antigas
Publicado: 20/08/2007 | 10:05
Déficit de professores chega a 25 mil
Duilo Victor e Renato Grandelle
Jornal do Brasil
Jornal do Brasil
Janaína Borges já esqueceu como é ter aulas de matemática. Aluna do primeiro ano do ensino médio de uma escola estadual, ela não teve professores para a disciplina desde o início do ano. Como não havia quem ensinasse sua turma, as provas também foram canceladas. A diretoria propôs aos estudantes que fossem aprovados automaticamente, prometendo que toda a matéria seria reposta na série seguinte. A idéia não agradou.
Achamos um absurdo. Não quero só assinar listas de presença - rejeitou Janaína. - Ninguém nos explicou como vamos conciliar as aulas de matemática do segundo ano com as que deveríamos ter agora.
A falta de professores, aliada às paralisações promovidas pela categoria, deixa marcas cada vez mais visíveis nos currículos escolares. Um relatório, divulgado no início do ano pela Comissão de Políticas Públicas de Juventude da Alerj, estima que, em uma década, os alunos da rede estadual perderam cerca de 350 dias de aula - o equivalente a 1,5 ano letivo - porque não havia corpo docente em suas unidades.
Nosso professor de português também desapareceu no fim do primeiro semestre - acrescentou Janaína. - Nem a diretora sabe onde ele está. Estou sem aulas de duas matérias importantes. Pensei em me inscrever em um cursinho pré-vestibular no início do ano que vem, mas acho que estou tão defasada que vou adiar a matrícula.
Segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe), os colégios administrados pelo Estado precisam de, no mínimo, 25 mil novos professores.
Esta é a quantidade de profissionais autorizados hoje para fazer hora extra - explicou Vera Nepomuceno, coordenadora do sindicato. - Se há tantos professores que precisam trabalhar mais, é porque a rede ainda conta com muitos buracos. E nem estamos contando as turmas onde não há mestre algum.
A Secretaria Estadual de Educação trabalha com um número menor. A carência da rede, segundo a pasta, é de 22 mil professores. Para resolvê-la, o Estado apostou justamente na continuação das horas extras: 16.970 professores foram autorizados a exercê-las. A gratificação pelo serviço, no ano passado, era de R$ 10,75 por hora de aula.
O Palácio Guanabara também alega ter efetivado 6.300 professores desde o início do ano. Nada, porém, que anime o sindicato dos professores. O último concurso público para profissionais que lecionam da primeira à quarta séries foi realizado há seis anos. Para essa faixa, onde o corpo docente tem mais buracos, o Estado insiste nas contratações temporárias.
O governo, como tem interesse em passar estas séries para a rede municipal, não investe no segmento - lamentou Leila Xavier, diretora do Sepe. - Como não é realizado concurso há muito tempo, os professores que se aposentam ou deixam as instituições não são repostos. É um problema grave principalmente na Baixada Fluminense, em Niterói e São Gonçalo, regiões de acesso mais complicado do que o Rio.
A falta de quadros também é combatida por remanejamentos - outra manobra condenada por servidores e parlamentares. Para que os alunos não fiquem sem aulas teóricas, muitas escolas cortam atividades práticas e deslocam profissionais.
Visitei escolas com laboratório, banda larga e excelentes computadores, mas nada era usado pelos alunos, porque os professores de informática tiveram de voltar às salas de aula - revoltou-se o deputado Marcelo Freixo (PSOL), da Comissão de Educação da Alerj. - Não adianta tirar o profissional de uma atividade para cobrir outra. A grade continua incompleta e ainda acaba com o que estava funcionando.
De acordo com o deputado, mais de 30 mil alunos da rede estadual não haviam começado o ano letivo em junho por falta de professores. A situação é mais crítica em algumas disciplinas: matemática, física e química.
Para Freixo, mesmo com o reflexo no aprendizado dos estudantes, as paralisações de professores, como a aprovada na quinta-feira, não perdem a validade:
Não adianta dizer que, ao fazer greve, o professor é inconseqüente. O Estado é o responsável, por dar um reajuste salarial que não repõe as perdas sofridas pelo contracheque dos últimos anos.
Duilo Victor e Renato Grandelle
Jornal do Brasil
Jornal do Brasil
Janaína Borges já esqueceu como é ter aulas de matemática. Aluna do primeiro ano do ensino médio de uma escola estadual, ela não teve professores para a disciplina desde o início do ano. Como não havia quem ensinasse sua turma, as provas também foram canceladas. A diretoria propôs aos estudantes que fossem aprovados automaticamente, prometendo que toda a matéria seria reposta na série seguinte. A idéia não agradou.
Achamos um absurdo. Não quero só assinar listas de presença - rejeitou Janaína. - Ninguém nos explicou como vamos conciliar as aulas de matemática do segundo ano com as que deveríamos ter agora.
A falta de professores, aliada às paralisações promovidas pela categoria, deixa marcas cada vez mais visíveis nos currículos escolares. Um relatório, divulgado no início do ano pela Comissão de Políticas Públicas de Juventude da Alerj, estima que, em uma década, os alunos da rede estadual perderam cerca de 350 dias de aula - o equivalente a 1,5 ano letivo - porque não havia corpo docente em suas unidades.
Nosso professor de português também desapareceu no fim do primeiro semestre - acrescentou Janaína. - Nem a diretora sabe onde ele está. Estou sem aulas de duas matérias importantes. Pensei em me inscrever em um cursinho pré-vestibular no início do ano que vem, mas acho que estou tão defasada que vou adiar a matrícula.
Segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe), os colégios administrados pelo Estado precisam de, no mínimo, 25 mil novos professores.
Esta é a quantidade de profissionais autorizados hoje para fazer hora extra - explicou Vera Nepomuceno, coordenadora do sindicato. - Se há tantos professores que precisam trabalhar mais, é porque a rede ainda conta com muitos buracos. E nem estamos contando as turmas onde não há mestre algum.
A Secretaria Estadual de Educação trabalha com um número menor. A carência da rede, segundo a pasta, é de 22 mil professores. Para resolvê-la, o Estado apostou justamente na continuação das horas extras: 16.970 professores foram autorizados a exercê-las. A gratificação pelo serviço, no ano passado, era de R$ 10,75 por hora de aula.
O Palácio Guanabara também alega ter efetivado 6.300 professores desde o início do ano. Nada, porém, que anime o sindicato dos professores. O último concurso público para profissionais que lecionam da primeira à quarta séries foi realizado há seis anos. Para essa faixa, onde o corpo docente tem mais buracos, o Estado insiste nas contratações temporárias.
O governo, como tem interesse em passar estas séries para a rede municipal, não investe no segmento - lamentou Leila Xavier, diretora do Sepe. - Como não é realizado concurso há muito tempo, os professores que se aposentam ou deixam as instituições não são repostos. É um problema grave principalmente na Baixada Fluminense, em Niterói e São Gonçalo, regiões de acesso mais complicado do que o Rio.
A falta de quadros também é combatida por remanejamentos - outra manobra condenada por servidores e parlamentares. Para que os alunos não fiquem sem aulas teóricas, muitas escolas cortam atividades práticas e deslocam profissionais.
Visitei escolas com laboratório, banda larga e excelentes computadores, mas nada era usado pelos alunos, porque os professores de informática tiveram de voltar às salas de aula - revoltou-se o deputado Marcelo Freixo (PSOL), da Comissão de Educação da Alerj. - Não adianta tirar o profissional de uma atividade para cobrir outra. A grade continua incompleta e ainda acaba com o que estava funcionando.
De acordo com o deputado, mais de 30 mil alunos da rede estadual não haviam começado o ano letivo em junho por falta de professores. A situação é mais crítica em algumas disciplinas: matemática, física e química.
Para Freixo, mesmo com o reflexo no aprendizado dos estudantes, as paralisações de professores, como a aprovada na quinta-feira, não perdem a validade:
Não adianta dizer que, ao fazer greve, o professor é inconseqüente. O Estado é o responsável, por dar um reajuste salarial que não repõe as perdas sofridas pelo contracheque dos últimos anos.