antigas Publicado: 8/07/2008 | 09:55

Banco mundial cobra do ação para evitar "desastre"

CLÓVIS ROSSI
Folha de S. Paulo

Para instituição, crise dos alimentos pode levar à fome mais 100 milhões de pessoas

Robert Zoellick, presidente do Bird, defende socorro emergencial a nações mais pobres e fim de restrições às exportações de alimentos

O presidente do banco Mundial, Robert Zoellick, cobrou que os líderes do G8 (os sete países mais ricos do mundo mais a Rússia) evitem o que chamou de “desastre”: a crise alimentícia global que, de acordo com cálculos do banco, pode levar à fome um contigente adicional de 100 milhões de pessoas. “Não temos o direito de falhar”, disse Zoellick em entrevista à margem do encontro de cúpula do G8, iniciado ontem em Hokkaido, no Japão. Segundo a FAO (órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação), há 854 milhões de pessoas subnutridas no mundo. Para o banco, as providências imediatas que precisam ser tomadas são o atendimento às necessidades urgentes dos países muito pobres, a ajuda a pequenos produtores e eliminação de restrições à exportação de alimentos em 26 países. Ban ki-moon, secretário-geral da ONU, disse que o alto preço dos alimentos faz retroceder o “relógio do desenvolvimento”. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs criar um grupo para obter um “diagnóstico preciso” da crise. (págs. 1 e B1)

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, cobrou ontem que os líderes do G8 (os sete países mais ricos do mundo e a Rússia) evitem o que chamou de "desastre", ou seja, "a crise alimentícia global" que cálculos do banco, com base em verificações de campo, demonstram que pode levar à fome um contingente adicional de 100 milhões de pessoas.
"É um teste para o sistema internacional. Não temos o direito de falhar", disse Zoellick, em entrevista coletiva à margem do encontro de cúpula do G8, ontem iniciado. Segundo os dados mais recentes da FAO (órgão da ONU para a agricultura e a alimentação), existem 854 milhões de pessoas subnutridas no mundo.
O presidente do Bird listou três providências imediatas que deveriam ser tomadas -e que, ao que tudo indica, constarão do documento final do encontro do G8:
1) Atender as necessidades mais urgentes dos países muito pobres, em especial na merenda escolar e no aleitamento materno;
2) Ajudar pequenos produtores com sementes e fertilizantes para que possam aumentar a produção;
3) Eliminar as restrições à exportação de alimentos impostas por 26 países e que "provocam uma ruptura no sistema internacional de alimentação". Aqui, entra em ponto sensível para o governo argentino, que impôs taxa adicional às exportações de soja, o que deu origem a um conflito prolongado com os produtores rurais, do qual resultou uma forte queda na popularidade da presidente Cristina Kirchner.
Retirar as restrições tem o apoio do presidente francês, Nicolas Sarkozy. "Notei, com interesse, que vários países, entre eles a Rússia, fizeram recentemente anúncios de que eliminariam limites às exportações de alimentos", disse Sarkozy.
O presidente francês também deixou implícito que o pacote delineado por Zoellick está na agenda do G8, ao afirmar que, após "a resposta urgente [às necessidades mais imediatas], o G8 deve também oferecer respostas a médio e longo prazo".
Mas, ao entrar no detalhe de uma das respostas, Sarkorzy demonstrou que os governantes não estão seguros sobre as causas que levaram à disparada de preços de alimentos. Propôs a criação de um grupo internacional de especialistas para "oferecer um diagnóstico preciso sobre as dificuldades alimentares e agrícolas e para emitir alertas sobre riscos de crises".
Seguiria o modelo do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), um vasto condomínio de especialistas que identificou os riscos do aquecimento global.
Enquanto não há clareza sobre a crise, o alerta é dado pelo secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, para quem os altos preços de alimentos "fizeram retroceder o relógio do desenvolvimento".
Ban Ki-moon afirmou também que não está havendo progresso para que sejam atingidas as "Metas do Milênio", conjunto de indicadores que o mundo deveria alcançar até 2015.
A falta de progresso é mais evidente na África, diz o dirigente da ONU, por ser a região mais atingida pela crise alimentar. Não por acaso, os líderes do G8 começaram sua cúpula deste ano com uma reunião com governantes de sete países africanos mais o presidente da Comissão Africana.
Todos reclamaram de que o G8 não cumpre as promessas que repetidamente faz à África. Há três anos, em cúpula na Escócia, os países ricos prometeram US$ 25 bilhões adicionais, dos quais apenas um quarto foi efetivamente desembolsado, conforme denúncia de organizações não-governamentais que trabalham no continente africano.

Emergentes vão continuar na "2ª divisão"

Na cúpula do G8 do ano que vem, o Brasil e seus pares do G5 (México, China, Índia e África do Sul) continuarão jogando na segunda divisão entre os grandes do mundo, participando apenas do último dia, quando o documento da reunião já está aprovado e divulgado.
É o que ficou claro ontem pelas declarações do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, exatamente o anfitrião da cúpula de 2009: "A maioria quer manter a fórmula atual, embora depois o G8 possa ter um encontro com China, Brasil, Índia, México e África do Sul".
Berlusconi disse que nem sequer chegou à mesa de discussões do clubão do mundo rico a hipótese de ampliá-lo, proposta feita em entrevista pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. O comentário do premiê italiano foi feito pouco depois de a Casa Branca rejeitar a proposta de Sarkozy. "Neste momento, não estamos dando atenção à questão do aumento de países que participam anualmente da cúpula", disse Gordon Johndroe, porta-voz do governo Bush.

CLÓVIS ROSSI
Folha de S. Paulo

Para instituição, crise dos alimentos pode levar à fome mais 100 milhões de pessoas

Robert Zoellick, presidente do Bird, defende socorro emergencial a nações mais pobres e fim de restrições às exportações de alimentos

O presidente do banco Mundial, Robert Zoellick, cobrou que os líderes do G8 (os sete países mais ricos do mundo mais a Rússia) evitem o que chamou de “desastre”: a crise alimentícia global que, de acordo com cálculos do banco, pode levar à fome um contigente adicional de 100 milhões de pessoas. “Não temos o direito de falhar”, disse Zoellick em entrevista à margem do encontro de cúpula do G8, iniciado ontem em Hokkaido, no Japão. Segundo a FAO (órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação), há 854 milhões de pessoas subnutridas no mundo. Para o banco, as providências imediatas que precisam ser tomadas são o atendimento às necessidades urgentes dos países muito pobres, a ajuda a pequenos produtores e eliminação de restrições à exportação de alimentos em 26 países. Ban ki-moon, secretário-geral da ONU, disse que o alto preço dos alimentos faz retroceder o “relógio do desenvolvimento”. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs criar um grupo para obter um “diagnóstico preciso” da crise. (págs. 1 e B1)

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, cobrou ontem que os líderes do G8 (os sete países mais ricos do mundo e a Rússia) evitem o que chamou de "desastre", ou seja, "a crise alimentícia global" que cálculos do banco, com base em verificações de campo, demonstram que pode levar à fome um contingente adicional de 100 milhões de pessoas.
"É um teste para o sistema internacional. Não temos o direito de falhar", disse Zoellick, em entrevista coletiva à margem do encontro de cúpula do G8, ontem iniciado. Segundo os dados mais recentes da FAO (órgão da ONU para a agricultura e a alimentação), existem 854 milhões de pessoas subnutridas no mundo.
O presidente do Bird listou três providências imediatas que deveriam ser tomadas -e que, ao que tudo indica, constarão do documento final do encontro do G8:
1) Atender as necessidades mais urgentes dos países muito pobres, em especial na merenda escolar e no aleitamento materno;
2) Ajudar pequenos produtores com sementes e fertilizantes para que possam aumentar a produção;
3) Eliminar as restrições à exportação de alimentos impostas por 26 países e que "provocam uma ruptura no sistema internacional de alimentação". Aqui, entra em ponto sensível para o governo argentino, que impôs taxa adicional às exportações de soja, o que deu origem a um conflito prolongado com os produtores rurais, do qual resultou uma forte queda na popularidade da presidente Cristina Kirchner.
Retirar as restrições tem o apoio do presidente francês, Nicolas Sarkozy. "Notei, com interesse, que vários países, entre eles a Rússia, fizeram recentemente anúncios de que eliminariam limites às exportações de alimentos", disse Sarkozy.
O presidente francês também deixou implícito que o pacote delineado por Zoellick está na agenda do G8, ao afirmar que, após "a resposta urgente [às necessidades mais imediatas], o G8 deve também oferecer respostas a médio e longo prazo".
Mas, ao entrar no detalhe de uma das respostas, Sarkorzy demonstrou que os governantes não estão seguros sobre as causas que levaram à disparada de preços de alimentos. Propôs a criação de um grupo internacional de especialistas para "oferecer um diagnóstico preciso sobre as dificuldades alimentares e agrícolas e para emitir alertas sobre riscos de crises".
Seguiria o modelo do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), um vasto condomínio de especialistas que identificou os riscos do aquecimento global.
Enquanto não há clareza sobre a crise, o alerta é dado pelo secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, para quem os altos preços de alimentos "fizeram retroceder o relógio do desenvolvimento".
Ban Ki-moon afirmou também que não está havendo progresso para que sejam atingidas as "Metas do Milênio", conjunto de indicadores que o mundo deveria alcançar até 2015.
A falta de progresso é mais evidente na África, diz o dirigente da ONU, por ser a região mais atingida pela crise alimentar. Não por acaso, os líderes do G8 começaram sua cúpula deste ano com uma reunião com governantes de sete países africanos mais o presidente da Comissão Africana.
Todos reclamaram de que o G8 não cumpre as promessas que repetidamente faz à África. Há três anos, em cúpula na Escócia, os países ricos prometeram US$ 25 bilhões adicionais, dos quais apenas um quarto foi efetivamente desembolsado, conforme denúncia de organizações não-governamentais que trabalham no continente africano.

Emergentes vão continuar na "2ª divisão"

Na cúpula do G8 do ano que vem, o Brasil e seus pares do G5 (México, China, Índia e África do Sul) continuarão jogando na segunda divisão entre os grandes do mundo, participando apenas do último dia, quando o documento da reunião já está aprovado e divulgado.
É o que ficou claro ontem pelas declarações do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, exatamente o anfitrião da cúpula de 2009: "A maioria quer manter a fórmula atual, embora depois o G8 possa ter um encontro com China, Brasil, Índia, México e África do Sul".
Berlusconi disse que nem sequer chegou à mesa de discussões do clubão do mundo rico a hipótese de ampliá-lo, proposta feita em entrevista pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. O comentário do premiê italiano foi feito pouco depois de a Casa Branca rejeitar a proposta de Sarkozy. "Neste momento, não estamos dando atenção à questão do aumento de países que participam anualmente da cúpula", disse Gordon Johndroe, porta-voz do governo Bush.