antigas Publicado: 4/02/2009 | 10:50

Queda na produção industrial nunca foi tão grande

Indústria arrasada
Autor(es): Luciano Pires
Correio Braziliense - 04/02/2009
 
Produção recua 14,5% em dezembro em relação a igual mês de 2007. Na comparação com novembro, tombo foi de 12,4%. Dos 27 segmentos industriais pesquisados, apenas dois reagiram positivamente

A produção industrial brasileira foi à lona em dezembro de 2008. Como em outubro e novembro do ano passado, quase todos os segmentos amargaram perdas históricas, arrastando a atividade fabril de volta a patamares de 2004. Números divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em relação a dezembro de 2007, houve um recuo de 14,5% da atividade nas indústrias — encolhimento inédito desde 1991, ano em que o órgão deu início a esse tipo de pesquisa. Na passagem de novembro para dezembro, o tombo também foi dos grandes: -12,4%.

Diante de performance tão ruim no último trimestre do ano passado, a indústria encerrou 2008 com crescimento de 3,1%. Não fossem os efeitos colaterais provocados pelo agravamento da turbulência externa, como a falta e o encarecimento do crédito, analistas acreditam que o saldo poderia ter sido pelo menos o dobro. “O último mês de 2008 ficou marcado por férias coletivas e paralisações nas linhas. Os setores que mais perderam têm o crédito como mola propulsora”, explicou André Macedo, analista da pesquisa industrial mensal do IBGE.

Dos 27 ramos investigados, apenas dois conseguiram passar de novembro para dezembro no azul — celulose e papel (0,4%) e outros equipamentos de transporte (6,7%). A indústria de veículos automotores protagonizou a maior queda (-39,7%), seguida por máquinas e equipamentos (-19,2%), material eletrônico e equipamentos de comunicações (-48,8%), metalurgia básica (-18,3%), borracha e plástico (-20,1%), indústria extrativa (-11,8%) e outros produtos químicos (-9%). “Há um perfil de queda generalizada”, reforçou Macedo. Na comparação com dezembro de 2007, as perdas se acentuam ainda mais (veja quadro)

Com o setor industrial em frangalhos, dramas atuais como o avanço do desemprego e a queda no consumo tendem a se intensificar. Fábricas fracas, significam mais férias coletivas pela frente, demissões e demanda menor. No papel de bola da vez, o Produto Interno Bruto (PIB) do país sofre as consequências. Devido aos péssimos resultados dos últimos meses, é consenso entre os especialistas de que o governo dificilmente conseguirá sustentar a tese de que o país cresceu pelo menos 4% no ano passado. O principal motivo é que a indústria responde por nada menos do que 24% do total de serviços e riquezas produzidos no Brasil.

Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a gravidade da crise impôs um violento choque de realidade à economia nacional. “Tendo a presente crise afetado precisamente os setores automobilístico e bens de capital no Brasil e em todo mundo, era incontornável uma forte retração industrial no país”, justificou a entidade em estudo divulgado ontem. Ainda conforme o Iedi, o BC “não reagiu à altura” porque insistiu em manter “por tempo demasiadamente longo” a taxa básica de juros (Selic) elevada.

Paulo Francini, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), disse que ainda não é possível ver o fundo do poço. “Nem o mundo sabe. Há muita imprecisão nas avaliações”, afirmou. Francini prevê o aprofundamento de perdas e o contágio inevitável em outras cadeias, além da industrial. “Nesse momento o debate sobre se o país está ou não em recessão técnica nem é tão importante, porque a gente já está na chuva, já estamos sofrendo as consequências”, completou.


Consequências da crise

A queda na produção industrial se reflete em toda a economia do país

Demissões em alta
Diminuição do ritmo na produção requer menos mão-de-obra

Inflação baixa
Demanda e oferta mais enxutas reduzem pressão sobre os preços

Juros em queda
Taxa Selic deve manter trajetória de queda para estimular a economia

Consumo fraco
Cenário de desconfiança atinge as famílias, que passam a consumir menos

Crédito travado
Sem perspectiva de melhora, financiamento continuará caro e escasso

Demanda externa
Recessão em países ricos paralisa o comércio internacional

Balança comercial
Ritmo menor nas fábricas reduzirá exportações brasileiras, minando a entrada de dólares no país e aumentando a tendência de desequilíbrio nas contas externas

Encomendas reduzidas
Nível de compra de matérias-primas cai à medida que a indústria recua

Flexibilização das leis
Ganha força o debate sobre mudanças no marco legal trabalhista
 

Expansão interrompida

O ano passado pode ser dividido em dois — um ótimo e outro extremamente negativo — quando os desempenhos da indústria são analisados trimestralmente. Nos três primeiros trimestres a expansão se manteve firme na casa dos 6% (6,4% no primeiro, 6,2% no segundo e 6,7% no terceiro). No último trimestre de 2008, no entanto, a indústria desgarrou e interrompeu uma sequência invejável de 20 trimestres de expansão, recuando 6,2%, conforme o IBGE, comparado a igual período de 2007.

A queda foi a maior desde 1996 e comprova em números que as mudanças de cenário ocorridas a partir de setembro tiveram reflexos imediatos sobre a atividade nas fábricas. No período entre outubro e dezembro, a produção de bens de consumo duráveis, por exemplo, contabilizou uma perda de -19,5%. Bens intermediários (-9,2%) e bens de consumo semi e não duráveis (-1,2%) também acumulam maus resultados.

Indústria arrasada
Autor(es): Luciano Pires
Correio Braziliense - 04/02/2009
 
Produção recua 14,5% em dezembro em relação a igual mês de 2007. Na comparação com novembro, tombo foi de 12,4%. Dos 27 segmentos industriais pesquisados, apenas dois reagiram positivamente

A produção industrial brasileira foi à lona em dezembro de 2008. Como em outubro e novembro do ano passado, quase todos os segmentos amargaram perdas históricas, arrastando a atividade fabril de volta a patamares de 2004. Números divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em relação a dezembro de 2007, houve um recuo de 14,5% da atividade nas indústrias — encolhimento inédito desde 1991, ano em que o órgão deu início a esse tipo de pesquisa. Na passagem de novembro para dezembro, o tombo também foi dos grandes: -12,4%.

Diante de performance tão ruim no último trimestre do ano passado, a indústria encerrou 2008 com crescimento de 3,1%. Não fossem os efeitos colaterais provocados pelo agravamento da turbulência externa, como a falta e o encarecimento do crédito, analistas acreditam que o saldo poderia ter sido pelo menos o dobro. “O último mês de 2008 ficou marcado por férias coletivas e paralisações nas linhas. Os setores que mais perderam têm o crédito como mola propulsora”, explicou André Macedo, analista da pesquisa industrial mensal do IBGE.

Dos 27 ramos investigados, apenas dois conseguiram passar de novembro para dezembro no azul — celulose e papel (0,4%) e outros equipamentos de transporte (6,7%). A indústria de veículos automotores protagonizou a maior queda (-39,7%), seguida por máquinas e equipamentos (-19,2%), material eletrônico e equipamentos de comunicações (-48,8%), metalurgia básica (-18,3%), borracha e plástico (-20,1%), indústria extrativa (-11,8%) e outros produtos químicos (-9%). “Há um perfil de queda generalizada”, reforçou Macedo. Na comparação com dezembro de 2007, as perdas se acentuam ainda mais (veja quadro)

Com o setor industrial em frangalhos, dramas atuais como o avanço do desemprego e a queda no consumo tendem a se intensificar. Fábricas fracas, significam mais férias coletivas pela frente, demissões e demanda menor. No papel de bola da vez, o Produto Interno Bruto (PIB) do país sofre as consequências. Devido aos péssimos resultados dos últimos meses, é consenso entre os especialistas de que o governo dificilmente conseguirá sustentar a tese de que o país cresceu pelo menos 4% no ano passado. O principal motivo é que a indústria responde por nada menos do que 24% do total de serviços e riquezas produzidos no Brasil.

Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a gravidade da crise impôs um violento choque de realidade à economia nacional. “Tendo a presente crise afetado precisamente os setores automobilístico e bens de capital no Brasil e em todo mundo, era incontornável uma forte retração industrial no país”, justificou a entidade em estudo divulgado ontem. Ainda conforme o Iedi, o BC “não reagiu à altura” porque insistiu em manter “por tempo demasiadamente longo” a taxa básica de juros (Selic) elevada.

Paulo Francini, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), disse que ainda não é possível ver o fundo do poço. “Nem o mundo sabe. Há muita imprecisão nas avaliações”, afirmou. Francini prevê o aprofundamento de perdas e o contágio inevitável em outras cadeias, além da industrial. “Nesse momento o debate sobre se o país está ou não em recessão técnica nem é tão importante, porque a gente já está na chuva, já estamos sofrendo as consequências”, completou.


Consequências da crise

A queda na produção industrial se reflete em toda a economia do país

Demissões em alta
Diminuição do ritmo na produção requer menos mão-de-obra

Inflação baixa
Demanda e oferta mais enxutas reduzem pressão sobre os preços

Juros em queda
Taxa Selic deve manter trajetória de queda para estimular a economia

Consumo fraco
Cenário de desconfiança atinge as famílias, que passam a consumir menos

Crédito travado
Sem perspectiva de melhora, financiamento continuará caro e escasso

Demanda externa
Recessão em países ricos paralisa o comércio internacional

Balança comercial
Ritmo menor nas fábricas reduzirá exportações brasileiras, minando a entrada de dólares no país e aumentando a tendência de desequilíbrio nas contas externas

Encomendas reduzidas
Nível de compra de matérias-primas cai à medida que a indústria recua

Flexibilização das leis
Ganha força o debate sobre mudanças no marco legal trabalhista
 

Expansão interrompida

O ano passado pode ser dividido em dois — um ótimo e outro extremamente negativo — quando os desempenhos da indústria são analisados trimestralmente. Nos três primeiros trimestres a expansão se manteve firme na casa dos 6% (6,4% no primeiro, 6,2% no segundo e 6,7% no terceiro). No último trimestre de 2008, no entanto, a indústria desgarrou e interrompeu uma sequência invejável de 20 trimestres de expansão, recuando 6,2%, conforme o IBGE, comparado a igual período de 2007.

A queda foi a maior desde 1996 e comprova em números que as mudanças de cenário ocorridas a partir de setembro tiveram reflexos imediatos sobre a atividade nas fábricas. No período entre outubro e dezembro, a produção de bens de consumo duráveis, por exemplo, contabilizou uma perda de -19,5%. Bens intermediários (-9,2%) e bens de consumo semi e não duráveis (-1,2%) também acumulam maus resultados.