antigas Publicado: 17/10/2007 | 09:49

Sem renúncia ou prorrogação

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

Num movimento coordenado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) avisou aos aliados que não pretende renunciar ao cargo, nem prorrogar a licença de 45 dias, como quer a maioria dos líderes. É o prazo que considera razoável para o Conselho de Ética decidir o seu destino político, se não houver protelação na apreciação das quatro representações que existem contra ele por quebra de decoro parlamentar. Renan argumenta que se licenciou para que não houvesse suspeita de que estava usando a Presidência do Senado para obstruir os processos contra ele e cuidar exclusivamente de sua defesa.

O recado de Renan aos aliados surtiu efeito no Senado, onde a disputa pela sucessão está aberta. Os líderes de bancada fizeram um acordo para limpar a pauta e votar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Também há um pacto para agilizar os processos de Renan na reunião do Conselho de Ética prevista para hoje. O governo pisa em ovos para não afrontar Calheiros. Seu aliado principal, o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), cozinha em banho-maria sua candidatura à sucessão de Renan.

Ex-aliado
A expectativa é de um acordo para que o caso tenha um desfecho semelhante ao do ex-líder do PMDB, Ney Suassuna (PB), supostamente envolvido no caso dos “sanguessugas”: escapou da cassação, em troca da liderança e de uma punição mais branda. Suassuna, porém, perdeu o mandato nas urnas, o que Renan pretende evitar.

Ontem, Renan passou o dia com assessores para reorganizar a sua atuação parlamentar. Comunicou oficialmente ao presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), com quem conversou, que pretende desocupar a residência oficial e voltar ao velho apartamento na superquadra de senadores da Asa Sul do Plano Piloto. A data da mudança será decidida pela esposa, Verônica, que está viajando.

A decisão foi precipitada por causa das atitudes de Tião Viana, que comunicou a alguns assessores diretos de Renan que precisaria dos respectivos cargos tão logo assumiu a interinamente a Presidência . A mudança, porém, está sendo interpretada por aliados como indício de que Renan não pretende voltar ao cargo.

Segundo assessores, Renan reestruturou o seu gabinete parlamentar, que estava relegado a segundo plano por causa da Presidência do Senado. Há duas prioridades: a defesa do mandato no Conselho de Ética e a preservação das bases eleitorais em Alagoas, onde Renan tem muitos problemas. São alagoanos dois protagonistas das denúncias contra ele: a ex-senadora Heloisa Helena (PSol) e o empresário João Lyra, seu ex-aliado, derrotado pelo tucano Teotônio Vilela na disputa pelo governo do estado.
 
Cronograma ficou para hoje
Os relatores dos três processos por quebra de decoro contra Renan Calheiros enfrentam dificuldades para concluir as investigações no Conselho de Ética, que se reúne hoje para definir o cronograma de trabalho. Imprevistos, recusas e burocracia ameaçam o prazo de conclusão dos processos, estabelecido para o dia 2 de novembro.

O senador Jefferson Peres (PDT-AM) pretende pedir mais tempo para concluir o relatório da suposta sociedade secreta entre Renan e o usineiro João Lyra para aquisição de duas rádios e um jornal em Alagoas. Ontem, os advogados do usineiro estiveram no Senado com Peres. Informaram que Lyra não quer depor tampouco participar de acareação com Renan. “Alegaram que Lyra é velho (tem 77 anos) e está com problemas de saúde. A acareação é impossível”, lamentou Peres, que pediu esclarecimentos por escrito aos advogados do usineiro e espera documentos da Junta Comercial de Alagoas.

Peres resiste, mas é cotado para assumir mais um processo contra Renan, o que trata da acusação de espionagem envolvendo um assessor especial da presidência do Senado. Ontem, o presidente do Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), começou a consultar seus pares na tentativa de evitar a nomeação de um quarto relator.

A reunião marcada para ontem precisou ser adiada para a manhã de hoje porque o vôo do senador Almeida Lima (PMDB-SE) atrasou. Ele ainda não teve tempo de analisar toda a documentação da denúncia que liga Renan ao desvio de verbas de ministérios do PMDB. O senador João Pedro (PT-AM) também espera uma resposta da Schincariol e documentos da Polícia Federal para dar início ao relatório que trata da interferência de Renan no abatimento de uma dívida da cervejaria.
Caso a caso

Sabia quais são as acusações restantes contra o presidente licenciado do Senado

CASO SCHINCARIOL
Está sendo investigada a relação Renan Calheiros com o abatimento da dívida da R$ 100 mil da cervejaria Schincariol com o INSS. A fábrica de Alagoas teria sido comprada pelo irmão de Renan, o deputado federal Olavo Calheiros (PMDB-AL), por preço acima do mercado. O relator da representação, senador João Pedro (PT-AM), aguarda esclarecimentos da cervejaria. Enquanto as investigações são feitas, o processo fica paralisado no Conselho de Ética.


LARANJAS NAS RÁDIOS
Denúncia de que Renan teria mantido uma sociedade oculta com o usineiro João Lyra na compra de um jornal e duas rádios em Alagoas. As empresas teriam sido registradas em nome de laranjas (o filho e um primo do senador alagoano) e pagas com dinheiro de fonte desconhecida. O relator do processo, Jefferson Peres (PDT-AM), prometeu entregar até o dia 2 de novembro seu voto para ser apreciado pelo Conselho de Ética.

O EX-ASSESSOR
O PSol apresentou em setembro representação pedindo apuração das denúncias reveladas pelo advogado Bruno Lins, ex-funcionário do gabinete de Renan, de que o senador participaria de esquema de desvio e lavagem de dinheiro em ministérios chefiados pelo PMDB. Lins acusa o seu ex-sogro, o lobista Luiz Garcia Coelho, de operar para diversos políticos do PMDB, entre os quais Renan, com recursos desviados da Esplanada. O relator do processo, escalado na semana passada, é o senador Almeida Lima (PMDB-SE), fiel defensor do presidente do Senado.

ARAPONGAGEM
O presidente do Senado é suspeito de ter escalado um assessor especial para espionar os senadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Demostenes Torres (DEM-GO). Renan e o assessor especial, Francisco Escórcio, negam que tenham armado um plano para flagrar os senadores da oposição em situações suspeitas. Escórcio foi exonerado na quarta-feira passada. A representação, protocolada pelo DEM e PSDB, já está à espera de relator no Conselho de Ética. O mais cotado é Jefferson Peres, que acumularia duas relatorias no Conselho.

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

Num movimento coordenado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) avisou aos aliados que não pretende renunciar ao cargo, nem prorrogar a licença de 45 dias, como quer a maioria dos líderes. É o prazo que considera razoável para o Conselho de Ética decidir o seu destino político, se não houver protelação na apreciação das quatro representações que existem contra ele por quebra de decoro parlamentar. Renan argumenta que se licenciou para que não houvesse suspeita de que estava usando a Presidência do Senado para obstruir os processos contra ele e cuidar exclusivamente de sua defesa.

O recado de Renan aos aliados surtiu efeito no Senado, onde a disputa pela sucessão está aberta. Os líderes de bancada fizeram um acordo para limpar a pauta e votar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Também há um pacto para agilizar os processos de Renan na reunião do Conselho de Ética prevista para hoje. O governo pisa em ovos para não afrontar Calheiros. Seu aliado principal, o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), cozinha em banho-maria sua candidatura à sucessão de Renan.

Ex-aliado
A expectativa é de um acordo para que o caso tenha um desfecho semelhante ao do ex-líder do PMDB, Ney Suassuna (PB), supostamente envolvido no caso dos “sanguessugas”: escapou da cassação, em troca da liderança e de uma punição mais branda. Suassuna, porém, perdeu o mandato nas urnas, o que Renan pretende evitar.

Ontem, Renan passou o dia com assessores para reorganizar a sua atuação parlamentar. Comunicou oficialmente ao presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), com quem conversou, que pretende desocupar a residência oficial e voltar ao velho apartamento na superquadra de senadores da Asa Sul do Plano Piloto. A data da mudança será decidida pela esposa, Verônica, que está viajando.

A decisão foi precipitada por causa das atitudes de Tião Viana, que comunicou a alguns assessores diretos de Renan que precisaria dos respectivos cargos tão logo assumiu a interinamente a Presidência . A mudança, porém, está sendo interpretada por aliados como indício de que Renan não pretende voltar ao cargo.

Segundo assessores, Renan reestruturou o seu gabinete parlamentar, que estava relegado a segundo plano por causa da Presidência do Senado. Há duas prioridades: a defesa do mandato no Conselho de Ética e a preservação das bases eleitorais em Alagoas, onde Renan tem muitos problemas. São alagoanos dois protagonistas das denúncias contra ele: a ex-senadora Heloisa Helena (PSol) e o empresário João Lyra, seu ex-aliado, derrotado pelo tucano Teotônio Vilela na disputa pelo governo do estado.
 
Cronograma ficou para hoje
Os relatores dos três processos por quebra de decoro contra Renan Calheiros enfrentam dificuldades para concluir as investigações no Conselho de Ética, que se reúne hoje para definir o cronograma de trabalho. Imprevistos, recusas e burocracia ameaçam o prazo de conclusão dos processos, estabelecido para o dia 2 de novembro.

O senador Jefferson Peres (PDT-AM) pretende pedir mais tempo para concluir o relatório da suposta sociedade secreta entre Renan e o usineiro João Lyra para aquisição de duas rádios e um jornal em Alagoas. Ontem, os advogados do usineiro estiveram no Senado com Peres. Informaram que Lyra não quer depor tampouco participar de acareação com Renan. “Alegaram que Lyra é velho (tem 77 anos) e está com problemas de saúde. A acareação é impossível”, lamentou Peres, que pediu esclarecimentos por escrito aos advogados do usineiro e espera documentos da Junta Comercial de Alagoas.

Peres resiste, mas é cotado para assumir mais um processo contra Renan, o que trata da acusação de espionagem envolvendo um assessor especial da presidência do Senado. Ontem, o presidente do Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), começou a consultar seus pares na tentativa de evitar a nomeação de um quarto relator.

A reunião marcada para ontem precisou ser adiada para a manhã de hoje porque o vôo do senador Almeida Lima (PMDB-SE) atrasou. Ele ainda não teve tempo de analisar toda a documentação da denúncia que liga Renan ao desvio de verbas de ministérios do PMDB. O senador João Pedro (PT-AM) também espera uma resposta da Schincariol e documentos da Polícia Federal para dar início ao relatório que trata da interferência de Renan no abatimento de uma dívida da cervejaria.
Caso a caso

Sabia quais são as acusações restantes contra o presidente licenciado do Senado

CASO SCHINCARIOL
Está sendo investigada a relação Renan Calheiros com o abatimento da dívida da R$ 100 mil da cervejaria Schincariol com o INSS. A fábrica de Alagoas teria sido comprada pelo irmão de Renan, o deputado federal Olavo Calheiros (PMDB-AL), por preço acima do mercado. O relator da representação, senador João Pedro (PT-AM), aguarda esclarecimentos da cervejaria. Enquanto as investigações são feitas, o processo fica paralisado no Conselho de Ética.


LARANJAS NAS RÁDIOS
Denúncia de que Renan teria mantido uma sociedade oculta com o usineiro João Lyra na compra de um jornal e duas rádios em Alagoas. As empresas teriam sido registradas em nome de laranjas (o filho e um primo do senador alagoano) e pagas com dinheiro de fonte desconhecida. O relator do processo, Jefferson Peres (PDT-AM), prometeu entregar até o dia 2 de novembro seu voto para ser apreciado pelo Conselho de Ética.

O EX-ASSESSOR
O PSol apresentou em setembro representação pedindo apuração das denúncias reveladas pelo advogado Bruno Lins, ex-funcionário do gabinete de Renan, de que o senador participaria de esquema de desvio e lavagem de dinheiro em ministérios chefiados pelo PMDB. Lins acusa o seu ex-sogro, o lobista Luiz Garcia Coelho, de operar para diversos políticos do PMDB, entre os quais Renan, com recursos desviados da Esplanada. O relator do processo, escalado na semana passada, é o senador Almeida Lima (PMDB-SE), fiel defensor do presidente do Senado.

ARAPONGAGEM
O presidente do Senado é suspeito de ter escalado um assessor especial para espionar os senadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Demostenes Torres (DEM-GO). Renan e o assessor especial, Francisco Escórcio, negam que tenham armado um plano para flagrar os senadores da oposição em situações suspeitas. Escórcio foi exonerado na quarta-feira passada. A representação, protocolada pelo DEM e PSDB, já está à espera de relator no Conselho de Ética. O mais cotado é Jefferson Peres, que acumularia duas relatorias no Conselho.