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Publicado: 31/03/2009 | 10:35
Bolsas apontam caminho da recuperação
AS AUTORIDADES econômicas mundiais enfrentam seu mais sério desafio desde os anos 1930. Há considerável medo no mercado de que o conjunto sem precedentes de programas de estímulo e esforços de recapitalização de bancos com créditos soberanos fracasse. Por isso, seria útil contemplar alternativas a esse incômodo desfecho.
Nos últimos dois séculos, o capitalismo mundial enfrentou crises semelhantes e, até agora, sempre se recuperou e conseguiu promover níveis ainda mais elevados de prosperidade. Que forma teria o mundo atual se, em lugar dos vastos esforços dos governos para conter a chegada da crise tivéssemos permitido que mecanismos de mercado e estabilizadores automáticos, hoje integrados à maioria de nossas economias, funcionassem sem ajuda adicional? Cenários hipotéticos são altamente problemáticos, para dizer o mínimo. Mas há possibilidades intrigantes que nos dão a esperança de que, caso tudo mais fracasse, a economia mundial ainda assim não estaria condenada a anos de estagnação, ou pior. ALAN GREENSPAN foi presidente do Federal Reserve (BC dos EUA) de 1987 a 2006
Num cenário digno de credibilidade, atrás da perda sem precedentes de patrimônio dos últimos 18 meses estão as sementes da recuperação. Os mercados de ações de todo o mundo têm de estar perto de uma virada. Mesmo que a recuperação seja bastante modesta, como suspeito, a reversão pode ter grandes, e positivas, consequências econômicas.
Por alguns meses, antes das perturbações de agosto de 2007, a crise foi só financeira. Os balanços e fluxos de caixa do setor não financeiro estavam em forma. Mas o contágio da crise nas finanças começou a se espalhar no final de 2007. Os preços mundiais das ações atingiram um pico em outubro e começaram progressivamente a cair por quase um ano, até a crise do Lehman Brothers [15 de setembro de 2008]. Os prejuízos mundiais com ações negociadas em bolsa até ali eram de US$ 16 trilhões. E mais que dobraram nas dez semanas após a quebra do Lehman, levando o prejuízo mundial cumulativo a quase US$ 35 trilhões, um declínio de mais de 50% no valor do mercado mundial de ações, na prática uma duplicação no nível de alavancagem das empresas. Se acrescermos a isso os trilhões perdidos nos valores de casas e os prejuízos de empresas fechadas, a perda total de capital pode exceder consideravelmente os US$ 40 trilhões, o que equivale a espantosos dois terços do PIB mundial em 2008.
O prejuízo combinado tem importância crítica no desmonte do sistema financeiro, porque o capital acionário serve como sustentação fundamental a todas as dívidas empresariais e hipotecárias, e seus derivativos. Esses ativos são a caução que movimenta a intermediação mundial, o que direciona a poupança de um país aos investimentos produtivos.
Uma alta nos preços das ações tenderá a elevar o patrimônio líquido (em valores de mercado) de virtualmente todas as empresas. Num mercado em alta, a vasta maioria das ações sobe. Capital recém-criado tende a ser redistribuído da maneira mais proveitosa entre os setores mundiais. No ambiente atual, capital acionário novo abriria mercados congelados e daria fundos às empresas em geral e aos bancos, em particular. Maior capital acionário, depois de resolvido o problema da escassez de patrimônio líquido nos bancos, sustentaria mais empréstimos bancários, reforçaria o valor de mercado das cauções e poderia reativar os moribundos mercados de dívidas. Em resumo, a liquidez ressurgiria e os temores quanto à solvência recuariam. A restauração dos empréstimos seria um estímulo tão efetivo quanto qualquer programa fiscal que eu conheça.
Os ganhos de capital generalizados elevarão o capital acionário nos balanços, mas, ainda que elevem a liquidez e reduzam a insolvência, não geram, por si só, aumento na atividade econômica. Mas o faria o fato de que títulos de propriedade de empresas representam, na verdade, poder aquisitivo.
Com frequência demasiada, consideramos as flutuações nos preços das ações em termos de lucros e prejuízos nominais, que de alguma maneira não estariam conectados ao mundo real. Mas a evaporação de valor desses "direitos nominais" nos últimos 18 meses teve efeito profundamente deflacionário sobre a atividade econômica mundial. Os fracassos da intermediação refrearam muitas economias ao longo das décadas, mais conspicuamente a do Japão nos anos 90. O efeito patrimônio sobre gastos pessoais e domiciliares foi documentado, mas os preços das ações têm também impacto significativo e estatisticamente elevado sobre o capital privado de investimento. Essas análises sugerem que boa parte do recente declínio na atividade mundial pode estar associado direta ou indiretamente a uma queda nos valores das ações.
Os preços das ações são governados, ao longo da maior parte do ciclo de negócios, pelas expectativas de lucros e pela atividade econômica. Mas eles parecem se tornar cada vez mais independentes dessa atividade nos pontos de inflexão. É isso que os torna um indicador antecipatório, para a maioria dos analistas de ciclos.
A substituição do crédito soberano pelo crédito privado ajudou a evitar alguns dos extremos da crise da solvência. Mas, ao avaliarmos este período, suspeito que a força que será vista como mais importante para a recuperação mundial terá sido uma reversão parcial do prejuízo de US$ 35 trilhões no valor das ações. Uma recuperação nas ações, propelida em larga medida pelo recuo da recessão, pode ser um ponto seminal de inflexão na crise.
A questão crucial é determinar quando. Certamente, com base em quaisquer indicadores históricos, os valores das ações estão baixos. Mas a história ensina que podem, ou não, cair ainda mais antes que retornem de maneira mais decisiva a níveis mais normais. O que é inegável é que os preços das ações hoje estão sendo deprimidos por um grau de medo que não se via desde o começo do século 20 (1907 e 1932 são duas datas que me ocorrem). Mas a história nos ensina que há um limite para a duração e a intensidade da paralisia que o medo causa.
É o declínio da produção, do emprego e dos mercados que gera boa parte da incerteza que alimenta o medo. O ritmo atual de deterioração deve se desacelerar, e com isso deve vir uma redução no nível de medo. À medida que o medo se reduzir, as ações subirão. Mesmo que recuperemos só metade das perdas globais de US$ 35 trilhões em capital acionário, a quantidade de valor acionário criada recentemente e as dívidas adicionais que ele poderá sustentar serão fontes importante de financiamento para os bancos. Como quase todo mundo está começando a reconhecer, restaurar um grau viável de intermediação financeira é essencial para a recuperação. Não fazê-lo reduziria significativamente qualquer impacto positivo de um estímulo fiscal.
AS AUTORIDADES econômicas mundiais enfrentam seu mais sério desafio desde os anos 1930. Há considerável medo no mercado de que o conjunto sem precedentes de programas de estímulo e esforços de recapitalização de bancos com créditos soberanos fracasse. Por isso, seria útil contemplar alternativas a esse incômodo desfecho.
Nos últimos dois séculos, o capitalismo mundial enfrentou crises semelhantes e, até agora, sempre se recuperou e conseguiu promover níveis ainda mais elevados de prosperidade. Que forma teria o mundo atual se, em lugar dos vastos esforços dos governos para conter a chegada da crise tivéssemos permitido que mecanismos de mercado e estabilizadores automáticos, hoje integrados à maioria de nossas economias, funcionassem sem ajuda adicional? Cenários hipotéticos são altamente problemáticos, para dizer o mínimo. Mas há possibilidades intrigantes que nos dão a esperança de que, caso tudo mais fracasse, a economia mundial ainda assim não estaria condenada a anos de estagnação, ou pior. ALAN GREENSPAN foi presidente do Federal Reserve (BC dos EUA) de 1987 a 2006
Num cenário digno de credibilidade, atrás da perda sem precedentes de patrimônio dos últimos 18 meses estão as sementes da recuperação. Os mercados de ações de todo o mundo têm de estar perto de uma virada. Mesmo que a recuperação seja bastante modesta, como suspeito, a reversão pode ter grandes, e positivas, consequências econômicas.
Por alguns meses, antes das perturbações de agosto de 2007, a crise foi só financeira. Os balanços e fluxos de caixa do setor não financeiro estavam em forma. Mas o contágio da crise nas finanças começou a se espalhar no final de 2007. Os preços mundiais das ações atingiram um pico em outubro e começaram progressivamente a cair por quase um ano, até a crise do Lehman Brothers [15 de setembro de 2008]. Os prejuízos mundiais com ações negociadas em bolsa até ali eram de US$ 16 trilhões. E mais que dobraram nas dez semanas após a quebra do Lehman, levando o prejuízo mundial cumulativo a quase US$ 35 trilhões, um declínio de mais de 50% no valor do mercado mundial de ações, na prática uma duplicação no nível de alavancagem das empresas. Se acrescermos a isso os trilhões perdidos nos valores de casas e os prejuízos de empresas fechadas, a perda total de capital pode exceder consideravelmente os US$ 40 trilhões, o que equivale a espantosos dois terços do PIB mundial em 2008.
O prejuízo combinado tem importância crítica no desmonte do sistema financeiro, porque o capital acionário serve como sustentação fundamental a todas as dívidas empresariais e hipotecárias, e seus derivativos. Esses ativos são a caução que movimenta a intermediação mundial, o que direciona a poupança de um país aos investimentos produtivos.
Uma alta nos preços das ações tenderá a elevar o patrimônio líquido (em valores de mercado) de virtualmente todas as empresas. Num mercado em alta, a vasta maioria das ações sobe. Capital recém-criado tende a ser redistribuído da maneira mais proveitosa entre os setores mundiais. No ambiente atual, capital acionário novo abriria mercados congelados e daria fundos às empresas em geral e aos bancos, em particular. Maior capital acionário, depois de resolvido o problema da escassez de patrimônio líquido nos bancos, sustentaria mais empréstimos bancários, reforçaria o valor de mercado das cauções e poderia reativar os moribundos mercados de dívidas. Em resumo, a liquidez ressurgiria e os temores quanto à solvência recuariam. A restauração dos empréstimos seria um estímulo tão efetivo quanto qualquer programa fiscal que eu conheça.
Os ganhos de capital generalizados elevarão o capital acionário nos balanços, mas, ainda que elevem a liquidez e reduzam a insolvência, não geram, por si só, aumento na atividade econômica. Mas o faria o fato de que títulos de propriedade de empresas representam, na verdade, poder aquisitivo.
Com frequência demasiada, consideramos as flutuações nos preços das ações em termos de lucros e prejuízos nominais, que de alguma maneira não estariam conectados ao mundo real. Mas a evaporação de valor desses "direitos nominais" nos últimos 18 meses teve efeito profundamente deflacionário sobre a atividade econômica mundial. Os fracassos da intermediação refrearam muitas economias ao longo das décadas, mais conspicuamente a do Japão nos anos 90. O efeito patrimônio sobre gastos pessoais e domiciliares foi documentado, mas os preços das ações têm também impacto significativo e estatisticamente elevado sobre o capital privado de investimento. Essas análises sugerem que boa parte do recente declínio na atividade mundial pode estar associado direta ou indiretamente a uma queda nos valores das ações.
Os preços das ações são governados, ao longo da maior parte do ciclo de negócios, pelas expectativas de lucros e pela atividade econômica. Mas eles parecem se tornar cada vez mais independentes dessa atividade nos pontos de inflexão. É isso que os torna um indicador antecipatório, para a maioria dos analistas de ciclos.
A substituição do crédito soberano pelo crédito privado ajudou a evitar alguns dos extremos da crise da solvência. Mas, ao avaliarmos este período, suspeito que a força que será vista como mais importante para a recuperação mundial terá sido uma reversão parcial do prejuízo de US$ 35 trilhões no valor das ações. Uma recuperação nas ações, propelida em larga medida pelo recuo da recessão, pode ser um ponto seminal de inflexão na crise.
A questão crucial é determinar quando. Certamente, com base em quaisquer indicadores históricos, os valores das ações estão baixos. Mas a história ensina que podem, ou não, cair ainda mais antes que retornem de maneira mais decisiva a níveis mais normais. O que é inegável é que os preços das ações hoje estão sendo deprimidos por um grau de medo que não se via desde o começo do século 20 (1907 e 1932 são duas datas que me ocorrem). Mas a história nos ensina que há um limite para a duração e a intensidade da paralisia que o medo causa.
É o declínio da produção, do emprego e dos mercados que gera boa parte da incerteza que alimenta o medo. O ritmo atual de deterioração deve se desacelerar, e com isso deve vir uma redução no nível de medo. À medida que o medo se reduzir, as ações subirão. Mesmo que recuperemos só metade das perdas globais de US$ 35 trilhões em capital acionário, a quantidade de valor acionário criada recentemente e as dívidas adicionais que ele poderá sustentar serão fontes importante de financiamento para os bancos. Como quase todo mundo está começando a reconhecer, restaurar um grau viável de intermediação financeira é essencial para a recuperação. Não fazê-lo reduziria significativamente qualquer impacto positivo de um estímulo fiscal.