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Publicado: 1/04/2009 | 11:02
Racismo nem como 'metáfora'
Escrevo constrangido, pois não tenho nenhum prazer em comentar mais uma das tais “metáforas” de mau gosto do presidente Lula. Gafes com implicações morais e políticas tão profundas e desagradáveis que, nem mesmo os políticos mais autocondescendentes, cabotinos e engordados pela mamadeira de um Estado que os trata como realeza, devem repetir.
Que eles jurem que não sabiam, que não conheciam o sócio canalha ou a origem do dinheiro, eu amargamente engulo, mas o caso em pauta não pode passar em branco e visto com olhos azuis. Se a ditadura militar reduziu os problemas nacionais a corruptos e comunistas, eu não posso calar diante de um presidente da República — um político que lutou contra as mais vis simplificações morais e se elegeu com a bandeira da transformação libertária e do antirracismo — que afirma: “a crise foi feita por gente branca e de olhos azuis”. Seria a frase racista uma tentativa canhestra de dizer que nós — povo e governo Lula — não temos nada com essas perdas cuja responsabilidade seria de exclusiva fabricação externa (e, portanto, “branca”)? Crise desses brancos insensíveis e irresponsáveis que, mais uma vez, vitimam tanto Lula e seus asseclas quanto o povo brasileiro que, é claro (vejam só o racismo env i e s a d o ) , n ã o s e r i a “ g e n t e ” ( d a “ r a ç a ” ) branca de olhos azuis? Como é que o Lula, que sofreu quase todos os preconceitos, pode dizer uma barbaridade racista de tamanho calibre? É coagido, pois, pelo e m b a r a ç o , q u e s o u obrigado a reconhecer como o “racismo à brasileira”, denunciado, aliás, por mim em 1981, no livrinho “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, sirva para explicar tanto a crise econômica que vivemos quanto antigamente foi usado para justificar o atraso do Brasil. Um país que, até o Plano Real e a crise, era subdesenvolvido, andando — como gostava de dizer o gênio da raça, o professor e ideólogo Darcy Ribeiro — aos “trancos e barrancos”. Que os políticos mais reacionários tenham sido racistas, ao lado dos seus irmãos escravistas, dos matadores e catequizadores de índios, eu entendo. Mas ouvir essa frase de um presidente com os compromissos políticos e morais do Lula, foi mais uma trombada. O problema do racismo não é que ele opere por exageros, substituindo o artigo indefinido pelo definido, é a sua produção de segmentações irreconciliáveis. Vejam bem: quando eu falo em gente branca de olhos azuis, eu sou absolutamente inclusivo. Seria melhor dizer, uns tantos brancos de olhos azuis? Certamente. Pois quando o “o” substitui o “um” a classificação, que é sempre aglutinadora e exagerada, mas que permite discriminação — pois há brancos e brancos de olhos azuis —, fica fechada. Torna-se ideal, modelar, “platônica”, universal e como ela é construída numa base biológica, tornase irrecorrível. Só quem tem certezas absolutas fala que o negro é boçal; que o índio tem muita terra; que toda loura é burra, e que todo burguês e judeu merecem paredão e câmara de gás. Toda classificação simplifica. Mas o código racista faz mais que isso. Ele reduz um evento complicado a uma causa única, e situa no campo das aparências físicas fatos que têm muitas causas e não podem ser satisfatoriamente explicáveis exclusivamente por nenhuma delas. É óbvio que a crise explodiu no centro, mas é claríssimo também que, numa economia globalizada, todos dela tiraram um bom partido, pois as parcerias comerciais relacionavam centro e periferias diminuindo, pela primeira vez na história do capitalismo, suas teoricamente irremovíveis distâncias. Não pode passar em branco o fato de que a frase do presidente tem uma antiga linhagem. O racismo é uma máquina mortal de simplificar coisas, animais, pessoas e situações. Quando se diz que o Brasil é um pais atrasado porque foi feito por negros, índios e criminosos portugueses, fazse uma redução absurda da complexidade de uma coletividade que é, ao mesmo tempo, língua, cultura, território, religião, comportamentos, paisagens, comidas, gestos, mercados e tudo o mais. Cria-se uma segmentação irredutível, incapaz de ser transformada pela educação, pela política e por sua própria vontade como sociedade, pois como mudar esse código biológico que a aprisiona num sistema de “raças” imutáveis? Ao falar em brancos de olhos azuis, Lula fez como os velhos escravistas: usou a cláusula pétrea do tempo biológico que tudo congela na lógica do imutável, abandonando a dinâmica das diferenciações empáticas e produtivas que, sendo culturais, são transitórias, arbitrárias, históricas, negociáveis e passíveis de modificação. O racismo desumaniza porque ele enxerga negros, índios e agora brancos de olhos azuis onde, de fato, existem instituições, regras, práticas e motivos sociais inventados por homens entre homens.
Escrevo constrangido, pois não tenho nenhum prazer em comentar mais uma das tais “metáforas” de mau gosto do presidente Lula. Gafes com implicações morais e políticas tão profundas e desagradáveis que, nem mesmo os políticos mais autocondescendentes, cabotinos e engordados pela mamadeira de um Estado que os trata como realeza, devem repetir.
Que eles jurem que não sabiam, que não conheciam o sócio canalha ou a origem do dinheiro, eu amargamente engulo, mas o caso em pauta não pode passar em branco e visto com olhos azuis. Se a ditadura militar reduziu os problemas nacionais a corruptos e comunistas, eu não posso calar diante de um presidente da República — um político que lutou contra as mais vis simplificações morais e se elegeu com a bandeira da transformação libertária e do antirracismo — que afirma: “a crise foi feita por gente branca e de olhos azuis”. Seria a frase racista uma tentativa canhestra de dizer que nós — povo e governo Lula — não temos nada com essas perdas cuja responsabilidade seria de exclusiva fabricação externa (e, portanto, “branca”)? Crise desses brancos insensíveis e irresponsáveis que, mais uma vez, vitimam tanto Lula e seus asseclas quanto o povo brasileiro que, é claro (vejam só o racismo env i e s a d o ) , n ã o s e r i a “ g e n t e ” ( d a “ r a ç a ” ) branca de olhos azuis? Como é que o Lula, que sofreu quase todos os preconceitos, pode dizer uma barbaridade racista de tamanho calibre? É coagido, pois, pelo e m b a r a ç o , q u e s o u obrigado a reconhecer como o “racismo à brasileira”, denunciado, aliás, por mim em 1981, no livrinho “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, sirva para explicar tanto a crise econômica que vivemos quanto antigamente foi usado para justificar o atraso do Brasil. Um país que, até o Plano Real e a crise, era subdesenvolvido, andando — como gostava de dizer o gênio da raça, o professor e ideólogo Darcy Ribeiro — aos “trancos e barrancos”. Que os políticos mais reacionários tenham sido racistas, ao lado dos seus irmãos escravistas, dos matadores e catequizadores de índios, eu entendo. Mas ouvir essa frase de um presidente com os compromissos políticos e morais do Lula, foi mais uma trombada. O problema do racismo não é que ele opere por exageros, substituindo o artigo indefinido pelo definido, é a sua produção de segmentações irreconciliáveis. Vejam bem: quando eu falo em gente branca de olhos azuis, eu sou absolutamente inclusivo. Seria melhor dizer, uns tantos brancos de olhos azuis? Certamente. Pois quando o “o” substitui o “um” a classificação, que é sempre aglutinadora e exagerada, mas que permite discriminação — pois há brancos e brancos de olhos azuis —, fica fechada. Torna-se ideal, modelar, “platônica”, universal e como ela é construída numa base biológica, tornase irrecorrível. Só quem tem certezas absolutas fala que o negro é boçal; que o índio tem muita terra; que toda loura é burra, e que todo burguês e judeu merecem paredão e câmara de gás. Toda classificação simplifica. Mas o código racista faz mais que isso. Ele reduz um evento complicado a uma causa única, e situa no campo das aparências físicas fatos que têm muitas causas e não podem ser satisfatoriamente explicáveis exclusivamente por nenhuma delas. É óbvio que a crise explodiu no centro, mas é claríssimo também que, numa economia globalizada, todos dela tiraram um bom partido, pois as parcerias comerciais relacionavam centro e periferias diminuindo, pela primeira vez na história do capitalismo, suas teoricamente irremovíveis distâncias. Não pode passar em branco o fato de que a frase do presidente tem uma antiga linhagem. O racismo é uma máquina mortal de simplificar coisas, animais, pessoas e situações. Quando se diz que o Brasil é um pais atrasado porque foi feito por negros, índios e criminosos portugueses, fazse uma redução absurda da complexidade de uma coletividade que é, ao mesmo tempo, língua, cultura, território, religião, comportamentos, paisagens, comidas, gestos, mercados e tudo o mais. Cria-se uma segmentação irredutível, incapaz de ser transformada pela educação, pela política e por sua própria vontade como sociedade, pois como mudar esse código biológico que a aprisiona num sistema de “raças” imutáveis? Ao falar em brancos de olhos azuis, Lula fez como os velhos escravistas: usou a cláusula pétrea do tempo biológico que tudo congela na lógica do imutável, abandonando a dinâmica das diferenciações empáticas e produtivas que, sendo culturais, são transitórias, arbitrárias, históricas, negociáveis e passíveis de modificação. O racismo desumaniza porque ele enxerga negros, índios e agora brancos de olhos azuis onde, de fato, existem instituições, regras, práticas e motivos sociais inventados por homens entre homens.

