antigas Publicado: 12/09/2008 | 11:47

Real lidera perdas em setembro

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Valorização do dólar no mês já atinge 11,19%. Moeda americana fecha cotada a R$ 1,815, sem a intervenção do BC, que demostra, com isso, não aceitar cotação acima de R$ 1,80 para evitar inflação

 
O Banco Central suspendeu ontem as compras diárias de dólar. A medida foi uma forma de dizer ao mercado que não aceitará cotações superiores a R$ 1,80. A última vez que o BC tomou tal iniciativa foi logo depois do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, a crise do subprime, no dia 13 de agosto de 2007, quando a moeda americana foi cotada a R$ 1,991. O BC só voltou a comprar dólares quase dois meses depois, em 6 de outubro, quando as cotações começaram a ceder para menos de R$ 1,80. Em tempos de grande nervosismo, o BC tem por hábito sair do mercado. Foi assim entre maio e junho de 2006, quando o mercado internacional mergulhou num clima de histeria. Foram essas compras diárias, iniciadas em janeiro de 2004, que permitiram ao país acumular reservas internacionais de US$ 206 bilhões, um importante seguro em momentos de turbulência, como os atuais.

A saída do BC do mercado foi mais do que justa. Há uma pressão exagerada contra o real, sustentada por movimentos especulativos. Tanto que a moeda brasileira foi a que mais perdeu valor ante o dólar em setembro quando comparada às divisas de países emergentes. Somente ontem, a moeda americana subiu 1,68%, cotada a R$ 1,815 para venda. Desde o início do mês, o dólar acumula valorização de 11,19% (veja quadro). Depois do real, as moedas que mais se desvalorizaram foram as da Islândia (7,94%), da Romênia (7,56%) e da Polônia (5,96%). O real, explicou o economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu Filho, está pagando o preço de quase 70% da pauta das exportações brasileiras serem compostas por commodities, como soja, minérios e aço.

O raciocínio dos investidores é o seguinte: com as cotações das commodities despencando, as receitas do Brasil com exportação vão diminuir, o que, automaticamente, levará os preços do dólar para cima. Nos últimos três anos, foram as cotações recordes das commodities que ajudaram a promover uma enxurrada de recursos estrangeiros no país, supervalorizando o real. A sobra de recursos foi tamanha que, somente em 2007, o BC arrematou quase US$ 80 bilhões e o saldo da balança comercial superou os US$ 40 bilhões. “Agora, o quadro mudou. Com as commodities em baixa, o real tende a perder fôlego”, disse José Roberto Carrera, gerente da Área de Câmbio da Fair Corretora. Mas é importante lembrar que a moeda americana está recuperando terreno frente a quase todas as moedas. Em relação ao euro, por exemplo, computa ganho de 4,6% neste mês.

Impacto
A maior preocupação do BC ao não sancionar um dólar acima de R$ 1,80 é o impacto sobre a inflação, a qual vem tentando domar com juros cada vez mais altos. Nos modelos usados pelos técnicos da instituição para fazer projeções que ajudam a balizar as tomadas de decisões sobre juros, três pontos são considerados fundamentais para medir qual o tamanho do repasse da alta do dólar para os preços e, conseqüentemente, para a inflação. O primeiro é o que os economistas classificam como Produto Interno Bruto (PIB) potencial, isto é, a capacidade do país de crescer sem gerar inflação. Hoje, na avaliação da maior parte dos especialistas, a economia está crescendo acima de seu potencial, facilitando, portanto, uma rápida transferência de parcela da elevação do dólar para os preços.

O segundo ponto é a velocidade da valorização da moeda americana. Quanto mais rápida ela for, maior será o repasse para os preços. “Um ritmo muito forte de alta do dólar em relação ao real acelera o repasse de 0% para 9%”, disse Thadeu Filho, lembrando que, desde o final de julho e início de agosto, quando atingiu seu piso, próximo de R$ 1,50, o dólar já subiu 17%. O terceiro ponto de contágio da moeda para a inflação é a volatilidade (sobe-e-desce) das cotações. “Esse critério mostra um repasse de 80% quando a volatilidade é muito baixa e 7% quando a volatilidade é alta”, explicou. No caso atual, a tendência do dólar tem sido sempre para cima. “Mas ainda não dá para dizer que o mercado encontrou o câmbio de equilíbrio.”

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Valorização do dólar no mês já atinge 11,19%. Moeda americana fecha cotada a R$ 1,815, sem a intervenção do BC, que demostra, com isso, não aceitar cotação acima de R$ 1,80 para evitar inflação

 
O Banco Central suspendeu ontem as compras diárias de dólar. A medida foi uma forma de dizer ao mercado que não aceitará cotações superiores a R$ 1,80. A última vez que o BC tomou tal iniciativa foi logo depois do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, a crise do subprime, no dia 13 de agosto de 2007, quando a moeda americana foi cotada a R$ 1,991. O BC só voltou a comprar dólares quase dois meses depois, em 6 de outubro, quando as cotações começaram a ceder para menos de R$ 1,80. Em tempos de grande nervosismo, o BC tem por hábito sair do mercado. Foi assim entre maio e junho de 2006, quando o mercado internacional mergulhou num clima de histeria. Foram essas compras diárias, iniciadas em janeiro de 2004, que permitiram ao país acumular reservas internacionais de US$ 206 bilhões, um importante seguro em momentos de turbulência, como os atuais.

A saída do BC do mercado foi mais do que justa. Há uma pressão exagerada contra o real, sustentada por movimentos especulativos. Tanto que a moeda brasileira foi a que mais perdeu valor ante o dólar em setembro quando comparada às divisas de países emergentes. Somente ontem, a moeda americana subiu 1,68%, cotada a R$ 1,815 para venda. Desde o início do mês, o dólar acumula valorização de 11,19% (veja quadro). Depois do real, as moedas que mais se desvalorizaram foram as da Islândia (7,94%), da Romênia (7,56%) e da Polônia (5,96%). O real, explicou o economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu Filho, está pagando o preço de quase 70% da pauta das exportações brasileiras serem compostas por commodities, como soja, minérios e aço.

O raciocínio dos investidores é o seguinte: com as cotações das commodities despencando, as receitas do Brasil com exportação vão diminuir, o que, automaticamente, levará os preços do dólar para cima. Nos últimos três anos, foram as cotações recordes das commodities que ajudaram a promover uma enxurrada de recursos estrangeiros no país, supervalorizando o real. A sobra de recursos foi tamanha que, somente em 2007, o BC arrematou quase US$ 80 bilhões e o saldo da balança comercial superou os US$ 40 bilhões. “Agora, o quadro mudou. Com as commodities em baixa, o real tende a perder fôlego”, disse José Roberto Carrera, gerente da Área de Câmbio da Fair Corretora. Mas é importante lembrar que a moeda americana está recuperando terreno frente a quase todas as moedas. Em relação ao euro, por exemplo, computa ganho de 4,6% neste mês.

Impacto
A maior preocupação do BC ao não sancionar um dólar acima de R$ 1,80 é o impacto sobre a inflação, a qual vem tentando domar com juros cada vez mais altos. Nos modelos usados pelos técnicos da instituição para fazer projeções que ajudam a balizar as tomadas de decisões sobre juros, três pontos são considerados fundamentais para medir qual o tamanho do repasse da alta do dólar para os preços e, conseqüentemente, para a inflação. O primeiro é o que os economistas classificam como Produto Interno Bruto (PIB) potencial, isto é, a capacidade do país de crescer sem gerar inflação. Hoje, na avaliação da maior parte dos especialistas, a economia está crescendo acima de seu potencial, facilitando, portanto, uma rápida transferência de parcela da elevação do dólar para os preços.

O segundo ponto é a velocidade da valorização da moeda americana. Quanto mais rápida ela for, maior será o repasse para os preços. “Um ritmo muito forte de alta do dólar em relação ao real acelera o repasse de 0% para 9%”, disse Thadeu Filho, lembrando que, desde o final de julho e início de agosto, quando atingiu seu piso, próximo de R$ 1,50, o dólar já subiu 17%. O terceiro ponto de contágio da moeda para a inflação é a volatilidade (sobe-e-desce) das cotações. “Esse critério mostra um repasse de 80% quando a volatilidade é muito baixa e 7% quando a volatilidade é alta”, explicou. No caso atual, a tendência do dólar tem sido sempre para cima. “Mas ainda não dá para dizer que o mercado encontrou o câmbio de equilíbrio.”