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Publicado: 5/09/2019 | 07:12
A destruição do Brasil

"É óbvio que o estilo destrambelhado do ocupante do Palácio do Planalto e sua insistência em manter uma polarização permanente, com base em declarações relativas a temas de interesse exclusivo da extrema direita, contribuem também para esse rápido emagrecimento de sua base de apoio. No entanto a tragédia na dimensão do econômico e do social é uma das principais razões na elevação do descontentamento generalizado"

por Paulo Kliass
As pesquisas de opinião demonstrando as quedas sucessivas na popularidade do Presidente da República guardam relação íntima com as opções que a equipe governamental tem feito desde a posse, há pouco mais de 8 meses. É óbvio que o estilo destrambelhado do ocupante do Palácio do Planalto e sua insistência em manter uma polarização permanente, com base em declarações relativas a temas de interesse exclusivo da extrema direita, contribuem também para esse rápido emagrecimento de sua base de apoio. No entanto a tragédia na dimensão do econômico e do social é uma das principais razões na elevação do descontentamento generalizado.
Em nenhum outro momento da História de nosso País um presidente eleito chegou a níveis tão altos de avaliação negativa passados apenas alguns meses desde sua posse. Há pesquisas encomendadas para todos os gostos e tipos, mas a maioria delas apresenta uma porcentagem dentre 38% e 41% da população avaliando a atual gestão como já sendo “péssima e ruim”. A tendência que vem se firmando ao longo dos últimos meses é de redução de avaliações positivas e aumento das negativas. Por mais que a postura anti-petista de uma parcela do eleitorado tenha contribuído para vitória de Bolsonaro em outubro do ano passado, o fato é que a legião dos arrependidos só faz aumentar a cada dia que passa.
A explosão continuada dos índices de desemprego vem desde o início do austericídio em 2015, ainda quando Dilma Roussef resolveu entregar o comando da economia para Joaquim Levy. No final de 2014, por exemplo, essa taxa estava em 6,8%. E o índice praticamente dobrou ao longo dos anos seguintes. Atualmente está em 11,8%, o equivalente a quase 13 milhões de pessoas. O total de subaproveitados em sua força de trabalho se aproxima perigosamente da casa de 30 milhões de pessoas. A recessão da atividade econômica segue em marcha, com uma queda acumulada que transforma o último quadriênio na pior desempenho do PIB de toda a nossa História.
A armadilha do superávit primário
Para conferir a esse quadro doloroso uma tintura ainda mais trágica, vale recordar que a essência da política econômica do conservadorismo ortodoxo recomenda a prática da assim chamada “responsabilidade fiscal”. Na verdade um eufemismo para conferir um certo ar de seriedade a uma estratégia de destruição do Estado brasileiro. A trajetória vem de longe, desde quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) introduziram a novidade do “superávit primário” nas negociações do volume de endividamento externo dos países do Terceiro Mundo ao longo da década de 1980. A armadilha do adjetivo “primário” confere status especial às despesas financeiras dos Estados nacionais e obriga seus governos a gerarem superávit por meio da compressão das demais despesas.
O Brasil seguiu à risca tal recomendação e a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) em 2000 incorpora essa diretiva para dentro da nossa legislação. Assim, a Lei Complementar n° 101 passa a definir a obrigatoriedade de geração de superávit primário como sinônimo de condução “responsável” da política fiscal. Os gestores dos governos federal, estaduais e municipais passam a ser obrigados a cumprir diversas metas no que se refere às contas púbicas, dentre as quais a de obtenção de um valor determinado de superávit primário.
Em outras palavras, a legislação em vigor há quase 2 décadas prevê a criminalização do comportamento do agente público que não comprimir as despesas sociais para que o saldo nas respectivos Tesouros sejam direcionados para pagamento de juros da dívida pública. Uma loucura!
Logo depois do “golpeachment” que afastou Dilma e trouxe Henrique Meirelles ao Ministério da Fazenda sob Michel Temer, o Congresso Nacional aprovou a PEC do Fim do Mundo, como ficou conhecida a alteração constitucional que recebeu o carimbo de EC 95/2016. Por meio dessa medida, foi criado um novo eufemismo - o “Novo Regime Fiscal”. Não contentes com o desastre provocado pela LRF, os integrantes da nova equipe econômica conseguiram aprovar a medida que congela por 20 anos os gastos sociais, sempre na lógica do superávit primário.
Austeridade e generalização da miséria.
Como o conjunto da política econômica só fez aprofundar a recessão das atividades desde então, o fato é que as necessidades de apoio à maioria da população por meio de políticas públicas de redução de danos da miséria social só fizeram aumentar de tamanho. No auge da crise é que a presença do Estado em áreas como previdência social, saúde, educação, assistência social, segurança pública e outras se faz tão necessária. No entanto, a lógica perversa do austericídio e a cabeça de planilha da tecnocracia vendida ao financismo impedem o recurso a essa tábua de salvação.
Pois agora estamos vivendo essa opção criminosa em toda a sua intensidade. A recessão continuada reduz a capacidade de arrecadação do Estado, uma vez que a maior parte de nossa estrutura tributária é montada sobre produção e consumo. Assim, surge um volume de necessidades de financiamento que somente será coberto por meio do crescimento do PIB e a volta das atividades econômicas ao patamar do período anterior à crise. O raciocínio obtuso das elites tupiniquins insiste no receituário que foi abandonado há muito por seus correspondentes nos países ricos, logo depois da crise econômico-financeira de 2008/9. Por aqui permanecem com o mantra de “cortar, cortar e cortar”, ao passo que nos Estados Unidos, na União Europeia e no próprio FMI a ordem é buscar o protagonismo do Estado.
Trata-se daquilo que o “economês” chama de adoção de medidas contracíclicas. Ao contrário do que recomenda o senso comum e o besteirol criminoso dos “especialistas” ouvidos pelas editorias de economia dos grandes meios de comunicação, no momento de crise o Estado deve aumentar seus gastos. Foi isso que fizeram lá fora, nos países centrais. Essa medida se justifica tanto pelos efeitos imediatos de ajudar a maioria da população em suas necessidades básicas, como pelo efeito do chamado “multiplicador de gastos” do governo. Com a retomada do crescimento mais à frente, os Tesouros passam a arrecadar mais e cobrem esse momento em que incorreram em déficit.
Revogação imediata da EC 95
Nossas universidades já avisaram que não terão dinheiro nem para comprar papel higiênico e café a partir do final desse mês. Os hospitais públicos estão em estado de penúria. As bolsas de pesquisa acabaram e os laboratórios estão com ameaça de paralisação. O Exército ameaça dispensar seus recrutas por falta de recursos. As queimadas criminosas na Amazônia seguem sem controle, inclusive por falta de recursos para combater os incêndios. Enfim, o Estado brasileiro está sendo destruído meticulosamente a cada dia que passa. Trata-se da execução detalhada e impiedosa do sonho de Guedes & Cia relativamente ao Estado mínimo.
O que se observa é uma combinação assassina de desmonte de políticas públicas com privatização de patrimônio público. O discurso de que o governo não tem recursos é uma falácia. O Tesouro Nacional apresenta uma conta com valores superiores a 1 trilhão de reais junto ao Banco Central. Existe um potencial enorme de arrecadação de setores que são perdoados com isenções e desonerações. O que falta é vontade política de mudar o rumo da orientação da economia. Mas isso parece ser uma impossibilidade, uma vez que o viés financista está no DNA da atual equipe do Ministério da Economia. Tanto que ao longo dos últimos 12 meses de “carência de recursos”, o governo encontrou mui espertamente o montante de R$ 357 bilhões para pagar juros da dívida pública. Aqui não existe atraso de pagamento, nem contingenciamento, nem cortes.
O argumento que permanece é a obrigatoriedade de tal comportamento em função da vigência dos mandamentos da EC 95. Na verdade, faz sentido, pois o Novo Regime Fiscal está incluído no texto constitucional há quase 3 anos. Logo, a medida mais do que óbvia seria promover a imediata revogação dessa espada que ameaça o pescoço de qualquer ocupante de cargo estratégico no governo.
A situação está tão dramática que até alguns economistas que apoiavam a austeridade até pouco tempo atrás mudaram de opinião e consideram necessária de remover essa constitucionalização da austeridade.
Não tem como fugir. O caminho passa pela revogação urgente da EC 95.
* Paulko Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
Fonte: Portal Vermelho
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