Notícias Publicado: 20/07/2026 | 05:43

Emendas para municípios sobem 20% em ano eleitoral e viram trunfo para congressistas



Até o começo de julho, R$ 26,55 bi foram transferidos, ante R$ 22,17 bi em 2022; repasse ajuda deputados e senadores a criarem alianças políticas locais

Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil

por Mateus Vargas


(Folhapress) – O valor recorde de emendas pagas em 2026 levou prefeituras pelo país a receberem cerca de 20% a mais dessas verbas, que são indicadas por deputados e senadores, em comparação com o ano eleitoral de 2022.

Até o começo de julho, R$ 26,55 bilhões foram transferidos aos municípios, enquanto há quatro anos, a cifra alcançou R$ 22,17 bilhões no mesmo período.

A verba que vai turbinar os caixas das cidades equivale a 77,6% dos R$ 34,2 bilhões distribuídos em emendas de congressistas neste ano. O valor foi impulsionado pela decisão do Congresso de obrigar o governo Lula (PT) a quitar parte das emendas impositivas antes do período de restrição eleitoral, que cria obstáculos para escoar os recursos.

Os pagamentos representam um trunfo para deputados e senadores criarem alianças políticas locais no ano eleitoral, pois têm o poder de alterar o cenário das contas públicas municipais.

Em Calçoene, Pracuúba e Ferreira Gomes, todos municípios do Amapá, por exemplo, as emendas representam mais de 80% do repasse federal aos fundos de saúde.

O reforço no caixa da saúde é a principal ação feita com as emendas, equivalente a cerca de 65% do valor pago neste ano. As indicações também incluem cerca de R$ 3,2 bilhões a estados e ao Distrito Federal, além de R$ 1,8 bilhão a instituições sem fins lucrativos, categoria que inclui ONGs.

Os detalhes das emendas indicadas em 2026 ainda apontam que parlamentares priorizam ações de projeção mais imediata.

O recurso executado pelo Ministério do Meio Ambiente ilustra esta lógica, pois cerca de 90% dos R$ 70 milhões empenhados foram aplicados na castração de pets por meio de mutirões feitos por ONGs, enquanto menos de 1,5% foi destinado à rubrica de implementação de políticas para biodiversidade, vegetação nativa e áreas protegidas.

Os pagamentos das emendas Pix alcançaram R$ 4,6 bilhões em 2026. Portais de transparência do governo ainda não permitem análise mais completa sobre o destino dessas emendas, mas dados extraídos da plataforma Central das Emendas, da organização de mesmo nome, mostram 66 indicações deste ano com menção a “show”, incluindo uma de R$ 497,5 mil do senador Jorge Kajuru (PSB-GO) para pagar uma apresentação da dupla Fernando & Sorocaba em Santa Terezinha de Goiás.

Também há 178 emendas Pix que citam “futebol”, geralmente ligadas a obras em locais de prática do esporte, e mais 111 que mencionam “trator”.

A execução das emendas mostra quatro fundos de saúde de estados e municípios entre os cinco maiores beneficiados. O vice-líder neste ranking, porém, é o braço no Brasil da multinacional chinesa XCMG, que vende escavadeiras, pavimentadoras, rolos compressores, entre outras máquinas. A empresa recebeu R$ 205 milhões.

Os parlamentares também destinaram neste ano recursos para compras de automóveis e máquinas agrícolas e obras.

Empenhos (etapa que antecede o pagamento) mencionando “carro” e “caminhonete” somam mais de R$ 300 milhões, principalmente para equipar forças de segurança. A bancada de Mato Grosso do Sul também direcionou R$ 100 milhões para financiar unidades do Minha Casa, Minha Vida.

A legislação eleitoral coloca obstáculos à liberação de emendas nos três meses que antecedem as eleições. De forma geral, só é permitido pagar obras e serviços em andamento no período chamado de defeso eleitoral.

Para pressionar o governo Lula, o Congresso inseriu um “calendário de emendas” nas diretrizes do Orçamento de 2026 que obrigou o pagamento de uma parcela das verbas da saúde e das emendas Pix ainda no primeiro semestre.

Sob a nova regra, o governo empenhou mais de R$ 37 bilhões e pagou R$ 34,2 bilhões neste ano. A cifra efetivamente desembolsada inclui indicações feitas desde 2014, além de valores a quitar de emendas do relator, modalidade que foi declarada inconstitucional em 2022 pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Duque de Caxias (RJ) Macapá (AP) foram os municípios mais beneficiados pelas emendas neste ano, com repasses autorizados de R$ 208,5 milhões e R$ 152,1 milhões, respectivamente.

No município fluminense, praticamente toda a verba foi usada para ampliar o caixa da saúde. Cerca de 84% das emendas para a capital do Amapá também foram aplicadas na saúde, enquanto o restante inclui convênios com o Ministério da Defesa pelo programa Calha Norte, como a compra de uma carreta para atendimentos médicos e obras de pavimentação.

No caso das ONGs, o Instituto Reinventar foi o maior beneficiado neste ano, com pagamentos de cerca de R$ 57,3 milhões. A maior parte da verba está vinculada a uma emenda da bancada estadual do Acre para qualificação de pequenos produtores rurais.

O Ministério do Esporte, porém, é a pasta com mais ações ligadas às entidades do terceiro setor, superando R$ 644 milhões em pagamentos. As emendas bancam principalmente convênios com entidades que promovem campeonatos e aulas de esportes.

Além de drenar fatias expressivas do Orçamento federal –em 2025, responderam por 80% das ações do Esporte– as emendas estão no centro de discussões sobre desvios de verba e falta de transparência.

Neste mês, o ministro Flávio Dino, que relata as principais ações no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre emendas, determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de R$ 6,15 milhões do ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), sob o argumento de que ambos negociaram a liberação de emendas mesmo sem ter mandato.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), saiu em defesa de Valdemar e falou em “intervenção judicial” indevida. “A decisão em questão não identifica desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas. Limita-se a inferir e a tentar criminalizar a atividade política”, afirmou ainda Motta.

Os deputados e senadores controlam fatias cada vez maiores do Orçamento por meio das emendas. Há R$ 49,9 bilhões reservados em 2026, ante R$ 11,8 bilhões empenhados em 2016. As emendas responderam por 67,7% da verba empenhada pelo Ministério do Esporte até julho, enquanto drenaram 53,8% da verba livre da pasta da Saúde. A conta considera valores discricionários, que são usados principalmente no custeio da máquina pública e em obras e não estão carimbados por obrigações, como salários.
 

Fonte: ICL Notícias com informações da FolhaPress