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Publicado: 27/07/2026 | 05:56
Com privatizações, Tarcísio traz o inferno para os paulistas

Caos nos trens e na Sabesp coloca em xeque a política de privatizações do governador de São Paulo, que condecorou o impopular presidente argentino, Javier Milei
por Murilo da Silva
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), concedeu neste sábado (25) ao presidente da Argentina, Javier Milei, a Ordem do Ipiranga, maior honraria do estado. O evento causou preocupação, uma vez que ‘importar’ as políticas adotadas por Milei pode aprofundar ainda mais o caos paulista. A cerimônia foi realizada no Palácio dos Bandeirantes, antes da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência.
Não existiu nenhum motivo para a condecoração de Milei, além de um alinhamento de lideranças da direita conservadora. O ato, portanto, configura mais uma ação ideológica com a estrutura do Estado. Ou seja, a extrema direita, mais uma vez, empurra para dentro dos meios públicos a sua ideologia política, justamente o que ela acusa a oposição de fazer.
Tarcísio é um fã contumaz de Milei. Ele elogia constantemente as políticas empregadas na Argentina, que levaram o país à desvalorização do salário mínimo e à perda do poder de compra da população. A desaprovação do presidente argentino chega a 64,5%, conforme a consultoria Zuban Córdoba. Nesta semana, milhares de pessoas protestaram em Buenos Aires contra o brutal arrocho nas aposentadorias.
Para piorar, a entrega da polêmica honraria aconteceu em meio a uma séria crise que acomete a população paulista, com grave prejuízo nos serviços públicos oferecidos pelo governo de São Paulo.
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Na última quinta-feira (23), um incêndio tomou conta de um trem, na cidade de São Paulo, concedido à iniciativa privada por Tarcísio. O caos gerado no transporte da capital foi sem precedentes, com passageiros presos em vagões parados, ou tendo que andar sobre trilhos e pular muros para chegar ao trabalho.
A situação foi tão alarmante que o próprio governo recuou temporariamente e devolveu por mais 90 dias a operação das linhas que estavam com a Trivia Trens (11-Coral, 12-Safira e 13-Jade) para a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), empresa pública antes responsável pelas linhas.
O episódio trágico que aconteceu na Linha 12-Safira, entre as estações Tatuapé e Brás, é mais uma fase do inferno que as privatizações e concessões feitas na gestão Tarcísio têm trazido para a população paulista. Ainda durante a operação assistida, a Linha 11-Coral, operada pela Trivia Trens e a mais movimentada da rede metropolitana, registrou 11 falhas no primeiro semestre de 2026, um aumento de 275% em relação ao mesmo período de 2025. Já a Linha 7-Rubi, privatizada por Tarcísio de Freitas em 2024 e operada pela Tic Trens, empresa do mesmo grupo da Trivia, teve 21 falhas no primeiro semestre, alta de 600% na comparação com os primeiros seis meses do ano passado.
Sabesp
Mais grave até do que os acidentes nos trens têm sido as ocorrências na Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Desde que a empresa foi privatizada, ela virou uma máquina de tragédias.
Em maio passado, uma explosão causada pela empresa privatizada pela gestão Tarcísio causou uma morte, deixou feridos, desabrigados e causou danos a inúmeras propriedades no Jaguaré, zona oeste da capital paulista.
O Portal Vermelho já havia levantado o histórico recente de tragédias causadas pela Sabesp:
- Em maio de 2025, uma intervenção da Sabesp na Marginal Tietê, na cidade de São Paulo (SP), abriu uma cratera, por duas vezes em menos de um mês, nas pistas da avenida;
- Em Mauá (SP), em setembro do mesmo ano, uma tubulação da empresa se desprendeu enquanto era içada, invadiu uma casa e matou Clelia dos Santos Pimentel, de 79 anos;
- Em março de 2026, o rompimento de uma caixa d’água em Mairiporã (SP) matou um funcionário terceirizado da Sabesp, Francisco Vieira, de 45 anos. Além da vítima, outras nove pessoas ficaram feridas;
- Já em abril, uma adutora da companhia rompeu em Osasco (SP), desabasteceu 30 mil imóveis e causou alagamentos, com a água invadindo casas e arrastando carros.
O presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), José Faggian, observa que desde a privatização, a Sabesp passa por um desmonte e um total descarte da mão de obra qualificada formada ao longo dos últimos 50 anos, a qual garantia a expertise e a qualidade dos serviços prestados.
“A iniciativa privada vem para ter lucro e não para prestar serviço para o povo de São Paulo. Então a gente precisa unificar a luta com os outros setores e tentar estancar esse processo que é lamentável e já está trazendo um grande prejuízo para o povo paulista”, afirmou Faggian na ocasião.
Já na última semana, a Sabesp esteve envolvida em dois novos incidentes na capital paulista. Na terça-feira (21), uma obra de manutenção da companhia atingiu uma rede de gás no Butantã, na zona Oeste, provocando um vazamento que mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros. Um dia antes, um rompimento de adutora provocou um grande vazamento de água no Grajaú, na zona Sul.
Leia mais: Dois anos depois, privatização da Sabesp acumula críticas
Para completar, essa privatização está sendo investigada junto com a da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae). O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação preliminar para apurar um possível elo entre o escândalo envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e as privatizações da Sabesp e Emae, realizadas durante o governo Tarcísio de Freitas.
Não bastassem as tragédias e o suposto envolvimento de dinheiro sujo do Master nas privatizações, a população ainda passou a conviver com desabastecimento de água, com o aumento do valor da conta de água e, novamente, flerta com uma crise hídrica, como em 2014, quando a Sabesp começou a captar água do chamado “volume morto”. Em julho, o sistema Cantareira (principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo), operou abaixo dos 40% do volume útil, o que o coloca na fase de alerta para abastecimento.
Educação e infraestrutura
A política de privatizações e concessões do governo Tarcísio de Freitas também chegou à educação. Em 2024, a gestão transferiu à iniciativa privada a construção, manutenção e operação de serviços não pedagógicos de 17 escolas estaduais por meio de uma parceria público-privada (PPP).
Na área de infraestrutura, o governo também acelerou a concessão de rodovias estaduais, com novos contratos que preveem a instalação de dezenas de pedágios, incluindo o sistema free flow. Entre os projetos mais contestados estão o Lote Nova Raposo, que prevê novas praças de cobrança na região de Sorocaba e da Grande São Paulo, e a concessão do Rodoanel Norte. As medidas provocaram reação de prefeitos, moradores e setores produtivos, que criticam o aumento do custo de deslocamento e os impactos econômicos da ampliação das tarifas.
O projeto privatista para o estado também alcançou o sistema de travessias por balsas. O governo Tarcísio autorizou a transferência à iniciativa privada de 14 linhas operadas pelo estado por meio de uma parceria público-privada (PPP), incluindo ligações estratégicas como Santos–Guarujá e São Sebastião–Ilhabela. A iniciativa recebeu críticas de parlamentares da oposição e de entidades que defendem a manutenção da gestão pública de um serviço considerado essencial para a mobilidade de milhares de pessoas diariamente.
Assim, se a gestão privada privilegiar o lucro em detrimento dos serviços nessas áreas, como tem feito com trens e no saneamento básico, novas bombas-relógio já estão armadas e preparadas para explodir no colo do povo paulista enquanto a extrema-direita se autocongratula com medalhas.
Fonte: Portal Vermelho
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