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Publicado: 8/08/2007 | 09:37
Lula teme perder a classe média
Rosângela Bittar
Valor Econômico
Valor Econômico
Em qualquer país do mundo causaria estranha espécie este modo de governar que promete chamar de volta um ministro demitido por suspeita de corrupção antes que as investigações da denúncia, produzida pelo próprio governo, tenham afastado sua responsabilidade no mal feito. Surpreenderia, também, a volta de ministros que se desincompatibilizaram para disputar eleições e perderam, ou de ministros que não provaram sua competência e saíram para dar lugar a outros, em certo período seus subalternos.
De todos estes, apenas o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, está sendo convidado a voltar ao mesmo cargo. A outros dois ex-ministros, o da Saúde, Agenor Álvares, e o do Esporte, Agnelo Queiroz, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está oferecendo a volta ao emprego mas, desta vez, no segundo escalão.
Estas atitudes são exemplos de como decide o presidente e como se relaciona com seus auxiliares, e são aqui lembradas, agora, para demonstrar que só uma razão muito forte teria empurrado o presidente Lula a empreender esforço dilacerante para demitir o amigo Waldir Pires do ministério da Defesa.
O presidente só o fez, e os dados que se colhem no Palácio do Planalto o confirmam, porque a crise de incompetência do governo na gestão do transporte aéreo havia chegado aos píncaros, no caso, às pesquisas de opinião.
Próximos passos balizarão pesquisas
Portanto, fazem parte do espírito marqueteiro do governo, e de sua capacidade de bem explorar a porção que lhe é favorável em cada dificuldade, como de resto ocorre no seu partido, a comemoração dos índices intocados de popularidade do presidente na fase mais aguda da crise que desnudou por inteiro sua incompetência administrativa.
A popularidade se mantém, como estava antes, entre os mais pobres e menos instruídos, mas vem caindo nas classes média e alta e entre os mais instruídos. Antes mesmo que a pesquisa Datafolha, publicada no domingo, viesse explicitar índices sobre esta percepção do eleitorado, o Palácio do Planalto já contava com pesquisas feitas por telefone que revelavam o desgaste do presidente e seu governo em uma faixa considerável da população. Mesmo não preponderante numericamente, este grupo, definido como de classe média, é formador de opinião e contribuiu, com seu voto, para a reeleição de Lula, em segundo turno, em 2006, depois do susto que os amigos do presidente, envolvidos em montagem de falsos dossiês contra adversários, deram na sua campanha.
Para alguém que não aceita críticas, não convive absolutamente com o contraditório, repudia qualquer manifestação de oposição, só aceita manifestação sob controle, de aliados, como ocorre com os movimentos de sindicalistas e de sem-terra, para alguém que sai do sério com vaias, adora aplausos e bajulação, a unanimidade é uma exigência básica. O presidente Lula foi vaiado até no Nordeste, para onde antecipou viagem fugindo de uma possível hostilidade ao Sul, e isto em uma fase em que tudo conspirava a favor, os índices da economia batendo recordes, o Pan dando uma injeção de auto-estima aos brasileiros.
Está o presidente preocupado, sim, com a intensidade dos arranhões, e foi por isto que tomou providências. Lula fez o primeiro movimento: nomeou um ministro forte para a Defesa. Este ministro vai mexer na área, já está trocando também peças que não funcionavam na estrutura da gestão, toma decisões e tem se mostrado firme. O governo, agora, vai esperar os resultados das medidas adotadas. As próximas pesquisas devem apontar como o trabalho dos novos dirigentes influenciará a avaliação do governo. A sangria vai aumentar ou as medidas serão bem percebidas pelos usuários dos serviços em crise, que voltarão a considerar o governo ótimo e bom - é a questão objetiva a aguçar a expectativa das autoridades.
As próximas pesquisas devem mostrar se a escolha de Nelson Jobim para ministro da Defesa foi uma ação competente do presidente, se o novo ministro conseguiu transmitir a idéia de que não há mais o vazio de comando evidenciado antes de sua entrada no governo.
Por enquanto, acreditam os especialistas em imagem que a escolha foi boa, pois o novo ministro apareceu bem neste início de gestão. Tem um rosto mais ou menos conhecido, boa imagem, assumiu uma postura de general para enfrentar uma guerra, apareceu intervindo, fez presença nos cenários onde os efeitos da incompetência são mais visíveis, tomou medidas de emergência. Acreditam, contudo, que ainda é cedo para definir se o governo vai de fato conseguir transmitir para a população a idéia de que, finalmente, está informado e levando a sério esta crise. É preciso aguardar os resultados das primeiras medidas e, principalmente, a definição dos próximos passos.
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília.
Rosângela Bittar
Valor Econômico
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Em qualquer país do mundo causaria estranha espécie este modo de governar que promete chamar de volta um ministro demitido por suspeita de corrupção antes que as investigações da denúncia, produzida pelo próprio governo, tenham afastado sua responsabilidade no mal feito. Surpreenderia, também, a volta de ministros que se desincompatibilizaram para disputar eleições e perderam, ou de ministros que não provaram sua competência e saíram para dar lugar a outros, em certo período seus subalternos.
De todos estes, apenas o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, está sendo convidado a voltar ao mesmo cargo. A outros dois ex-ministros, o da Saúde, Agenor Álvares, e o do Esporte, Agnelo Queiroz, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está oferecendo a volta ao emprego mas, desta vez, no segundo escalão.
Estas atitudes são exemplos de como decide o presidente e como se relaciona com seus auxiliares, e são aqui lembradas, agora, para demonstrar que só uma razão muito forte teria empurrado o presidente Lula a empreender esforço dilacerante para demitir o amigo Waldir Pires do ministério da Defesa.
O presidente só o fez, e os dados que se colhem no Palácio do Planalto o confirmam, porque a crise de incompetência do governo na gestão do transporte aéreo havia chegado aos píncaros, no caso, às pesquisas de opinião.
Próximos passos balizarão pesquisas
Portanto, fazem parte do espírito marqueteiro do governo, e de sua capacidade de bem explorar a porção que lhe é favorável em cada dificuldade, como de resto ocorre no seu partido, a comemoração dos índices intocados de popularidade do presidente na fase mais aguda da crise que desnudou por inteiro sua incompetência administrativa.
A popularidade se mantém, como estava antes, entre os mais pobres e menos instruídos, mas vem caindo nas classes média e alta e entre os mais instruídos. Antes mesmo que a pesquisa Datafolha, publicada no domingo, viesse explicitar índices sobre esta percepção do eleitorado, o Palácio do Planalto já contava com pesquisas feitas por telefone que revelavam o desgaste do presidente e seu governo em uma faixa considerável da população. Mesmo não preponderante numericamente, este grupo, definido como de classe média, é formador de opinião e contribuiu, com seu voto, para a reeleição de Lula, em segundo turno, em 2006, depois do susto que os amigos do presidente, envolvidos em montagem de falsos dossiês contra adversários, deram na sua campanha.
Para alguém que não aceita críticas, não convive absolutamente com o contraditório, repudia qualquer manifestação de oposição, só aceita manifestação sob controle, de aliados, como ocorre com os movimentos de sindicalistas e de sem-terra, para alguém que sai do sério com vaias, adora aplausos e bajulação, a unanimidade é uma exigência básica. O presidente Lula foi vaiado até no Nordeste, para onde antecipou viagem fugindo de uma possível hostilidade ao Sul, e isto em uma fase em que tudo conspirava a favor, os índices da economia batendo recordes, o Pan dando uma injeção de auto-estima aos brasileiros.
Está o presidente preocupado, sim, com a intensidade dos arranhões, e foi por isto que tomou providências. Lula fez o primeiro movimento: nomeou um ministro forte para a Defesa. Este ministro vai mexer na área, já está trocando também peças que não funcionavam na estrutura da gestão, toma decisões e tem se mostrado firme. O governo, agora, vai esperar os resultados das medidas adotadas. As próximas pesquisas devem apontar como o trabalho dos novos dirigentes influenciará a avaliação do governo. A sangria vai aumentar ou as medidas serão bem percebidas pelos usuários dos serviços em crise, que voltarão a considerar o governo ótimo e bom - é a questão objetiva a aguçar a expectativa das autoridades.
As próximas pesquisas devem mostrar se a escolha de Nelson Jobim para ministro da Defesa foi uma ação competente do presidente, se o novo ministro conseguiu transmitir a idéia de que não há mais o vazio de comando evidenciado antes de sua entrada no governo.
Por enquanto, acreditam os especialistas em imagem que a escolha foi boa, pois o novo ministro apareceu bem neste início de gestão. Tem um rosto mais ou menos conhecido, boa imagem, assumiu uma postura de general para enfrentar uma guerra, apareceu intervindo, fez presença nos cenários onde os efeitos da incompetência são mais visíveis, tomou medidas de emergência. Acreditam, contudo, que ainda é cedo para definir se o governo vai de fato conseguir transmitir para a população a idéia de que, finalmente, está informado e levando a sério esta crise. É preciso aguardar os resultados das primeiras medidas e, principalmente, a definição dos próximos passos.
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília.