antigas Publicado: 24/03/2009 | 10:17

Cientista escocês tenta fabricar sangue sintético

 Especialista quer criar fonte inesgotável de glóbulos vermelhos a partir de células-tronco embrionárias. Transfusões podem começar em 2013


“O paciente X precisa com urgência de sangue tipo AB negativo.” Daqui a alguns anos, a esperança é de que esse pedido não promova uma busca desesperada por doadores nem signifique praticamente uma sentença de morte. Um cientista escocês anunciou ontem que usará embriões descartados em tratamentos de fertilização in vitro para fabricar sangue. A ideia de Marc Turner, diretor do Serviço Nacional de Transfusão de Sangue da Escócia, é produzir uma quantidade inesgotável do fluido vital — composto de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma, água, proteínas e outras substâncias — a partir das células-tronco embrionárias. O chamado sangue sintético seria do tipo O negativo, considerado doador universal, e estaria livre dos vírus HIV (causador da Aids) e da hepatite. 

Uma proposta tão sedutora para a medicina que a organização não-governamental britânica The Wellcome Trust já se comprometeu a doar 3 milhões de libras (cerca de R$ 9,8 milhões) para ver os resultados. Se a ciência aposta as fichas e dinheiro na mente visionária de Turner, os bioéticos não economizam críticas. Em entrevista ao Correio, por telefone, Turner enumerou os prováveis benefícios de sua pesquisa. “Muitos países sofrem com a falta de estoque nos hemocentros e não têm infraestrutura para mantê-lo com com segurança. Além da incompatibilidade entre doador e paciente, existe o risco de transmissão de infecções por meio da transfusão sanguínea”, afirmou. “A longo prazo, a cultura de glóbulos vermelhos pode resolver essas questões e garantir o suprimento”, acrescentou. 

Apesar de as células-tronco embrionárias estarem no cerne da polêmica envolvendo a ética, o pesquisador lembra que essas estruturas têm a habilidade de se diferenciar em vários tipos de células e tecidos. Nos últimos quatro anos, Turner e seus colegas buscaram ter a certeza de que as células-tronco embrionárias seriam transformadas em glóbulos vermelhos. “Sabemos que as células-tronco têm a capacidade de se reproduzirem de modo indefinido. Por isso, acredito que possamos fabricar um grande número de células-tronco hematopoiéticas e também de glóbulos vermelhos”, comentou o especialista. 

A transição para a aplicação clínica deve durar três anos. Tempo suficiente para que Turner se certifique da qualidade e da segurança dos glóbulos vermelhos “artificiais”. “Até 2012, será possível determinar a sobrevivência dos glóbulos vermelhos em nossos voluntários”, explicou o pioneiro. Se os eritrócitos funcionarem, Turner e sua equipe passarão para a segunda fase da pesquisa: as transfusões sanguíneas em humanos. “Acreditamos que possamos começar os testes clínicos por volta de 2013 ou 2014. Suponho que em 10 anos obteremos a total prática clínica”, comentou o idealizador do sangue sintético, referindo-se à disseminação do “produto” pelos hemocentros e hospitais do mundo. 

Em média, um adulto possui entre quatro e seis litros de sangue no corpo. Antes de 1901, quando o austríaco Karl Landsteiner (1868-1943) descobriu os tipos sanguíneos, as transfusões quase sempre acabavam em morte. Foi ele quem concluiu que o os anticorpos acionados para “combater” o sangue do doador poderiam aglutinar os glóbulos vermelhos, matando o paciente. Turner admite que o uso de linhagens de células-tronco com fator sanguíneo O negativo seria mais “rentável”. “A longo prazo, isso permitiria com que de 90% a 95% dos pacientes possam ser tratados com nossos tipos específicos de glóbulos vermelhos”, avaliou. 

Choque 
A bioética britânica Josephine Quintavalle, diretora da ONG Comment on Reproductive Ethics (Core), avisa: “Nunca aceitaremos que curas permitam destruir embriões”. Por e-mail, a ativista considerou “chocante” que a ciência faça anúncios exagerados sobre pesquisas incipientes. “Turner devia se envergonhar. Quando questionado, ele mesmo sugere que, se funcionar, a técnica levará 10 anos antes de se transformar em tratamento.” Ela faz questão de frisar que existem meios “mais rápidos, mais fáceis, mais eficientes e éticos” de se produzir sangue. Turner garante que os embriões usados seriam jogados no lixo. 


 Especialista quer criar fonte inesgotável de glóbulos vermelhos a partir de células-tronco embrionárias. Transfusões podem começar em 2013


“O paciente X precisa com urgência de sangue tipo AB negativo.” Daqui a alguns anos, a esperança é de que esse pedido não promova uma busca desesperada por doadores nem signifique praticamente uma sentença de morte. Um cientista escocês anunciou ontem que usará embriões descartados em tratamentos de fertilização in vitro para fabricar sangue. A ideia de Marc Turner, diretor do Serviço Nacional de Transfusão de Sangue da Escócia, é produzir uma quantidade inesgotável do fluido vital — composto de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma, água, proteínas e outras substâncias — a partir das células-tronco embrionárias. O chamado sangue sintético seria do tipo O negativo, considerado doador universal, e estaria livre dos vírus HIV (causador da Aids) e da hepatite. 

Uma proposta tão sedutora para a medicina que a organização não-governamental britânica The Wellcome Trust já se comprometeu a doar 3 milhões de libras (cerca de R$ 9,8 milhões) para ver os resultados. Se a ciência aposta as fichas e dinheiro na mente visionária de Turner, os bioéticos não economizam críticas. Em entrevista ao Correio, por telefone, Turner enumerou os prováveis benefícios de sua pesquisa. “Muitos países sofrem com a falta de estoque nos hemocentros e não têm infraestrutura para mantê-lo com com segurança. Além da incompatibilidade entre doador e paciente, existe o risco de transmissão de infecções por meio da transfusão sanguínea”, afirmou. “A longo prazo, a cultura de glóbulos vermelhos pode resolver essas questões e garantir o suprimento”, acrescentou. 

Apesar de as células-tronco embrionárias estarem no cerne da polêmica envolvendo a ética, o pesquisador lembra que essas estruturas têm a habilidade de se diferenciar em vários tipos de células e tecidos. Nos últimos quatro anos, Turner e seus colegas buscaram ter a certeza de que as células-tronco embrionárias seriam transformadas em glóbulos vermelhos. “Sabemos que as células-tronco têm a capacidade de se reproduzirem de modo indefinido. Por isso, acredito que possamos fabricar um grande número de células-tronco hematopoiéticas e também de glóbulos vermelhos”, comentou o especialista. 

A transição para a aplicação clínica deve durar três anos. Tempo suficiente para que Turner se certifique da qualidade e da segurança dos glóbulos vermelhos “artificiais”. “Até 2012, será possível determinar a sobrevivência dos glóbulos vermelhos em nossos voluntários”, explicou o pioneiro. Se os eritrócitos funcionarem, Turner e sua equipe passarão para a segunda fase da pesquisa: as transfusões sanguíneas em humanos. “Acreditamos que possamos começar os testes clínicos por volta de 2013 ou 2014. Suponho que em 10 anos obteremos a total prática clínica”, comentou o idealizador do sangue sintético, referindo-se à disseminação do “produto” pelos hemocentros e hospitais do mundo. 

Em média, um adulto possui entre quatro e seis litros de sangue no corpo. Antes de 1901, quando o austríaco Karl Landsteiner (1868-1943) descobriu os tipos sanguíneos, as transfusões quase sempre acabavam em morte. Foi ele quem concluiu que o os anticorpos acionados para “combater” o sangue do doador poderiam aglutinar os glóbulos vermelhos, matando o paciente. Turner admite que o uso de linhagens de células-tronco com fator sanguíneo O negativo seria mais “rentável”. “A longo prazo, isso permitiria com que de 90% a 95% dos pacientes possam ser tratados com nossos tipos específicos de glóbulos vermelhos”, avaliou. 

Choque 
A bioética britânica Josephine Quintavalle, diretora da ONG Comment on Reproductive Ethics (Core), avisa: “Nunca aceitaremos que curas permitam destruir embriões”. Por e-mail, a ativista considerou “chocante” que a ciência faça anúncios exagerados sobre pesquisas incipientes. “Turner devia se envergonhar. Quando questionado, ele mesmo sugere que, se funcionar, a técnica levará 10 anos antes de se transformar em tratamento.” Ela faz questão de frisar que existem meios “mais rápidos, mais fáceis, mais eficientes e éticos” de se produzir sangue. Turner garante que os embriões usados seriam jogados no lixo.