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Publicado: 24/07/2007 | 09:52
Confiança no Brasil
Vicente Nunes
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Investimentos estrangeiros diretos no país atingem valor recorde de US$ 10,3 bilhões em junho. Recursos direcionados à produção são 10 vezes superiores aos registrados no mesmo período de 2006
A ineficiência do governo para resolver a grave crise no setor aéreo não está tirando o apetite dos estrangeiros pelo Brasil. Pelo menos foi o que mostrou ontem o Banco Central (BC), ao detalhar a movimentação de capital externo no país. Em junho, os investimentos diretos (IED), voltados para o aumento da produção e para a criação de empregos, atingiram US$ 10,3 bilhões, volume recorde para um único mês, segundo a série histórica iniciada em 1947. O saldo é quase 10 vezes maior que o verificado em junho de 2006 (US$ 1,06 bilhão). Também no acumulado do primeiro semestre, os investimentos diretos totalizaram valor sem precedentes para o período: US$ 20,8 bilhões. É mais do que o contabilizado anualmente desde 2000, quando se encerrou o processo de privatização brasileiro.
“Felizmente, quando optam por destinar recursos para o Brasil, os estrangeiros olham para o longo prazo. Não se prendem a problemas pontuais, pois sabem que governos passam”, disse o economista-chefe da Sulamérica Investimentos, Newton Rosa. Na sua avaliação, os pontos que mais têm pesado nas decisões dos estrangeiros em investir recursos para o Brasil são os bons fundamentos macroeconômicos. Com a inflação sob controle e as taxas de juros em queda, a rentabilidade dos negócios aumenta. Além disso, houve forte queda do risco-país e o Brasil está se aproveitando do forte movimento mundial de fusões e aquisições de empresas.
Esse último ponto, por sinal, ficou claro quando o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, abriu os números do IED. Dos US$ 10,3 bilhões computados em junho, quase US$ 5 bilhões se referiram à compra de ações de acionistas minoritários da Arcelor pelo grupo siderúrgico Mittal. Outro US$ 1,15 bilhão veio do grupo irlandês Experian para a aquisição de 65% do capital da Serasa, empresa que centraliza dados de clientes bancários. Foi registrado ainda US$ 1 bilhão em aportes de recursos em instituições financeiras, um deles, de US$ 494 milhões, realizado pelo alemão Deutsche Bank em uma empresa não-financeira do Unibanco.
Perspectivas
“Mesmo tirando essas operações, sobra um valor superior a US$ 3 bilhões, o que é um resultado excepcional e mostra que os investimentos diretos no Brasil mudaram de patamar”, afirmou Altamir. Tanto que em julho, até ontem, o saldo já estava positivo em US$ 3 bilhões. E não será surpresa, na visão do economista do BC, se o mês fechar com IED superior a US$ 3,5 bilhões. “Estamos falando de um movimento de capitais mais consistente do que o registrado durante as privatizações. Os investidores estão vindo para o Brasil dispostos a ampliar os negócios, devido às boas perspectivas para a economia”, assinalou. “Teremos um segundo semestre muito positivo”, emendou.
A despeito dos excelentes números, o BC ainda não revisou a previsão de saldo de investimentos estrangeiros diretos para este ano. Manteve os US$ 25 bilhões. No mercado, que estava mais conservador, com projeção de US$ 23 bilhões, as estimativas já foram elevadas. Nas contas do economista-chefe do Banco ABC Brasil, o saldo do IED deste ano ficará entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões. “Daqui por diante, veremos saldos mensais de investimentos diretos próximos de US$ 3 bilhões”, destacou. Para Newton Rosa, as próprias empresas brasileiras estão estimulando esse fluxo de capitais ao oferecerem parte de suas ações no mercado para se capitalizarem, em vez de tomarem empréstimos bancários.
Na rubrica transações correntes, que agrega os resultados do comércio, os pagamentos de juros e as transferências para o país de recursos de brasileiros que vivem no exterior, o superávit em junho foi positivo em US$ 696 milhões, empurrando para US$ 4,383 bilhões o saldo acumulado nos seis primeiros meses do ano — praticamente o dobro em igual período de 2006. Em julho, afirmou Altamir, as transações correntes ficarão positivas em US$ 100 milhões.
Dólar fecha em baixa
Com o forte fluxo de recursos estrangeiros no país e o comportamento mais tranqüilo das bolsas internacionais, o dólar encerrou as negociações de ontem valendo R$ 1,842, a menor cotação desde setembro de 2000. Em relação à sexta-feira, os preços recuaram 0,75%. A moeda americana vem se desvalorizando frente ao real independentemente das fortes intervenções que o Banco Central tem realizado no mercado. Somente em junho, o BC comprou US$ 9,4 bilhões. No acumulado do primeiro semestre, foram arrematados US$ 57 bilhões — 66% a mais do que em todo o ano passado, quando as compras somaram US$ 34,3 bilhões.
O dólar mais barato tem feito a festa dos brasileiros no exterior. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a conta viagem ficou negativa em US$ 1,060 bilhão nos seis primeiros meses do ano, o maior déficit para o período desde 1998, último ano do câmbio fixo. Em julho, até o dia 23, os gastos no exterior já superavam as receitas de estrangeiros no país em US$ 298 milhões. “Junho e julho são meses muito fortes de viagens ao exterior, por causa das férias”, disse Altamir. (VN)
Dívida externa chega a US$ 196 bi
A entrada maciça de capital de curto prazo no país aumentou, de forma substancial, a dívida externa brasileira. Entre dezembro do ano passado e junho último, o endividamento total saltou US$ 24,8 bilhões, atingindo US$ 196,4 bilhões. Desde 2003, a dívida vinha encolhendo, devido, sobretudo, aos pagamentos realizados pelo governo. A alta do endividamento se acelerou a partir de abril, quando bancos e empresas decidiram tomar financiamentos lá fora para especular com o dólar e ganhar com o diferencial entre os elevados juros daqui e as taxas no exterior. “Mas as operações especulativas diminuíram bastante desde o início do mês passado, quando o Banco Central baixou uma série de medidas para limitar as negociações com dólar”, disse o chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes.
Essas operações especulativas estavam evidenciadas pelas posições vendidas dos bancos. Mesmo não tendo dólares, vendiam a moeda para entrega futura, apostando que os preços estariam mais baixos. Para se protegerem, as instituições tomavam empréstimos no exterior com vencimento em, no máximo, 360 dias. Em maio, as posições vendidas dos bancos bateram em US$ 15,8 bilhões, recuando para US$ 7,3 bilhões em abril e para US$ 5,3 bilhões na última sexta-feira. “O capital de curto prazo está quase restrito ao financiamento ao comércio exterior”, afirmou. Ele ressaltou que, em julho, diminuíram bastante as antecipações de contratos de câmbio para exportação. Com isso, o volume financeiro e a quantidade de mercadorias embarcadas para fora do país ficaram mais próximos. Essas antecipações ajudavam a empurrar os preços do dólar ladeira abaixo. (VN)
Vicente Nunes
Correio Braziliense
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Investimentos estrangeiros diretos no país atingem valor recorde de US$ 10,3 bilhões em junho. Recursos direcionados à produção são 10 vezes superiores aos registrados no mesmo período de 2006
A ineficiência do governo para resolver a grave crise no setor aéreo não está tirando o apetite dos estrangeiros pelo Brasil. Pelo menos foi o que mostrou ontem o Banco Central (BC), ao detalhar a movimentação de capital externo no país. Em junho, os investimentos diretos (IED), voltados para o aumento da produção e para a criação de empregos, atingiram US$ 10,3 bilhões, volume recorde para um único mês, segundo a série histórica iniciada em 1947. O saldo é quase 10 vezes maior que o verificado em junho de 2006 (US$ 1,06 bilhão). Também no acumulado do primeiro semestre, os investimentos diretos totalizaram valor sem precedentes para o período: US$ 20,8 bilhões. É mais do que o contabilizado anualmente desde 2000, quando se encerrou o processo de privatização brasileiro.
“Felizmente, quando optam por destinar recursos para o Brasil, os estrangeiros olham para o longo prazo. Não se prendem a problemas pontuais, pois sabem que governos passam”, disse o economista-chefe da Sulamérica Investimentos, Newton Rosa. Na sua avaliação, os pontos que mais têm pesado nas decisões dos estrangeiros em investir recursos para o Brasil são os bons fundamentos macroeconômicos. Com a inflação sob controle e as taxas de juros em queda, a rentabilidade dos negócios aumenta. Além disso, houve forte queda do risco-país e o Brasil está se aproveitando do forte movimento mundial de fusões e aquisições de empresas.
Esse último ponto, por sinal, ficou claro quando o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, abriu os números do IED. Dos US$ 10,3 bilhões computados em junho, quase US$ 5 bilhões se referiram à compra de ações de acionistas minoritários da Arcelor pelo grupo siderúrgico Mittal. Outro US$ 1,15 bilhão veio do grupo irlandês Experian para a aquisição de 65% do capital da Serasa, empresa que centraliza dados de clientes bancários. Foi registrado ainda US$ 1 bilhão em aportes de recursos em instituições financeiras, um deles, de US$ 494 milhões, realizado pelo alemão Deutsche Bank em uma empresa não-financeira do Unibanco.
Perspectivas
“Mesmo tirando essas operações, sobra um valor superior a US$ 3 bilhões, o que é um resultado excepcional e mostra que os investimentos diretos no Brasil mudaram de patamar”, afirmou Altamir. Tanto que em julho, até ontem, o saldo já estava positivo em US$ 3 bilhões. E não será surpresa, na visão do economista do BC, se o mês fechar com IED superior a US$ 3,5 bilhões. “Estamos falando de um movimento de capitais mais consistente do que o registrado durante as privatizações. Os investidores estão vindo para o Brasil dispostos a ampliar os negócios, devido às boas perspectivas para a economia”, assinalou. “Teremos um segundo semestre muito positivo”, emendou.
A despeito dos excelentes números, o BC ainda não revisou a previsão de saldo de investimentos estrangeiros diretos para este ano. Manteve os US$ 25 bilhões. No mercado, que estava mais conservador, com projeção de US$ 23 bilhões, as estimativas já foram elevadas. Nas contas do economista-chefe do Banco ABC Brasil, o saldo do IED deste ano ficará entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões. “Daqui por diante, veremos saldos mensais de investimentos diretos próximos de US$ 3 bilhões”, destacou. Para Newton Rosa, as próprias empresas brasileiras estão estimulando esse fluxo de capitais ao oferecerem parte de suas ações no mercado para se capitalizarem, em vez de tomarem empréstimos bancários.
Na rubrica transações correntes, que agrega os resultados do comércio, os pagamentos de juros e as transferências para o país de recursos de brasileiros que vivem no exterior, o superávit em junho foi positivo em US$ 696 milhões, empurrando para US$ 4,383 bilhões o saldo acumulado nos seis primeiros meses do ano — praticamente o dobro em igual período de 2006. Em julho, afirmou Altamir, as transações correntes ficarão positivas em US$ 100 milhões.
Dólar fecha em baixa
Com o forte fluxo de recursos estrangeiros no país e o comportamento mais tranqüilo das bolsas internacionais, o dólar encerrou as negociações de ontem valendo R$ 1,842, a menor cotação desde setembro de 2000. Em relação à sexta-feira, os preços recuaram 0,75%. A moeda americana vem se desvalorizando frente ao real independentemente das fortes intervenções que o Banco Central tem realizado no mercado. Somente em junho, o BC comprou US$ 9,4 bilhões. No acumulado do primeiro semestre, foram arrematados US$ 57 bilhões — 66% a mais do que em todo o ano passado, quando as compras somaram US$ 34,3 bilhões.
O dólar mais barato tem feito a festa dos brasileiros no exterior. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a conta viagem ficou negativa em US$ 1,060 bilhão nos seis primeiros meses do ano, o maior déficit para o período desde 1998, último ano do câmbio fixo. Em julho, até o dia 23, os gastos no exterior já superavam as receitas de estrangeiros no país em US$ 298 milhões. “Junho e julho são meses muito fortes de viagens ao exterior, por causa das férias”, disse Altamir. (VN)
Dívida externa chega a US$ 196 bi
A entrada maciça de capital de curto prazo no país aumentou, de forma substancial, a dívida externa brasileira. Entre dezembro do ano passado e junho último, o endividamento total saltou US$ 24,8 bilhões, atingindo US$ 196,4 bilhões. Desde 2003, a dívida vinha encolhendo, devido, sobretudo, aos pagamentos realizados pelo governo. A alta do endividamento se acelerou a partir de abril, quando bancos e empresas decidiram tomar financiamentos lá fora para especular com o dólar e ganhar com o diferencial entre os elevados juros daqui e as taxas no exterior. “Mas as operações especulativas diminuíram bastante desde o início do mês passado, quando o Banco Central baixou uma série de medidas para limitar as negociações com dólar”, disse o chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes.
Essas operações especulativas estavam evidenciadas pelas posições vendidas dos bancos. Mesmo não tendo dólares, vendiam a moeda para entrega futura, apostando que os preços estariam mais baixos. Para se protegerem, as instituições tomavam empréstimos no exterior com vencimento em, no máximo, 360 dias. Em maio, as posições vendidas dos bancos bateram em US$ 15,8 bilhões, recuando para US$ 7,3 bilhões em abril e para US$ 5,3 bilhões na última sexta-feira. “O capital de curto prazo está quase restrito ao financiamento ao comércio exterior”, afirmou. Ele ressaltou que, em julho, diminuíram bastante as antecipações de contratos de câmbio para exportação. Com isso, o volume financeiro e a quantidade de mercadorias embarcadas para fora do país ficaram mais próximos. Essas antecipações ajudavam a empurrar os preços do dólar ladeira abaixo. (VN)