antigas Publicado: 27/07/2007 | 09:25

Jobim fortalecido no PMDB

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Se for bem-sucedido na solução da crise aérea, novo ministro da Defesa pode se transformar no nome que o partido procura para disputar, até com o apoio do Palácio do Planalto, a sucessão de Lula


A jogada política que colocou Nelson Jobim no Ministério da Defesa balançou o já complicado equilíbrio de forças dentro do PMDB. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou para o governo com ares de superministro o mesmo Jobim que há poucos meses teve de desistir da candidatura a presidente nacional do partido dias antes da convenção. O novo ministro assume com a missão declarada de por fim ao caos aéreo. Embora ninguém assuma publicamente, governo e PMDB sabem que se ele for bem sucedido nessa tarefa, ganhará força como possível candidato à sucessão de Lula. Para se viabilizar, terá de ganhar o apoio da maioria da legenda. Algo que pode ser tão difícil quanto colocar ordem nos aeroportos brasileiros.

Há muito tempo o PMDB é uma federação de interesses regionais e de caciques políticos. Durante o governo Lula, esses interesses agruparam-se em duas facções. Uma delas tem sua base na bancada do Senado, outra na Câmara. No primeiro mandato lulista, entre 2003 e 2006, a divisão era política. Os senadores, liderados por Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP), apoiavam o Palácio do Planalto. Contavam com o reforço de parte dos deputados. O grupo da Câmara fazia oposição. Entre seus líderes estavam o presidente do partido, Michel Temer (SP), e deputados como Geddel Vieira Lima (BA) e Eliseu Padilha (RS).

Quando Lula foi reeleito, o grupo da Câmara aderiu a Lula. Ao contrário do que se poderia pensar, a divisão no partido aumentou. Dessa vez, as duas alas disputavam cargos no ministério. Nesse cenário, Renan e Sarney lançaram a candidatura de Jobim a presidente do partido no início do ano. Contavam com o apoio de Lula, que sempre mostrou simpatia pelo ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas o Palácio do Planalto não fez sua parte e Temer consolidou uma confortável maioria dentro do partido. Irritado, o ex-ministro abandonou a disputa com uma nota na qual atacava o governo. Bastaram poucos meses de costura política para que a crise de relacionamento fosse superada.

Candidato
Jobim não chega ao governo como um ministro comum. Lula nunca escondeu que gostaria de vê-lo em sua sucessão. Tentou colocá-lo como candidato a vice na chapa da reeleição em 2006. Não conseguiu porque o grupo de Temer impediu que o PMDB lhe desse apoio formal. Sua presença em um cargo estratégico recoloca a questão. Dessa vez, com duas novidades: o partido apoia formalmente o governo e o presidente não poderá disputar a reeleição. O espaço está aberto para a construção de nomes. Lula já disse publicamente várias vezes que pode apoiar a candidatura de um nome de fora do PT. Por sua estrutura, o PMDB seria uma alternativa lógica, mas lhe faltam unidade e um candidato viável.

Há grandes obstáculos no caminho de Jobim. O primeiro é que lhe faltam votos para disputar uma eleição presidencial. O máximo que conseguiu até hoje nas urnas foi eleger-se deputado federal. O caos aéreo lhe oferece uma chance de vencer essa limitação. Ele foi colocado diante de uma crise que mobiliza a opinião pública e tem enorme atenção da mídia. Se vencer o apagão dos aeroportos, projetará uma imagem de administrador competente que pode ser capaz de alicerçar uma candidatura presidencial.

O segundo problema é superar a divisão do partido. Quando tentou disputar a presidência da legenda, seus aliados imaginavam que ele seria capaz de unir o PMDB. Não conseguiu. Para reverter esse quadro, precisará demonstrar que tem densidade eleitoral e contar com o apoio real de Lula. “O PMDB quer ter um projeto de poder”, diz um ministro próximo a Lula. “Se Jobim representar esse projeto, terá o apoio mesmo da ala que lutou contra ele na convenção deste ano. O partido é muito pragmático”.

Cota pessoal
No início do ano, Lula negociou com os deputados e senadores do PMDB a distribuição dos ministérios. Cada ala ficou com duas pastas. A escolha de Jobim não passou pelo partido. Temer não foi consultado e sim comunicado. O argumento foi que a pasta da Defesa nunca fez parte das pretensões do partido. Faz parte da cota pessoal do presidente. Mas o Planalto sabe que sua escolha dá força ao grupo de Renan e Sarney. Para evitar problemas, o palácio prometeu ao PMDB da Câmara agilizar nomeações de apadrinhados do grupo para cargos em estatais e na estrutura dos ministérios.

As primeiras reações foram cautelosas. Temer e outros integrantes do grupo da Câmara fizeram questão de falar com Jobim assim que ele foi anunciado como ministro. Desejaram boa sorte e prometeram apoio. Não se falou do futuro. Nesse tipo de articulação, pretensões e vetos não devem ser assumidos em público. O novo ministro também fez sua parte. Negou ter uma candidatura em mente e disse que o assunto está proibido por sua mulher, Adrienne. Nem o Planalto nem o PMDB levaram a sério. A mesma Adrienne era apontada pelo marido como motivo para que ele não assumisse o Ministério da Defesa.

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Se for bem-sucedido na solução da crise aérea, novo ministro da Defesa pode se transformar no nome que o partido procura para disputar, até com o apoio do Palácio do Planalto, a sucessão de Lula


A jogada política que colocou Nelson Jobim no Ministério da Defesa balançou o já complicado equilíbrio de forças dentro do PMDB. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou para o governo com ares de superministro o mesmo Jobim que há poucos meses teve de desistir da candidatura a presidente nacional do partido dias antes da convenção. O novo ministro assume com a missão declarada de por fim ao caos aéreo. Embora ninguém assuma publicamente, governo e PMDB sabem que se ele for bem sucedido nessa tarefa, ganhará força como possível candidato à sucessão de Lula. Para se viabilizar, terá de ganhar o apoio da maioria da legenda. Algo que pode ser tão difícil quanto colocar ordem nos aeroportos brasileiros.

Há muito tempo o PMDB é uma federação de interesses regionais e de caciques políticos. Durante o governo Lula, esses interesses agruparam-se em duas facções. Uma delas tem sua base na bancada do Senado, outra na Câmara. No primeiro mandato lulista, entre 2003 e 2006, a divisão era política. Os senadores, liderados por Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP), apoiavam o Palácio do Planalto. Contavam com o reforço de parte dos deputados. O grupo da Câmara fazia oposição. Entre seus líderes estavam o presidente do partido, Michel Temer (SP), e deputados como Geddel Vieira Lima (BA) e Eliseu Padilha (RS).

Quando Lula foi reeleito, o grupo da Câmara aderiu a Lula. Ao contrário do que se poderia pensar, a divisão no partido aumentou. Dessa vez, as duas alas disputavam cargos no ministério. Nesse cenário, Renan e Sarney lançaram a candidatura de Jobim a presidente do partido no início do ano. Contavam com o apoio de Lula, que sempre mostrou simpatia pelo ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas o Palácio do Planalto não fez sua parte e Temer consolidou uma confortável maioria dentro do partido. Irritado, o ex-ministro abandonou a disputa com uma nota na qual atacava o governo. Bastaram poucos meses de costura política para que a crise de relacionamento fosse superada.

Candidato
Jobim não chega ao governo como um ministro comum. Lula nunca escondeu que gostaria de vê-lo em sua sucessão. Tentou colocá-lo como candidato a vice na chapa da reeleição em 2006. Não conseguiu porque o grupo de Temer impediu que o PMDB lhe desse apoio formal. Sua presença em um cargo estratégico recoloca a questão. Dessa vez, com duas novidades: o partido apoia formalmente o governo e o presidente não poderá disputar a reeleição. O espaço está aberto para a construção de nomes. Lula já disse publicamente várias vezes que pode apoiar a candidatura de um nome de fora do PT. Por sua estrutura, o PMDB seria uma alternativa lógica, mas lhe faltam unidade e um candidato viável.

Há grandes obstáculos no caminho de Jobim. O primeiro é que lhe faltam votos para disputar uma eleição presidencial. O máximo que conseguiu até hoje nas urnas foi eleger-se deputado federal. O caos aéreo lhe oferece uma chance de vencer essa limitação. Ele foi colocado diante de uma crise que mobiliza a opinião pública e tem enorme atenção da mídia. Se vencer o apagão dos aeroportos, projetará uma imagem de administrador competente que pode ser capaz de alicerçar uma candidatura presidencial.

O segundo problema é superar a divisão do partido. Quando tentou disputar a presidência da legenda, seus aliados imaginavam que ele seria capaz de unir o PMDB. Não conseguiu. Para reverter esse quadro, precisará demonstrar que tem densidade eleitoral e contar com o apoio real de Lula. “O PMDB quer ter um projeto de poder”, diz um ministro próximo a Lula. “Se Jobim representar esse projeto, terá o apoio mesmo da ala que lutou contra ele na convenção deste ano. O partido é muito pragmático”.

Cota pessoal
No início do ano, Lula negociou com os deputados e senadores do PMDB a distribuição dos ministérios. Cada ala ficou com duas pastas. A escolha de Jobim não passou pelo partido. Temer não foi consultado e sim comunicado. O argumento foi que a pasta da Defesa nunca fez parte das pretensões do partido. Faz parte da cota pessoal do presidente. Mas o Planalto sabe que sua escolha dá força ao grupo de Renan e Sarney. Para evitar problemas, o palácio prometeu ao PMDB da Câmara agilizar nomeações de apadrinhados do grupo para cargos em estatais e na estrutura dos ministérios.

As primeiras reações foram cautelosas. Temer e outros integrantes do grupo da Câmara fizeram questão de falar com Jobim assim que ele foi anunciado como ministro. Desejaram boa sorte e prometeram apoio. Não se falou do futuro. Nesse tipo de articulação, pretensões e vetos não devem ser assumidos em público. O novo ministro também fez sua parte. Negou ter uma candidatura em mente e disse que o assunto está proibido por sua mulher, Adrienne. Nem o Planalto nem o PMDB levaram a sério. A mesma Adrienne era apontada pelo marido como motivo para que ele não assumisse o Ministério da Defesa.