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Publicado: 14/01/2008 | 08:17
Brasil S.A - Um ano interessante
Correio Braziliense
Se quiser ter um fim de mandato em alta, Lula precisa tomar uma posição firme em favor da manutenção da estabilidade. Seu comportamento ao longo de 2008 dirá para que lado vai pender
“Fasten your seatbelts. It’s going to be a bumpy night.” O alerta é de Bette Davis em All about Eve, filme de 1950 que no Brasil se chamou A Malvada. Bette mandava os convidados de uma recepção apertarem os cintos de segurança, pois a noite seria turbulenta. Os diálogos escritos por Joseph Mankiewicz no filme estão entre os melhores do cinema e a advertência da personagem virou marca registrada de mordacidade. Repetida diversas vezes nos mais diferentes contextos, a sentença acabou se tornando uma imagem gasta. Ainda assim, foi a que me veio à mente quando me propus a escrever esta coluna sobre como deve ser o ano que há pouco se iniciou.
Fazer previsões é tarefa fadada ao fracasso. Mesmo assim, a tentação de traçar parâmetros para o futuro próximo é irresistível. Com base na agenda política e nas tendências econômicas, é possível imaginar como devem andar as coisas no curto prazo. Se 2008 não for um ano de fato turbulento, com certeza será ao menos bem interessante.
No plano externo, o fato mais relevante será o fim do mandato do mais obscurantista de todos os presidentes norte-americanos e a escolha de seu sucessor. Desde o início de seu governo, há sete anos, George Walker Bush foi um fator de instabilidade. O comportamento fiscal irresponsável, que devolveu impostos para os ricos ao mesmo tempo em que catapultou gastos em defesa, transformou em pó o superávit fiscal que Bill Clinton construiu em oito anos. O ruinoso déficit público se aliou ao crônico desequilíbrio nas contas externas e fez o dólar perder valor no mundo todo.
Diversos analistas americanos afirmaram categoricamente que nunca uma administração trabalhou tão descaradamente em favor de poderosos grupos empresariais. As benesses aos amigos foram distribuídas de modo farto, principalmente na forma de desregulamentação de setores importantes, como o de energia, e contratos na reconstrução de Afeganistão e Iraque. Mesmo antes dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os falcões da política externa, de olho em negócios promissores, já haviam decidido destronar o ditador Saddam Hussein. As campanhas militares e a retórica inflamada contra o Irã ajudaram a inflar as cotações do petróleo.
Lata de lixo da história
A commodity vai continuar em alta e o dólar, em baixa. A conseqüência da crise financeira imobiliária deve ser uma retração no ritmo de crescimento norte-americano ou uma recessão. Isso tudo deve se traduzir numa expansão econômica mundial menor, por volta de 4%, a despeito do desempenho ainda marcante dos países em desenvolvimento, em especial China e Índia. Pelos seus próprios temperamentos, qualquer um dos quatro postulantes que os analistas políticos apontam como favoritos nas eleições deste ano — os democratas Hillary Clinton e Barack Obama e os republicanos John McCain e Rudolph Giuliani — terá mais senso na condução dos EUA.
Na campanha das primárias, os candidatos têm evitado detalhar propostas para temas espinhosos, como ações militares externas. Pelo que se depreende, é provável que o embate se volte mais para temas internos, como o equilíbrio fiscal e a extensão dos programas de saúde e assistência social. Isso é ótimo. O fato é que a população parece cansada da beligerância e do isolamento que tomaram conta do país nos últimos sete anos. Ainda não se sabe que efeito isso pode ter no comportamento de Bush em seu último ano de mandato. De qualquer forma, depois de atear fogo no mundo, deixará o governo para entrar na lata de lixo da história. Vivas.
No plano interno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que decidir como deseja ser lembrado. Este ano será decisivo para sua gestão. Às voltas com restrições fiscais causadas pelo fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), ele terá que escolher entre continuar no rumo seguro da política econômica responsável, com reforço nos três pilares atuais (câmbio flexível, regime de metas de inflação e ajuste nas contas públicas) ou ouvir o canto da sereia. Os ouvidos presidenciais têm sido bombardeados por conselhos insensatos de auxiliares próximos, que acreditam que o tempo dos sacrifícios já passou.
Trincheiras do comedimento
Agora, dizem, seria a hora de aproveitar frutos gerados por anos de contenção e liberar a economia para crescer a taxas mais fortes, à custa de abundantes gastos públicos e política monetária menos rígida. Além da banda palaciana, o grupo ganhou a adesão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que mantém as aparências, mas está cada vez mais distante do figurino ortodoxo. Nas trincheiras do comedimento, resistem o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro do Planejamento, Paulo bernardo. Diante da bonança garantida pela entrada recorde de dólares, o governo aumentou os gastos em 11% no ano passado.
Como o economista Raul Velloso tem insistido, o governo deveria ter cortado despesas de custeio. Não o fez e pode pagar o preço, sendo obrigado a promover um ajuste em ambiente adverso, sem a CPMF e com o risco de retração econômica mundial. A economia brasileira deve crescer menos do que os 5,2% do ano passado e a inflação pode ficar acima de 4,5%. Para piorar a situação, o governo ainda lida com o sério risco de apagão elétrico, o que teria efeitos funestos para as chances de crescimento. Se quiser ter um fim de mandato em alta, Lula precisa tomar uma posição firme em favor da manutenção da estabilidade. Seu comportamento ao longo de 2008 dirá para que lado vai pender.
Correio Braziliense
Se quiser ter um fim de mandato em alta, Lula precisa tomar uma posição firme em favor da manutenção da estabilidade. Seu comportamento ao longo de 2008 dirá para que lado vai pender
“Fasten your seatbelts. It’s going to be a bumpy night.” O alerta é de Bette Davis em All about Eve, filme de 1950 que no Brasil se chamou A Malvada. Bette mandava os convidados de uma recepção apertarem os cintos de segurança, pois a noite seria turbulenta. Os diálogos escritos por Joseph Mankiewicz no filme estão entre os melhores do cinema e a advertência da personagem virou marca registrada de mordacidade. Repetida diversas vezes nos mais diferentes contextos, a sentença acabou se tornando uma imagem gasta. Ainda assim, foi a que me veio à mente quando me propus a escrever esta coluna sobre como deve ser o ano que há pouco se iniciou.
Fazer previsões é tarefa fadada ao fracasso. Mesmo assim, a tentação de traçar parâmetros para o futuro próximo é irresistível. Com base na agenda política e nas tendências econômicas, é possível imaginar como devem andar as coisas no curto prazo. Se 2008 não for um ano de fato turbulento, com certeza será ao menos bem interessante.
No plano externo, o fato mais relevante será o fim do mandato do mais obscurantista de todos os presidentes norte-americanos e a escolha de seu sucessor. Desde o início de seu governo, há sete anos, George Walker Bush foi um fator de instabilidade. O comportamento fiscal irresponsável, que devolveu impostos para os ricos ao mesmo tempo em que catapultou gastos em defesa, transformou em pó o superávit fiscal que Bill Clinton construiu em oito anos. O ruinoso déficit público se aliou ao crônico desequilíbrio nas contas externas e fez o dólar perder valor no mundo todo.
Diversos analistas americanos afirmaram categoricamente que nunca uma administração trabalhou tão descaradamente em favor de poderosos grupos empresariais. As benesses aos amigos foram distribuídas de modo farto, principalmente na forma de desregulamentação de setores importantes, como o de energia, e contratos na reconstrução de Afeganistão e Iraque. Mesmo antes dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os falcões da política externa, de olho em negócios promissores, já haviam decidido destronar o ditador Saddam Hussein. As campanhas militares e a retórica inflamada contra o Irã ajudaram a inflar as cotações do petróleo.
Lata de lixo da história
A commodity vai continuar em alta e o dólar, em baixa. A conseqüência da crise financeira imobiliária deve ser uma retração no ritmo de crescimento norte-americano ou uma recessão. Isso tudo deve se traduzir numa expansão econômica mundial menor, por volta de 4%, a despeito do desempenho ainda marcante dos países em desenvolvimento, em especial China e Índia. Pelos seus próprios temperamentos, qualquer um dos quatro postulantes que os analistas políticos apontam como favoritos nas eleições deste ano — os democratas Hillary Clinton e Barack Obama e os republicanos John McCain e Rudolph Giuliani — terá mais senso na condução dos EUA.
Na campanha das primárias, os candidatos têm evitado detalhar propostas para temas espinhosos, como ações militares externas. Pelo que se depreende, é provável que o embate se volte mais para temas internos, como o equilíbrio fiscal e a extensão dos programas de saúde e assistência social. Isso é ótimo. O fato é que a população parece cansada da beligerância e do isolamento que tomaram conta do país nos últimos sete anos. Ainda não se sabe que efeito isso pode ter no comportamento de Bush em seu último ano de mandato. De qualquer forma, depois de atear fogo no mundo, deixará o governo para entrar na lata de lixo da história. Vivas.
No plano interno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que decidir como deseja ser lembrado. Este ano será decisivo para sua gestão. Às voltas com restrições fiscais causadas pelo fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), ele terá que escolher entre continuar no rumo seguro da política econômica responsável, com reforço nos três pilares atuais (câmbio flexível, regime de metas de inflação e ajuste nas contas públicas) ou ouvir o canto da sereia. Os ouvidos presidenciais têm sido bombardeados por conselhos insensatos de auxiliares próximos, que acreditam que o tempo dos sacrifícios já passou.
Trincheiras do comedimento
Agora, dizem, seria a hora de aproveitar frutos gerados por anos de contenção e liberar a economia para crescer a taxas mais fortes, à custa de abundantes gastos públicos e política monetária menos rígida. Além da banda palaciana, o grupo ganhou a adesão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que mantém as aparências, mas está cada vez mais distante do figurino ortodoxo. Nas trincheiras do comedimento, resistem o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro do Planejamento, Paulo bernardo. Diante da bonança garantida pela entrada recorde de dólares, o governo aumentou os gastos em 11% no ano passado.
Como o economista Raul Velloso tem insistido, o governo deveria ter cortado despesas de custeio. Não o fez e pode pagar o preço, sendo obrigado a promover um ajuste em ambiente adverso, sem a CPMF e com o risco de retração econômica mundial. A economia brasileira deve crescer menos do que os 5,2% do ano passado e a inflação pode ficar acima de 4,5%. Para piorar a situação, o governo ainda lida com o sério risco de apagão elétrico, o que teria efeitos funestos para as chances de crescimento. Se quiser ter um fim de mandato em alta, Lula precisa tomar uma posição firme em favor da manutenção da estabilidade. Seu comportamento ao longo de 2008 dirá para que lado vai pender.