antigas Publicado: 27/07/2007 | 09:55

A reforma para não mudar nada

Artigo - Villas-Bôas Corrêa
Jornal do Brasil

Com o mesmo divertido espanto com que descobriu que "a mão que afaga é a mesma que apedreja", o presidente Lula se deu conta, com quatro anos e quase sete meses de atraso, que "a reforma política é imprescindível para que a gente possa arrumar este país". E, no repique: "sem a reforma política as outras ficam mais difíceis".

Pois, mais surpreendidos estamos nós. Afinal, em que ficamos? Em todos os exercícios diários de oratória, no suave embalo do improviso, o nosso salvador jacta-se de ter consertado este país que, a rigor, com ele começa a ser reconhecido no mundo. E que herdou como um bagaço, na mais caótica bagunça, com tudo por fazer ou por refazer.

Se tivesse parado por aí, teria dado o seu sumário recado. Mas, embalado pela sonoridade da própria voz invadiu terreno que não costuma pisar e ficou na generalidade da receita óbvia e escapista de quem não quer fazer reforma nenhuma e entre a tapeação e o despiste adere ao financiamento público das campanhas e, no passo firme e ousado, prega mudanças na representação dos Estados e na duração dos mandatos.

Com tão saudáveis idéias na cachola, não dá para entender os motivos que o aprisionam na eterna imobilidade. Se, como é sabido, compete ao Congresso discutir e votar as reformas políticas, o presidente conta com o apoio de sólida base parlamentar, cevada com ministérios, secretarias, autarquias e centenas, talvez milhares, de cargos públicos de livre nomeação, sem o aborrecimento do concurso público - que é castigo reservado aos adversários.

Enfim, com ou sem a picada das vaias, Lula achou as reformas esquecidas no baú das velharias. E, sejamos justos: reforma política para valer é inviável. Por enquanto, pois como é também inevitável, virá na ressaca de improvável mobilização popular, quando a indignação das ruas bater às portas dos palácios do Congresso, na imponente Praça dos Três Poderes.

O que não significa que devemos cruzar os braços e esperar a ajuda caída do céu. A discussão é importante, fundamental para despertar a opinião pública e cutucar a indiferença das entidades que a representam, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a indispensável União Nacional dos Estudantes (UNE), a Academia Brasileira de Letras (ABL), os sindicatos, clubes, escolas de samba.

Esta é uma causa nacional. A crise moral que enodoa o Congresso, a abulia da toga, o encolhimento maroto do Executivo só serão superados, sem o trauma de uma revolta, com a restauração da dignidade do Legislativo.

Para não ficar no palavrório das tribunas parlamentares é indispensável começar pela identificação das causas da decadência ética da representação popular. Nem é necessário maltratar os neurônios para reconhecer evidências que se expõem na sua nudez: a semana útil de dois a três dias é a consagração da madraçaria. Filha espúria da mudança da capital para Brasília em obras, gerou a orgia das mordomias, vantagens e benefícios.

Acabar com a esbórnia exige coragem para a solução radical, simples e moralizadora: acabar com o privilégio das quatro passagens aéreas mensais para que os 81 senadores e os 513 deputados passem o fim de semana nas suas bases eleitorais com as famílias.

Derrubada a árvore podre, com ela despenca a fruta bichada da imoralíssima verba indenizatória. E, na faxina, a varredura no lixo escondido debaixo dos tapetes: a verba para a contração de assessores, para a compra de selos, jornais, revistas. Luxo requintado de milionários.

Artigo - Villas-Bôas Corrêa
Jornal do Brasil

Com o mesmo divertido espanto com que descobriu que "a mão que afaga é a mesma que apedreja", o presidente Lula se deu conta, com quatro anos e quase sete meses de atraso, que "a reforma política é imprescindível para que a gente possa arrumar este país". E, no repique: "sem a reforma política as outras ficam mais difíceis".

Pois, mais surpreendidos estamos nós. Afinal, em que ficamos? Em todos os exercícios diários de oratória, no suave embalo do improviso, o nosso salvador jacta-se de ter consertado este país que, a rigor, com ele começa a ser reconhecido no mundo. E que herdou como um bagaço, na mais caótica bagunça, com tudo por fazer ou por refazer.

Se tivesse parado por aí, teria dado o seu sumário recado. Mas, embalado pela sonoridade da própria voz invadiu terreno que não costuma pisar e ficou na generalidade da receita óbvia e escapista de quem não quer fazer reforma nenhuma e entre a tapeação e o despiste adere ao financiamento público das campanhas e, no passo firme e ousado, prega mudanças na representação dos Estados e na duração dos mandatos.

Com tão saudáveis idéias na cachola, não dá para entender os motivos que o aprisionam na eterna imobilidade. Se, como é sabido, compete ao Congresso discutir e votar as reformas políticas, o presidente conta com o apoio de sólida base parlamentar, cevada com ministérios, secretarias, autarquias e centenas, talvez milhares, de cargos públicos de livre nomeação, sem o aborrecimento do concurso público - que é castigo reservado aos adversários.

Enfim, com ou sem a picada das vaias, Lula achou as reformas esquecidas no baú das velharias. E, sejamos justos: reforma política para valer é inviável. Por enquanto, pois como é também inevitável, virá na ressaca de improvável mobilização popular, quando a indignação das ruas bater às portas dos palácios do Congresso, na imponente Praça dos Três Poderes.

O que não significa que devemos cruzar os braços e esperar a ajuda caída do céu. A discussão é importante, fundamental para despertar a opinião pública e cutucar a indiferença das entidades que a representam, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a indispensável União Nacional dos Estudantes (UNE), a Academia Brasileira de Letras (ABL), os sindicatos, clubes, escolas de samba.

Esta é uma causa nacional. A crise moral que enodoa o Congresso, a abulia da toga, o encolhimento maroto do Executivo só serão superados, sem o trauma de uma revolta, com a restauração da dignidade do Legislativo.

Para não ficar no palavrório das tribunas parlamentares é indispensável começar pela identificação das causas da decadência ética da representação popular. Nem é necessário maltratar os neurônios para reconhecer evidências que se expõem na sua nudez: a semana útil de dois a três dias é a consagração da madraçaria. Filha espúria da mudança da capital para Brasília em obras, gerou a orgia das mordomias, vantagens e benefícios.

Acabar com a esbórnia exige coragem para a solução radical, simples e moralizadora: acabar com o privilégio das quatro passagens aéreas mensais para que os 81 senadores e os 513 deputados passem o fim de semana nas suas bases eleitorais com as famílias.

Derrubada a árvore podre, com ela despenca a fruta bichada da imoralíssima verba indenizatória. E, na faxina, a varredura no lixo escondido debaixo dos tapetes: a verba para a contração de assessores, para a compra de selos, jornais, revistas. Luxo requintado de milionários.