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Publicado: 24/11/2025 | 06:56
Frente Sindical Latino-Americana se engaja no enfrentamento ao racismo estrutural no continente

No encontro em Brasília, entidades lançam as bases para o 1º Encontro Internacional de Servidores Afrodescendentes, marcado para março de 2026 em Salvador, e aprovam a "Declaração de Brasília" para orientar ações sindicais e políticas internacionais

Em um cenário global de avanço do discurso de ódio e de ataques aos direitos sociais, a Frente de Entidades Sindicais do Setor Público da América Latina e do Caribe se reuniu para traçar uma estratégia unificada de combate ao racismo estrutural dentro do movimento sindical e nos locais de trabalho. O encontro, realizado em Brasília nessa sexta-feira (21/11), serviu como palco para diagnósticos contundentes e para o anúncio de uma agenda ousada, culminando na organização do financiamento e dos preparativos para o 1º Encontro Internacional de Servidores Afrodescendentes, programado para ser realizado no mês de março de 2026, em Salvador (BA).
Lideranças sindicais de representativas entidades como a Internacional dos Serviços Públicos (ISP), a Confederação Latino-Americana e Caribenha de Trabalhadores Estatais (CLATE), a União Internacional de Sindicatos de Trabalhadores em Serviços Públicos (UIS-SP) e a Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB) ecoaram um mesmo sentimento: a necessidade urgente de o sindicalismo moderno incorporar a luta antirracista como pilar indispensável de suas ações.
Unidade na diversidade para enfrentar o "capitalismo selvagem"
Federico Dávila, vice-presidente da ISP, definiu a Frente como "uma resposta a um cenário internacional caracterizado por ataques às organizações sindicais e sociais, e como uma instância a mais para enfrentar o capitalismo selvagem que pretende nos eliminar". Ele defendeu a construção de uma democracia social, fortalecida não apenas por partidos, mas por organizações sociais e sindicais.
Julio Fuentes, presidente da CLATE, foi direto ao ponto ao afirmar que a construção de um sindicalismo melhor é pré-requisito para uma sociedade melhor. "Aprendemos que, dentro dessa grande divisão entre patrões e trabalhadores, existem outros tipos de divisões, por questões de gênero e de raça. Hoje, o tema da luta contra o racismo surge com muita força. E devemos começar pelas nossas organizações, reconhecendo que o racismo existe, porque muitas vezes somos portadores dessa discriminação nos sindicatos".
IA e Racismo: novas tecnologias, velhos preconceitos
Um dos painéis mais impactantes discutiu a interseção entre tecnologia e discriminação. Pastor Murillo, do Fórum da ONU sobre Afrodescendentes, alertou para os impactos desiguais da Inteligência Artificial. "Os discursos de ódio através de instrumentos digitais emergentes constituem uma estratégia política voltada para obter vantagem nas urnas. Estamos vendo uma instrumentalização política do racismo por meio de ferramentas de IA". Ele citou casos de ataques racistas no futebol e contra a vice-presidente da Colômbia, Francia Márquez, como exemplos dessa nova fronteira de discriminação.
Racismo estrutural e a luta por liderança
Luiz André, da UIS-SP e CSPB, destacou como o modelo econômico vigente "transforma a população negra em uma população marginalizada", com menores salários e menos representatividade. João Paulo Ribeiro "JP" (CSPB/CLATE) complementou, denunciando a "falsa abolição" no Brasil e a necessidade de um diagnóstico preciso da vida da população afrodescendente.
Larissa Santiago, do Ministério da Igualdade Racial do Brasil, apresentou as políticas do governo Lula e enfatizou a transversalidade da pauta. "Nós somos 55,2% da população brasileira, qualquer política pública deve levar isso em consideração. Observar o mundo desde a margem nos ajuda a compreender melhor esse mundo e criar políticas afirmativas mais eficazes".
Negociação coletiva com perspectiva étnico-racial
A experiência prática veio de Aini Villa, presidenta do Sindicato de Trabalhadores Afrocolombianos (SINAFROCOL), que luta pelo direito de negociar diretamente com o governo. "Reivindicamos não apenas nomeações, mas também que possamos ter acesso a cargos hierárquicos dentro da administração pública". A fala reforçou a proposta de JP de que as entidades pautem, nas mesas de negociação, o enfrentamento às desigualdades raciais.
Salvador 2026: um marco na luta antiracista
O evento definiu Salvador como sede do grande encontro internacional de 2026. João Domingos Gomes dos Santos (CSPB/CLATE) declarou ser "uma questão de honra" para a CSPB realizar o evento, que é uma iniciativa da Frente. "Nosso objetivo principal é sair desse evento com um documento que oriente a OIT para as questões dos trabalhadores afrodescendentes e dos povos originários. Buscaremos uma uniformidade nas legislações regionais, por meio de uma Convenção ratificada pela OIT".
O desafio do financiamento foi colocado por Eduardo Chamarelli (CSPB), que busca apoio por meio de emendas parlamentares e do Ministério, enquanto Tamara Barbará (ISP) reforçou o objetivo de construir uma proposta conjunta para a OIT. "Porque existe um racismo cultural sistêmico que precisamos enfrentar e construir consensos".
A "Declaração de Brasília"
Para consolidar os debates, o encontro aprovou a "Declaração de Brasília sobre Sindicalismo Afrodescendente, Justiça Racial e Inteligência Artificial", um documento lido pelo líder sindical Sérgio Arnoud (CSPB / CLATE) firmado por todas as entidades da Frente que servirá como diretriz para as ações futuras, incluindo a incidência em organismos internacionais como a OIT e a Corte Interamericana de Direitos Humanos.
O encontro em Brasília deixou claro: o movimento sindical do setor público latino-americano e caribenho está se reorganizando, entendendo que a luta de classes é indissociável da luta contra o racismo. A estrada é longa e os desafios financeiros e políticos são grandes, mas o caminho, agora, está sendo traçado conjuntamente.
Clique AQUI e acesse a íntegra do documento “Declaração de Brasília”
Clique AQUI e acesse mais fotos do Encontro Internacional dos Servidores Públicos Afrodescendentes
Secom/CSPB com CLATE
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