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Publicado: 3/09/2007 | 09:48
Cabide de família
Lúcio Vaz
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Gabinetes têm grupos de parentes e servidores em desvio de função trabalhando com CNEs. Irregularidades atingem PSC, PV e até o Conselho de Ética, encarregado de zelar pela dignidade de mandatos
A extinção de 1.050 cargos de natureza especial (CNEs), aprovada pelo plenário da Câmara em fevereiro deste ano, não acabou com as irregularidades no preenchimento desses postos. O cabide de empregos na Procuradoria Parlamentar, denunciado na semana passada pelo Correio, estende-se por lideranças partidárias e chega até o Conselho de Ética, órgão encarregado de zelar pelo decoro parlamentar e pela dignidade do mandato. São comuns os casos de desvio de função, lotação irregular e contratação de parentes.
O Conselho de Ética abriga a família Silva Leite, além de registrar um caso de desvio de função. Iara Malaquias Leite é funcionária do conselho, onde recebe um CNE-7, com salário de R$ 8,2 mil, mas está efetivamente lotada no gabinete do presidente do órgão, Ricardo Izar (PTB-SP). Ela é mulher do assessor técnico Vilson da Silva Leite, outro funcionário do conselho, com salário de R$ 4,3 mil, um CNE-10. Também trabalham no órgão a irmã de Vilson, Venderci, com o mesmo salário, e a prima de Iara, Luciara Malaquias, com salário de R$ 3,9 mil, um CNE-11.
A reportagem do Correio telefonou para o conselho na manhã de quinta-feira e pediu para falar com Iara. “(Aqui) não trabalha nenhuma Iara”, respondeu a secretária. Ao ser informada do nome completo da servidora, a secretária fez uma correção: “Ah! Mas não é aqui no conselho. Ela trabalha no gabinete do deputado. Vou transferir”. Iara atendeu o telefone no gabinete de Izar: “Gabinete do deputado Izar, bom dia!”
A resolução 01/07 diz, expressamente, que o ocupante de CNE “não poderá ser lotado em gabinete parlamentar”, além de não poder “ficar à disposição, ainda que temporariamente, de parlamentar ou de órgão distinto de sua lotação individual”.
Confusão
A liderança do Partido Social Cristão (PSC) tem um quadro funcional irregular e confuso, com casos de desvio de função e encosto de parente de ex-deputado. Com um salário de R$ 2,9 mil, Antônio Costa Ferreira Filho, trabalha só pela manhã. À tarde, ele cursa o último ano da faculdade de Direito. Até fevereiro deste ano, era funcionário do deputado Costa Ferreira (PSC-MA), seu pai. O mandato acabou, mas a bolsa de estudos continua. Ele foi contratado pela liderança do partido em agosto.
Carlos Victor Vitório também é funcionário da liderança do PSC, mas dá expediente no gabinete de Felipe Pereira (PSC-RJ). Ele atendeu no gabinete um telefonema da reportagem do Correio na quarta-feira pela manhã. Numa visita ao gabinete da liderança, no Anexo 3 da Câmara, quarta à tarde, a reportagem flagrou a advogada Elizabeth Oliveira, que é funcionária da quarta suplência, cargo da mesa ocupado pelo deputado Deley (PSC-RJ).
O gabinete do Anexo 3 tem apenas duas salas. Numa delas, com pouco mais de 25 m², havia pelo menos uma dúzia de servidores. A outra sala, do mesmo tamanho, estava reservada ao vice-presidente nacional do partido, Pastor Everaldo. Ele usava a sala “para receber deputados do partido”, justificou, como se estivesse nas dependências da presidência do PSC. Segundo informações de funcionários da liderança, o servidor Adolfo Lúcio Fernandes, que ocupa um CNE-9 (salário de R$ 6 mil), fica sempre à disposição do vice-presidente.
Na manhã de quarta, o Correio telefonou para a liderança e pediu para falar com Adolfo. “Ele deu uma saidinha. Foi buscar um negócio da rua para o pastor Everaldo, mas está voltando”, avisou a secretária. O chefe de gabinete da liderança, André Correia, afirmou que Adolfo “está a serviço do partido. Ele faz a ligação com o partido”.
Na sala da liderança no Anexo 1, Correia procurou identificar um a um os ocupantes de CNEs. Quatro estariam lotados ali mesmo, mas nenhum estava presente. Estariam prestando serviços nas comissões técnicas. “Estamos meio sem mesa. Na quarta, eles vêm para cá”, explicou. Outros seis estariam no gabinete no Anexo 4, mas lá só havia três servidores. “O pessoal está nas comissões, na biblioteca. Temos pouco espaço mesmo”, tentou justificar o chefe de gabinete.
Irmão e sobrinho
O gabinete do líder do PV, Marcelo Ortiz (SP), também é uma grande família. O chefe de gabinete, Enildo Cardozo, acomodou ali o seu irmão Ades Cardozo, o sobrinho Diogo Oliveira e a ex-cunhada Maria Cristina Bastos. Não satisfeito, colocou a mulher, Denise Guardieiro, na liderança do partido, ocupando um CNE-7.
O Correio recebeu uma relação de nove ocupantes de CNEs que estariam em desvio de função, cedidos para gabinetes de deputados do PV. Na quarta-feira, a reportagem telefonou para o gabinete de Lindomar Garçon (PV-RO) e pediu para falar com o servidor Rodrigo Oliveira. “Rodrigo não se encontra”, respondeu a secretária. Questionada se ele retornaria naquela dia, ela informou: “Hoje, não. Só amanhã agora, a partir das 9h”. Numa ligação para o gabinete de Edson Duarte (PV-BA), foi encontrado o servidor Josué Ribeiro, outro ocupante de CNE.
Na sexta-feira, Josué novamente foi encontrado no gabinete de Duarte. Ele salientou que trabalha: “Todo dia eu assino o meu ponto. Eu fico na liderança e fico aqui”. Já informado de que estava falando com um repórter, explicou o tipo de serviço que realiza: “Faço mais na liderança. Vim aqui pegar uns livros do deputado”. E acrescentou que tem apenas um CNE-15 (salário de R$ 1,9 mil): “Não é CNE de barão, não”.
Lúcio Vaz
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Gabinetes têm grupos de parentes e servidores em desvio de função trabalhando com CNEs. Irregularidades atingem PSC, PV e até o Conselho de Ética, encarregado de zelar pela dignidade de mandatos
A extinção de 1.050 cargos de natureza especial (CNEs), aprovada pelo plenário da Câmara em fevereiro deste ano, não acabou com as irregularidades no preenchimento desses postos. O cabide de empregos na Procuradoria Parlamentar, denunciado na semana passada pelo Correio, estende-se por lideranças partidárias e chega até o Conselho de Ética, órgão encarregado de zelar pelo decoro parlamentar e pela dignidade do mandato. São comuns os casos de desvio de função, lotação irregular e contratação de parentes.
O Conselho de Ética abriga a família Silva Leite, além de registrar um caso de desvio de função. Iara Malaquias Leite é funcionária do conselho, onde recebe um CNE-7, com salário de R$ 8,2 mil, mas está efetivamente lotada no gabinete do presidente do órgão, Ricardo Izar (PTB-SP). Ela é mulher do assessor técnico Vilson da Silva Leite, outro funcionário do conselho, com salário de R$ 4,3 mil, um CNE-10. Também trabalham no órgão a irmã de Vilson, Venderci, com o mesmo salário, e a prima de Iara, Luciara Malaquias, com salário de R$ 3,9 mil, um CNE-11.
A reportagem do Correio telefonou para o conselho na manhã de quinta-feira e pediu para falar com Iara. “(Aqui) não trabalha nenhuma Iara”, respondeu a secretária. Ao ser informada do nome completo da servidora, a secretária fez uma correção: “Ah! Mas não é aqui no conselho. Ela trabalha no gabinete do deputado. Vou transferir”. Iara atendeu o telefone no gabinete de Izar: “Gabinete do deputado Izar, bom dia!”
A resolução 01/07 diz, expressamente, que o ocupante de CNE “não poderá ser lotado em gabinete parlamentar”, além de não poder “ficar à disposição, ainda que temporariamente, de parlamentar ou de órgão distinto de sua lotação individual”.
Confusão
A liderança do Partido Social Cristão (PSC) tem um quadro funcional irregular e confuso, com casos de desvio de função e encosto de parente de ex-deputado. Com um salário de R$ 2,9 mil, Antônio Costa Ferreira Filho, trabalha só pela manhã. À tarde, ele cursa o último ano da faculdade de Direito. Até fevereiro deste ano, era funcionário do deputado Costa Ferreira (PSC-MA), seu pai. O mandato acabou, mas a bolsa de estudos continua. Ele foi contratado pela liderança do partido em agosto.
Carlos Victor Vitório também é funcionário da liderança do PSC, mas dá expediente no gabinete de Felipe Pereira (PSC-RJ). Ele atendeu no gabinete um telefonema da reportagem do Correio na quarta-feira pela manhã. Numa visita ao gabinete da liderança, no Anexo 3 da Câmara, quarta à tarde, a reportagem flagrou a advogada Elizabeth Oliveira, que é funcionária da quarta suplência, cargo da mesa ocupado pelo deputado Deley (PSC-RJ).
O gabinete do Anexo 3 tem apenas duas salas. Numa delas, com pouco mais de 25 m², havia pelo menos uma dúzia de servidores. A outra sala, do mesmo tamanho, estava reservada ao vice-presidente nacional do partido, Pastor Everaldo. Ele usava a sala “para receber deputados do partido”, justificou, como se estivesse nas dependências da presidência do PSC. Segundo informações de funcionários da liderança, o servidor Adolfo Lúcio Fernandes, que ocupa um CNE-9 (salário de R$ 6 mil), fica sempre à disposição do vice-presidente.
Na manhã de quarta, o Correio telefonou para a liderança e pediu para falar com Adolfo. “Ele deu uma saidinha. Foi buscar um negócio da rua para o pastor Everaldo, mas está voltando”, avisou a secretária. O chefe de gabinete da liderança, André Correia, afirmou que Adolfo “está a serviço do partido. Ele faz a ligação com o partido”.
Na sala da liderança no Anexo 1, Correia procurou identificar um a um os ocupantes de CNEs. Quatro estariam lotados ali mesmo, mas nenhum estava presente. Estariam prestando serviços nas comissões técnicas. “Estamos meio sem mesa. Na quarta, eles vêm para cá”, explicou. Outros seis estariam no gabinete no Anexo 4, mas lá só havia três servidores. “O pessoal está nas comissões, na biblioteca. Temos pouco espaço mesmo”, tentou justificar o chefe de gabinete.
Irmão e sobrinho
O gabinete do líder do PV, Marcelo Ortiz (SP), também é uma grande família. O chefe de gabinete, Enildo Cardozo, acomodou ali o seu irmão Ades Cardozo, o sobrinho Diogo Oliveira e a ex-cunhada Maria Cristina Bastos. Não satisfeito, colocou a mulher, Denise Guardieiro, na liderança do partido, ocupando um CNE-7.
O Correio recebeu uma relação de nove ocupantes de CNEs que estariam em desvio de função, cedidos para gabinetes de deputados do PV. Na quarta-feira, a reportagem telefonou para o gabinete de Lindomar Garçon (PV-RO) e pediu para falar com o servidor Rodrigo Oliveira. “Rodrigo não se encontra”, respondeu a secretária. Questionada se ele retornaria naquela dia, ela informou: “Hoje, não. Só amanhã agora, a partir das 9h”. Numa ligação para o gabinete de Edson Duarte (PV-BA), foi encontrado o servidor Josué Ribeiro, outro ocupante de CNE.
Na sexta-feira, Josué novamente foi encontrado no gabinete de Duarte. Ele salientou que trabalha: “Todo dia eu assino o meu ponto. Eu fico na liderança e fico aqui”. Já informado de que estava falando com um repórter, explicou o tipo de serviço que realiza: “Faço mais na liderança. Vim aqui pegar uns livros do deputado”. E acrescentou que tem apenas um CNE-15 (salário de R$ 1,9 mil): “Não é CNE de barão, não”.