antigas Publicado: 24/03/2009 | 10:11

A crise e o aumento da importância do Brasil

 

A chamada Grande Depressão é o melhor exemplo - e, por sorte, quase o único - da natureza catastrófica de uma espiral depressiva. Durante quatro anos, as autoridades norte-americanas assistiram impotentes à queda do Produto Interno Bruto (PIB) e ao aumento do desemprego.

Os efeitos da Grande Depressão deixaram marcas em toda uma geração. Na Europa, puseram em risco a sobrevivência da economia de mercado. Estudos posteriores mostraram que a gravidade da depressão foi resultado, em parte, de uma política econômica equivocada: as autoridades não quiseram desviar-se de uma ortodoxia que se aplicava mal às circunstâncias.

Por dois motivos. Considerando o grande desastre que foi a depressão e reconhecendo que uma política mais acertada poderia ter suavizado seus efeitos, as autoridades dos países industrializados estão dirigindo seus esforços a evitar que a recessão passe à depressão. Como será possível conseguir esse resultado?

Para fazer com que a máquina comece a girar no sentido contrário, o primeiro objetivo da política econômica é tornar possível o retorno do mercado interbancário à normalidade. Isso é tarefa, em primeiro lugar, da política monetária, que já vem facilitando liquidez aos bancos.

Em segundo lugar, os governos têm buscado, em duas fases, a normalização do mercado, oferecendo, primeiro, garantias para que as entidades bancárias recuperem seus empréstimos. Em segundo lugar, fornecendo capital às entidades bancárias. Talvez, se não houver outro remédio, isso pode ser feito em troca de ações, ou seja, transformando-se o governo, mesmo temporariamente, em acionista.

Como a incerteza no mercado interbancário durou muito tempo, a economia real já se ressente e a demanda privada se reduziu mais que o esperado.

O segundo objetivo da política econômica deverá ser o de reanimá-la por meio de políticas fiscais, como redução de impostos em alguns casos - nos setores de renda mais baixa, que deverão consumir as bonificações - e aumento de gastos em outros casos, por exemplo, em obras públicas. As políticas relativas ao emprego são especialmente importantes nessas circunstâncias.

Em alguns casos, como o da Espanha, não seria realista tentar limitar a destruição de empregos. Nos últimos anos, um de cada três novos postos de trabalho na Zona do Euro foi criado na Espanha. É evidente que não se trata de um nível sustentável.

Seria bom, assim, reorientar as políticas ativas de emprego, condicionando o recebimento de subvenções à realização de cursos destinados a recolocar os afastados em uma nova conjuntura, não necessariamente em suas antigas profissões.

Não é possível demonstrar que uma combinação dessas medidas conseguirá deter uma espiral descendente, embora isso seja o mais provável. Mas não há dúvida de que, durante algum tempo, a situação estará vulnerável a qualquer perturbação.

Tudo indica que o mercado interbancário voltará a se normalizar dentro de algum tempo, embora em um prazo mais longo do que se imaginava no início da crise. Quando isso ocorrer, estaremos em um mundo com grande risco de inflação, pois os bancos centrais continuarão por mais algum tempo injetando liquidez no sistema, e com grandes déficits públicos, pois os governos estão se endividando para sustentar uma política fiscal de expansão.

É possível que venhamos a ver outras mudanças. Por exemplo, os países adotarão normas para regular o comportamento do setor financeiro, incluindo novas exigências com relação a capital, operações e normas contábeis.

Se os países não chegarem a um acordo sobre a adoção de pautas comuns, é provável que surjam limites à liberdade do movimento de capitais, para evitar que os recursos tomem o rumo de mercados mais permissivos.

É possível, embora não desejável, que, se a recessão se prolongar, alguns países tentem proteger suas economias isolando-as do exterior. Mas é claro que uma crise deste tamanho mudará muitas coisas, algumas das quais nem suspeitamos por enquanto.

Quando essa crise terminar, a divisão dos papéis no cenário mundial terá variado. A supremacia isolada dos Estados Unidos, não discutida durante meio século, terá dado lugar a um quarteto, talvez um quinteto: China, Brasil, Rússia e talvez a Índia terão subido ao palco.

A Europa continuará a fazer barulho nos bastidores, até o ponto de descer à plateia para unir-se ao resto do público.

 
 
 

 

A chamada Grande Depressão é o melhor exemplo - e, por sorte, quase o único - da natureza catastrófica de uma espiral depressiva. Durante quatro anos, as autoridades norte-americanas assistiram impotentes à queda do Produto Interno Bruto (PIB) e ao aumento do desemprego.

Os efeitos da Grande Depressão deixaram marcas em toda uma geração. Na Europa, puseram em risco a sobrevivência da economia de mercado. Estudos posteriores mostraram que a gravidade da depressão foi resultado, em parte, de uma política econômica equivocada: as autoridades não quiseram desviar-se de uma ortodoxia que se aplicava mal às circunstâncias.

Por dois motivos. Considerando o grande desastre que foi a depressão e reconhecendo que uma política mais acertada poderia ter suavizado seus efeitos, as autoridades dos países industrializados estão dirigindo seus esforços a evitar que a recessão passe à depressão. Como será possível conseguir esse resultado?

Para fazer com que a máquina comece a girar no sentido contrário, o primeiro objetivo da política econômica é tornar possível o retorno do mercado interbancário à normalidade. Isso é tarefa, em primeiro lugar, da política monetária, que já vem facilitando liquidez aos bancos.

Em segundo lugar, os governos têm buscado, em duas fases, a normalização do mercado, oferecendo, primeiro, garantias para que as entidades bancárias recuperem seus empréstimos. Em segundo lugar, fornecendo capital às entidades bancárias. Talvez, se não houver outro remédio, isso pode ser feito em troca de ações, ou seja, transformando-se o governo, mesmo temporariamente, em acionista.

Como a incerteza no mercado interbancário durou muito tempo, a economia real já se ressente e a demanda privada se reduziu mais que o esperado.

O segundo objetivo da política econômica deverá ser o de reanimá-la por meio de políticas fiscais, como redução de impostos em alguns casos - nos setores de renda mais baixa, que deverão consumir as bonificações - e aumento de gastos em outros casos, por exemplo, em obras públicas. As políticas relativas ao emprego são especialmente importantes nessas circunstâncias.

Em alguns casos, como o da Espanha, não seria realista tentar limitar a destruição de empregos. Nos últimos anos, um de cada três novos postos de trabalho na Zona do Euro foi criado na Espanha. É evidente que não se trata de um nível sustentável.

Seria bom, assim, reorientar as políticas ativas de emprego, condicionando o recebimento de subvenções à realização de cursos destinados a recolocar os afastados em uma nova conjuntura, não necessariamente em suas antigas profissões.

Não é possível demonstrar que uma combinação dessas medidas conseguirá deter uma espiral descendente, embora isso seja o mais provável. Mas não há dúvida de que, durante algum tempo, a situação estará vulnerável a qualquer perturbação.

Tudo indica que o mercado interbancário voltará a se normalizar dentro de algum tempo, embora em um prazo mais longo do que se imaginava no início da crise. Quando isso ocorrer, estaremos em um mundo com grande risco de inflação, pois os bancos centrais continuarão por mais algum tempo injetando liquidez no sistema, e com grandes déficits públicos, pois os governos estão se endividando para sustentar uma política fiscal de expansão.

É possível que venhamos a ver outras mudanças. Por exemplo, os países adotarão normas para regular o comportamento do setor financeiro, incluindo novas exigências com relação a capital, operações e normas contábeis.

Se os países não chegarem a um acordo sobre a adoção de pautas comuns, é provável que surjam limites à liberdade do movimento de capitais, para evitar que os recursos tomem o rumo de mercados mais permissivos.

É possível, embora não desejável, que, se a recessão se prolongar, alguns países tentem proteger suas economias isolando-as do exterior. Mas é claro que uma crise deste tamanho mudará muitas coisas, algumas das quais nem suspeitamos por enquanto.

Quando essa crise terminar, a divisão dos papéis no cenário mundial terá variado. A supremacia isolada dos Estados Unidos, não discutida durante meio século, terá dado lugar a um quarteto, talvez um quinteto: China, Brasil, Rússia e talvez a Índia terão subido ao palco.

A Europa continuará a fazer barulho nos bastidores, até o ponto de descer à plateia para unir-se ao resto do público.