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Publicado: 19/11/2007 | 08:56
Desigualdade capital
Mariana Flores
Correio Braziliense
Correio Braziliense
A disparidade entre o Plano Piloto e as cidades do DF também é grande no mercado de trabalho. Jovens moradores das asas Norte e Sul ganham, em média, 63% mais do que os que vivem na periferia
O mercado de trabalho brasiliense divide os jovens do Plano Piloto e das cidades do Distrito Federal em dois pólos bem distintos. De um lado estão os moradores das asas Sul e Norte e dos lagos Sul e Norte, que podem se dedicar aos estudos por mais tempo e mesmo quando trabalham continuam freqüentando colégios e faculdades. Eles têm mais facilidade de conseguir um posto de trabalho e ganham, em média, 63% mais. Na outra margem estão os jovens das regiões pobres da capital. Mais da metade deles não estuda e um terço trabalha em situações precárias, sem direitos garantidos, ou procura emprego. E quando conseguem um posto de trabalho, os salários são abaixo da média.
O levantamento, elaborado pelo escritório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em Brasília para o Correio, compara os brasilienses que vivem nos dois extremos. Ao todo são 426.159 pessoas com idade entre 16 e 24 anos. Menos de 10% deles fazem parte do universo mais favorecido. Do total, 202.186 moram nas cidades mais carentes, como, por exemplo, Brazlândia, Ceilândia, Santa Maria e Paranoá, incluídos no grupo 3, de acordo com a metodologia do estudo, elaborado com dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). No meio estão os 183.509 moradores de cidades de renda intermediária, como Gama, Taguatinga, Guará e Cruzeiro.
O ingresso no mercado de trabalho se dá por motivos diferentes, dependendo da região onde moram. Metade dos jovens do Plano Piloto com menos de 24 anos está empregada. De cada dois que trabalham, um continua estudando. Entre a população das cidades com renda menor, apenas 23% dos ocupados estão matriculados em um colégio ou faculdade. As condições de trabalho e o desemprego também os dividem. Apenas 5,9% dos primeiros exercem atividades consideradas precárias, ou seja, trabalham sem carteira assinada, são autônomos ou empregados domésticos — incluindo as domésticas que moram em casas do Plano Piloto. E outros 12,1% procuram emprego. Nas cidades mais pobres, 11,2% não têm carteira assinada e 23,9% estão desempregados. “Uma coisa é tentar sobreviver para contribuir com a renda familiar e outra é fazer estágio para ganhar experiência enquanto continua estudando. Os que têm menos condição aceitam qualquer emprego”, afirma o coordenador do estudo, Antônio Ibarra.
Moradores da Estrutural, funcionários de lojas comerciais e sem direitos garantidos, os vizinhos Patrícia Santos e Pedro Henrique Soares Costa, ambos de 16 anos, dividem ainda o desejo de voltar para suas cidades: Bom Jesus da Lapa (BA) e Juazeiro (BA), respectivamente. Patrícia faz parte dos 16,3% dos jovens do DF que estudam e trabalham. Atualmente cursa a 7ª série do ensino fundamental e aproveita as horas vagas no trabalho de vendedora em uma loja de artigos femininos para estudar. “Trago os livros e estudo sempre. Já fiquei dois anos sem estudar, mas não quero nunca mais parar. Meu sonho é conseguir fazer uma faculdade e estudar teatro”, conta a jovem, que não possui nenhum direito garantido na carteira e recebe menos de um salário mínimo por mês — R$ 350.
Já Pedro Henrique desistiu dos estudos. Ainda não sabe se voltará a cursar a 8ª série em 2008. Enquanto isso faz apenas alguns bicos em lojas da tia para ocupar o tempo. No feriado da última quinta-feira, passou o dia vendendo louças e ganhou R$ 35 pelo trabalho. “Parei de estudar porque não estava gostando, mas ano que vem vou retornar a Juazeiro para morar com a minha mãe e talvez eu volte”.
Setores diferentes
Com exceção do setor de serviços, que emprega quase a metade de todos os jovens do DF, a área de atuação varia de acordo com o local de moradia. Fora do Plano Piloto, o comércio é a principal fonte de ocupação da outra metade da população jovem. No centro da cidade, é a administração pública que oferece mais emprego.
Moradora da Estrutural, Meire da Rocha Cruzeiro, de 19 anos, sonha pular de um setor para o outro. Atualmente, trabalha como vendedora de frutas e verduras em um box do Ceasa e nos dias de folga ajuda os pais na mercearia da família. Mas estuda diariamente na esperança de entrar para o serviço público. Seu desejo é passar em um concurso e assim conseguir um salário que pague a mensalidade de uma faculdade. Os R$ 550 mensais que ganha como vendedora não são suficientes. Meire sonha fugir da tradição de sua família — o pai, pedreiro, estudou até a quarta série do ensino fundamental, e a mãe, doméstica, até a segunda. “Tenho muita vontade de estudar, mas é difícil”,diz.
PIOR NO RANKING
O DF é, desde 1995, a região metropolitana com pior distribuição de renda do país. Com o índice de Gini de 0,612, o conglomerado urbano em torno de Brasília supera as regiões de Recife, com 0,608, e de Salvador, com 0,577. O índice de Gini varia de zero a 1 e, quanto mais alto, pior é a distribuição de renda. Os dados foram organizados pelo economista André Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), com base em dados do IBGE de 2006. A principal causa dessa desigualdade é o contraste entre a elite do funcionalismo em Brasília e o grande número de pobres nas cidades do DF.
Mariana Flores
Correio Braziliense
Correio Braziliense
A disparidade entre o Plano Piloto e as cidades do DF também é grande no mercado de trabalho. Jovens moradores das asas Norte e Sul ganham, em média, 63% mais do que os que vivem na periferia
O mercado de trabalho brasiliense divide os jovens do Plano Piloto e das cidades do Distrito Federal em dois pólos bem distintos. De um lado estão os moradores das asas Sul e Norte e dos lagos Sul e Norte, que podem se dedicar aos estudos por mais tempo e mesmo quando trabalham continuam freqüentando colégios e faculdades. Eles têm mais facilidade de conseguir um posto de trabalho e ganham, em média, 63% mais. Na outra margem estão os jovens das regiões pobres da capital. Mais da metade deles não estuda e um terço trabalha em situações precárias, sem direitos garantidos, ou procura emprego. E quando conseguem um posto de trabalho, os salários são abaixo da média.
O levantamento, elaborado pelo escritório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em Brasília para o Correio, compara os brasilienses que vivem nos dois extremos. Ao todo são 426.159 pessoas com idade entre 16 e 24 anos. Menos de 10% deles fazem parte do universo mais favorecido. Do total, 202.186 moram nas cidades mais carentes, como, por exemplo, Brazlândia, Ceilândia, Santa Maria e Paranoá, incluídos no grupo 3, de acordo com a metodologia do estudo, elaborado com dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). No meio estão os 183.509 moradores de cidades de renda intermediária, como Gama, Taguatinga, Guará e Cruzeiro.
O ingresso no mercado de trabalho se dá por motivos diferentes, dependendo da região onde moram. Metade dos jovens do Plano Piloto com menos de 24 anos está empregada. De cada dois que trabalham, um continua estudando. Entre a população das cidades com renda menor, apenas 23% dos ocupados estão matriculados em um colégio ou faculdade. As condições de trabalho e o desemprego também os dividem. Apenas 5,9% dos primeiros exercem atividades consideradas precárias, ou seja, trabalham sem carteira assinada, são autônomos ou empregados domésticos — incluindo as domésticas que moram em casas do Plano Piloto. E outros 12,1% procuram emprego. Nas cidades mais pobres, 11,2% não têm carteira assinada e 23,9% estão desempregados. “Uma coisa é tentar sobreviver para contribuir com a renda familiar e outra é fazer estágio para ganhar experiência enquanto continua estudando. Os que têm menos condição aceitam qualquer emprego”, afirma o coordenador do estudo, Antônio Ibarra.
Moradores da Estrutural, funcionários de lojas comerciais e sem direitos garantidos, os vizinhos Patrícia Santos e Pedro Henrique Soares Costa, ambos de 16 anos, dividem ainda o desejo de voltar para suas cidades: Bom Jesus da Lapa (BA) e Juazeiro (BA), respectivamente. Patrícia faz parte dos 16,3% dos jovens do DF que estudam e trabalham. Atualmente cursa a 7ª série do ensino fundamental e aproveita as horas vagas no trabalho de vendedora em uma loja de artigos femininos para estudar. “Trago os livros e estudo sempre. Já fiquei dois anos sem estudar, mas não quero nunca mais parar. Meu sonho é conseguir fazer uma faculdade e estudar teatro”, conta a jovem, que não possui nenhum direito garantido na carteira e recebe menos de um salário mínimo por mês — R$ 350.
Já Pedro Henrique desistiu dos estudos. Ainda não sabe se voltará a cursar a 8ª série em 2008. Enquanto isso faz apenas alguns bicos em lojas da tia para ocupar o tempo. No feriado da última quinta-feira, passou o dia vendendo louças e ganhou R$ 35 pelo trabalho. “Parei de estudar porque não estava gostando, mas ano que vem vou retornar a Juazeiro para morar com a minha mãe e talvez eu volte”.
Setores diferentes
Com exceção do setor de serviços, que emprega quase a metade de todos os jovens do DF, a área de atuação varia de acordo com o local de moradia. Fora do Plano Piloto, o comércio é a principal fonte de ocupação da outra metade da população jovem. No centro da cidade, é a administração pública que oferece mais emprego.
Moradora da Estrutural, Meire da Rocha Cruzeiro, de 19 anos, sonha pular de um setor para o outro. Atualmente, trabalha como vendedora de frutas e verduras em um box do Ceasa e nos dias de folga ajuda os pais na mercearia da família. Mas estuda diariamente na esperança de entrar para o serviço público. Seu desejo é passar em um concurso e assim conseguir um salário que pague a mensalidade de uma faculdade. Os R$ 550 mensais que ganha como vendedora não são suficientes. Meire sonha fugir da tradição de sua família — o pai, pedreiro, estudou até a quarta série do ensino fundamental, e a mãe, doméstica, até a segunda. “Tenho muita vontade de estudar, mas é difícil”,diz.
PIOR NO RANKING
O DF é, desde 1995, a região metropolitana com pior distribuição de renda do país. Com o índice de Gini de 0,612, o conglomerado urbano em torno de Brasília supera as regiões de Recife, com 0,608, e de Salvador, com 0,577. O índice de Gini varia de zero a 1 e, quanto mais alto, pior é a distribuição de renda. Os dados foram organizados pelo economista André Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), com base em dados do IBGE de 2006. A principal causa dessa desigualdade é o contraste entre a elite do funcionalismo em Brasília e o grande número de pobres nas cidades do DF.