um empréstimo quando realmente existam depósitos suficientes para tanto, obtidos através da captação bancária. Assim, os bancos não poderiam criar dinheiro do nada.
Há pouco tempo, o Jornal de Economia de Cambridge publicou um artigo com um título revelador, cuja tradução livre seria: “Reservas bancárias totais: mais `excêntricos´ que `valentes hereges´”. Os autores são Malcolm Sawyer e Giuseppe Fontana, dois conhecidos analistas da corrente opositora à visão convencional. O artigo critica a proposta dessas organizações da sociedade civil para criar um sistema bancário que funcione com o requerimento de plenas reservas.
Em seu artigo: Sawyer e Fontana têm razão numa parte: muitas das análises dos movimentos civis sobre reforma monetária carecem de solidez teórica. Em alguns planteamentos sobre a inflação, eles se aproximam das posturas do monetarismo mais tradicional, ignorando quase completamente o papel dos bancos, e também a relação que existe entre investimento e poupança – com frequência, eles afirmam que os investimentos devem ser provenientes dos recursos economizados. Esta análise propõe restringir o uso daquilo que serve de moeda: o montante em circulação estaria determinado pelas decisões dos bancos centrais e dos bancos comerciais, e não poderiam financiar os investimentos por valores superiores ao permitido.
Esta inferência é algo ingênua. A escola pós-keynesiana demostra com claridade que é o investimento que gera a capacidade de economizar, e não o contrário. Se algo sabemos a partir dos trabalhos de Hyman Minsky e Marc Lavoie, por exemplo, é que a oferta e a procura por créditos bancários para financiar a produção de bens e serviços é parte integral das operações de uma economia capitalista. Na atualidade, a criação monetária por parte dos bancos comerciais não pode ser vista como algo separado do funcionamento do capitalismo contemporâneo.
Entretanto, a análise de Sawyer e Fontana também deixa a desejar ao não dizer nada sobre as taxas de juros, e não cobrir de forma satisfatória a naturaleza das crises e da perene instabilidade das economias capitalistas. Inclusive, em algumas passagens, eles sustentam que a criação monetária dos bancos é a fonte de fluxos de circulante que permite prevenir as crises e reduzir a instabilidade. Isso contradiz radicalmente os resultados demonstrados por Minsky sobre a instabilidade intrínseca das economias capitalistas com moeda endógena.
No fundo, os acadêmicos como Sawyer e Fontana temem que a grande visibilidade adquirida pelas propostas dos excêntricos afetem a legitimidade analítica que as críticas e propostas dos valentes hereges possuem. É uma preocupação legítima, mas também é necessário mostrar que sem a mobilização das organizações civis, este debate não haveria saído à luz pública.
* Texto original publicado no jornal "La Jornada do México"
Tradução: Victor Farinelli
Fonte: Carta Maior
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por Alejandro Nadal
A partir da crise de 2008, vem surgindo novas interpretações e visões sobre o papel do dinheiro e dos bancos na economia. Estas diferentes perspetivas monetárias são muito diferentes do que vemos na teoria econômica convencional. Porém, existe também uma polêmica entre os que se opõem à teoria tradicional dentro das universidades ou desde os movimentos da sociedade civil.
A nova discussão gira em torno da teoria da moeda endógena numa economia capitalista. A ideia é simples, e existe, devido à crise, uma melhor percepção sobre a forma com a que os bancos podem criar dinheiro do nada. Ou seja, o funcionamento dos bancos não se limita a receber depósitos das economias dos clientes para emprestar aos investidores.
A sociedade civil entende hoje, melhor do que no passado, que quando um banco outorga um crédito a uma pessoa ele abre uma conta com um saldo a seu favor pelo montante do empréstimo. Não precisa ir a um cofre para ver se há depósitos suficientes para viabilizar a operação. O banco efetivamente cria dinheiro do nada. A teoria econômica convencional se mantém fiel à ideia de que os bancos privados são simples intermediários entre os cidadãos comuns que querem poupar seu dinheiro e os investidores.
No mundo acadêmico também existem correntes analíticas distintas que adotam um ponto de vista mais realista, baseado na teoria da moeda endógena. As perspectivas pós-keynesianas, as da teoria do circuito monetário e da chamada teoria monetária moderna, são as mais destacáveis nesta paisagem acadêmica emergente.
Na sociedade civil, surgiram organizações como a Nova Fundação Econômica, na Inglaterra. Sua proposta central é rever questionar o poder de criação monetária que os bancos atribuíram a si mesmos. Também se busca restringir a atividade dos bancos, para evitar o crescimento descontrolado da economia e a destruição do meio ambiente, com medidas como a exigência aos bancos de manter 100% das reservas sempre disponíveis – ou seja, cada crédito teria sua contraparte em reservas no banco prestamista. Deste modo, os bancos não poderiam criar moeda, e só seria possível concretizar um empréstimo quando realmente existam depósitos suficientes para tanto, obtidos através da captação bancária. Assim, os bancos não poderiam criar dinheiro do nada.
Há pouco tempo, o Jornal de Economia de Cambridge publicou um artigo com um título revelador, cuja tradução livre seria: “Reservas bancárias totais: mais `excêntricos´ que `valentes hereges´”. Os autores são Malcolm Sawyer e Giuseppe Fontana, dois conhecidos analistas da corrente opositora à visão convencional. O artigo critica a proposta dessas organizações da sociedade civil para criar um sistema bancário que funcione com o requerimento de plenas reservas.
Em seu artigo: Sawyer e Fontana têm razão numa parte: muitas das análises dos movimentos civis sobre reforma monetária carecem de solidez teórica. Em alguns planteamentos sobre a inflação, eles se aproximam das posturas do monetarismo mais tradicional, ignorando quase completamente o papel dos bancos, e também a relação que existe entre investimento e poupança – com frequência, eles afirmam que os investimentos devem ser provenientes dos recursos economizados. Esta análise propõe restringir o uso daquilo que serve de moeda: o montante em circulação estaria determinado pelas decisões dos bancos centrais e dos bancos comerciais, e não poderiam financiar os investimentos por valores superiores ao permitido.
Esta inferência é algo ingênua. A escola pós-keynesiana demostra com claridade que é o investimento que gera a capacidade de economizar, e não o contrário. Se algo sabemos a partir dos trabalhos de Hyman Minsky e Marc Lavoie, por exemplo, é que a oferta e a procura por créditos bancários para financiar a produção de bens e serviços é parte integral das operações de uma economia capitalista. Na atualidade, a criação monetária por parte dos bancos comerciais não pode ser vista como algo separado do funcionamento do capitalismo contemporâneo.
Entretanto, a análise de Sawyer e Fontana também deixa a desejar ao não dizer nada sobre as taxas de juros, e não cobrir de forma satisfatória a naturaleza das crises e da perene instabilidade das economias capitalistas. Inclusive, em algumas passagens, eles sustentam que a criação monetária dos bancos é a fonte de fluxos de circulante que permite prevenir as crises e reduzir a instabilidade. Isso contradiz radicalmente os resultados demonstrados por Minsky sobre a instabilidade intrínseca das economias capitalistas com moeda endógena.
No fundo, os acadêmicos como Sawyer e Fontana temem que a grande visibilidade adquirida pelas propostas dos excêntricos afetem a legitimidade analítica que as críticas e propostas dos valentes hereges possuem. É uma preocupação legítima, mas também é necessário mostrar que sem a mobilização das organizações civis, este debate não haveria saído à luz pública.
* Texto original publicado no jornal "La Jornada do México"
Tradução: Victor Farinelli
Fonte: Carta Maior
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