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Publicado: 9/01/2018 | 08:11
Artigo: A encruzilhada de 2018 - entre 1968 e 1988
A crise política e institucional que vive o país parece só guardar paralelo com alguns poucos episódios da história brasileira recente, dentre eles o golpe militar e a retomada da democracia, ambos acontecimentos envoltos em um enorme ambiente de incerteza.
O ano de 2018 certamente não está escrito nas estrelas. As incertezas que o envolvem não nos permitem fazer prognóstico confiável, mas parece evidente que a disputa política será em ambiente de anormalidade, herança dos momentos de golpe de Estado
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por Guilherme Santos Mello
Dois mil e dezessete terminou e com isso inaugura-se a temporada de previsões para 2018. Se em tempos normais tal exercício já deve ser enxergado com boa dose de ceticismo, tais previsões merecem uma dose extra de desconfiança diante da atual situação brasileira e internacional. A crise política e institucional que vive o país parece só guardar paralelo com alguns poucos episódios da história brasileira recente, dentre eles o golpe militar e a retomada da democracia, ambos acontecimentos envoltos em um enorme ambiente de incerteza.
Na década de 1960, após o golpe de 64, o episódio político mais marcante certamente foi a edição do AI-5 em 1968, que representou um aprofundamento do golpe e uma escalada no autoritarismo já presente desde de 1964, mas que dava sinais de que poderia ser revertido. Nunca é demais lembrar que algumas grandes lideranças do período democrático apoiaram o golpe de 64, acreditando que a situação era extraordinária/transitória e que duraria apenas alguns anos até o pleno restabelecimento da democracia através de eleições diretas. Às vésperas do AI-5, boa parte dos opositores da ditadura militar estavam razoavelmente organizados politicamente, com o apoio de artistas e da intelectualidade, promovendo manifestações e atos de grandes proporções. O candidato favorito era JK, que, mesmo acusado em escândalos forjados de corrupção, trazia ao povo a lembrança dos tempos de prosperidade e otimismo que seu governo representou.
Em pouco tempo, todas as esperanças ruíram. O AI-5 foi a confirmação de que, em um golpe de Estado, pode-se saber quando se dá seu início, mas é quase impossível prever seu fim. O receio daqueles que promoveram o golpe de arcar com o custo político e jurídico daquilo que fizeram os impulsiona para frente, obrigando-os sempre a aprofundar o estado de exceção ao invés de abrandá-lo, na esperança de promover a destruição final de seus adversários. A única saída é ampliar as arbitrariedades, caçar seus inimigos e manter-se no poder.
À luz da história, é possível que 2018 tenha elementos similares aos de 1968. O golpe, que teve início ainda em 2014 logo após a vitória de Dilma Rousseff no segundo turno, já se tornou pródigo em proteger amigos e perseguir adversários, especialmente o trabalhador brasileiro e seus representantes políticos. Assim como em 68, o ataque aos artistas, às universidades, aos sindicatos e aos movimentos sociais faz parte do arsenal mobilizado pelos golpistas para garantir sua posição política. Assim como em 1968, a caça aos inimigos não trouxe a legitimidade esperada e exigirá uma perseguição ainda mais voraz às lideranças populares que ousam questionar o golpe. Assim como em 1968, a perspectiva de um processo eleitoral livre e verdadeiramente democrático assusta profundamente os defensores do golpe, incluindo parte da mídia que o respaldou, diante da hipótese real de que as forças populares voltem ao poder. Talvez a maior diferença seja que em 1964 o golpe vestia farda, enquanto em 2014 o golpe veste terno e toga. A despeito da roupagem, o conteúdo ideológico dos dois golpes é bastante similar: involucrados por uma aura de moralismo, os reais interesses por trás dos golpes foram a proteção dos mais ricos e o desprezo pelo trabalhador e pelo pobre, assim como pela democracia.
Se esta chave de leitura for demasiadamente pessimista para o eventual leitor, talvez seja o caso de lembrar que 2018 também possui elementos em comum com um ano muito mais alvissareiro, o de 1988 e da promulgação da constituição cidadã. A profunda crise econômica, a descrença no governo de plantão, a luta organizada de parcelas relevantes da sociedade e a derrota das forças conservadoras da antiga ditadura militar abriram espaço para a construção de um pacto social que, mesmo recheado de problemas e contradições, representou a retomada da democracia e abriu a perspectiva de uma nova era de inclusão social. Foi a luta dos derrotados em 64 que possibilitou, em um momento de fragilidade do golpe e das ideias que representava, a retomada da democracia e a construção das bases na qual o pobre voltou a existir à luz da lei brasileira.
O ano de 2018 certamente não está escrito nas estrelas. A quantidade de incertezas que o envolve não nos permite fazer nenhum tipo de prognóstico confiável, mas parece evidente que a disputa política se dará em um ambiente de total anormalidade, herança típica dos momentos de golpe de Estado. Todos os agentes políticos relevantes, inclusive juízes e promotores, sabem que uma eventual derrota em 2018 pode representar sua “morte” política dali pra frente. Quando a disputa deixa de ser pelo comando do Estado e passa a ser pela sobrevivência física e política, não se pode mais dizer que vivemos uma democracia, pois a aceitação da derrota significa uma sentença de morte para os perdedores. E ser democrata é, em grande medida, saber perder.
Mas, mesmo neste ambiente hostil, é viável derrotar o golpe antes que um novo AI-5 se consolide, sendo necessário uma profunda intensificação da luta popular, da mesma ou maior intensidade que aquela que garantiu a volta da democracia e a promulgação da Constituição cidadã, atualmente tão maltratada por nossos legisladores e governantes.
* Guilherme Santos Mello é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP).
Fonte: Brasil Debate
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