antigas Publicado: 1/04/2009 | 11:05

"Selic" privada cai de 10,67% para 9,80%

 

Por dentro do mercado - Luiz Sérgio Guimarães
Valor Econômico - 01/04/2009
 

Os juros futuros fecharam março na mesma direção de queda na qual iniciaram o mês. O contrato privado de referência, que fornece a taxa básica para um ano, retrocedeu no mês de 10,67% para 9,80%. E esta taxa, piso para as operações de crédito, pode ainda estar inchada se for considerada a concreta possibilidade de o Copom de abril fazer mais um talho de 1,5 ponto na taxa Selic. Com isso, o juro básico oficial desceria a 9,75% e o Banco Central iria se colocar à frente da curva futura de juros. Os players do pregão de DI futuro reclamam que os contratos já caíram demais este ano e que, por isso, a lucratividade só existe nos contratos mais longos. Mas o esgotamento da utilização do gasto público como instrumento anticíclico contra a crise, revelado ontem pelos dados relativos ao superávit primário, transfere ao Copom a responsabilidade maior pelas tentativas de recuperação econômica.

O caminho para o aprofundamento do declínio dos juros continua desimpedido. A retomada das bolsas de valores em março e a queda do dólar (de 2,19% em março, para R$ 2,3180) não devem autorizar ninguém a supor que o pior da crise já passou. No último dia do mês surgiu nos EUA indicador que não avaliza comemorações. Os preços dos imóveis residenciais nas 20 maiores regiões metropolitanas caíram 19% em janeiro comparativamente com um ano atrás, segundo pesquisa elaborada pela Standard & Poor"s. Contra o mês anterior, a queda foi de 2%.

A taxa do swap de 360 dias recuou ontem de 9,83% para 9,80%. Deflacionada pela expectativa de IPCA do boletim Focus para o mesmo período, de 4,19%, embute um juro real de 5,38%. Trata-se de uma taxa real das mais baixas da história brasileira. O recorde da série histórica foi batido no último dia 20, e está em 5,22%. Tais taxas devem ser aproveitadas enquanto durar a crise. Na opinião do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, o juro real voltará a subir em sintonia com a recuperação da atividade econômica. Em relatório de sua consultoria, a AC Pastore & Associados, diz que a taxa real de juros persistirá abaixo da taxa neutra enquanto a atual crise internacional estiver emitindo ondas de choque sobre a economia brasileira. Se estivesse ocorrendo uma diminuição na taxa real neutra de juros, o Brasil teria doravante e em caráter permanente juros reais mais baixos. Não é o que está acontecendo, segundo o relatório.

 
 

A queda é temporária, resulta de uma reação à crise. E, depois que ela passar, a tendência é voltar-se a ter juro real acima da taxa neutra. Por meio de vários canais de transmissão, a crise internacional deprimiu a demanda agregada, abrindo um hiato negativo muito grande de produto. Se o BC não reagisse mantendo a taxa real de juros abaixo da taxa neutra, a inflação convergiria para baixo da meta, e a recessão seria profunda. "A reação correta de política monetária é, portanto, cortar significativa e agressivamente a taxa de juros. Mas quando a crise se encerrar, a taxa real de mercado terá que se elevar novamente para se igualar à taxa neutra de juros", diz o relatório.

Liquidez persiste fortemente empoçada

Apesar das medidas governamentais de incentivo ao crédito e dos sinais de distensão externa, a liquidez bancário persiste fortemente empoçada. Segundo dados do Banco Central, embora o saldo das "operações compromissadas" em mercado aberto - os financiamentos de curto prazo garantidos por títulos públicos que rendem a taxa Selic -, tenha recuado 3,93% em fevereiro, nominalmente a cifra continua muito expressiva. O saldo cedeu de R$ 381,22 bilhões em janeiro para R$ 366,24 bilhões um mês depois. Em tese, trata-se de dinheiro ocioso que, por não encontrar destino melhor no setor privado, abriga-se confortável e temporariamente na segurança das títulos públicos. Em fevereiro, nada menos do que 22% do total, ou R$ 80,738 bilhões, eram rolados no "curtíssimo prazo", praticamente de um dia para o outro. E a fatia rolada com prazo superior a três meses não passava de 11,2%.

A busca de refúgio seguro não é tão temporária assim. O saldo total vem evoluindo acentuadamente à medida em que a crise se acirra e o BC aumenta as liberações de compulsório bancário para combatê-la. No final de 2007, a liquidez estava em R$ 165,813 bilhões. Um ano depois saltou a R$ 300,491 bilhões. Da quebra do Lehman Brothers, em setembro, até janeiro o saldo das compromissadas saltou de R$ 282,368 bilhões para R$ 381,22 bilhões - curiosamente, o equivalente aos quase R$ 100 bilhões liberados pelo BC no período por meio de mudanças nas regras nos depósitos compulsórios.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

E-mail: [email protected]

 

Por dentro do mercado - Luiz Sérgio Guimarães
Valor Econômico - 01/04/2009
 

Os juros futuros fecharam março na mesma direção de queda na qual iniciaram o mês. O contrato privado de referência, que fornece a taxa básica para um ano, retrocedeu no mês de 10,67% para 9,80%. E esta taxa, piso para as operações de crédito, pode ainda estar inchada se for considerada a concreta possibilidade de o Copom de abril fazer mais um talho de 1,5 ponto na taxa Selic. Com isso, o juro básico oficial desceria a 9,75% e o Banco Central iria se colocar à frente da curva futura de juros. Os players do pregão de DI futuro reclamam que os contratos já caíram demais este ano e que, por isso, a lucratividade só existe nos contratos mais longos. Mas o esgotamento da utilização do gasto público como instrumento anticíclico contra a crise, revelado ontem pelos dados relativos ao superávit primário, transfere ao Copom a responsabilidade maior pelas tentativas de recuperação econômica.

O caminho para o aprofundamento do declínio dos juros continua desimpedido. A retomada das bolsas de valores em março e a queda do dólar (de 2,19% em março, para R$ 2,3180) não devem autorizar ninguém a supor que o pior da crise já passou. No último dia do mês surgiu nos EUA indicador que não avaliza comemorações. Os preços dos imóveis residenciais nas 20 maiores regiões metropolitanas caíram 19% em janeiro comparativamente com um ano atrás, segundo pesquisa elaborada pela Standard & Poor"s. Contra o mês anterior, a queda foi de 2%.

A taxa do swap de 360 dias recuou ontem de 9,83% para 9,80%. Deflacionada pela expectativa de IPCA do boletim Focus para o mesmo período, de 4,19%, embute um juro real de 5,38%. Trata-se de uma taxa real das mais baixas da história brasileira. O recorde da série histórica foi batido no último dia 20, e está em 5,22%. Tais taxas devem ser aproveitadas enquanto durar a crise. Na opinião do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, o juro real voltará a subir em sintonia com a recuperação da atividade econômica. Em relatório de sua consultoria, a AC Pastore & Associados, diz que a taxa real de juros persistirá abaixo da taxa neutra enquanto a atual crise internacional estiver emitindo ondas de choque sobre a economia brasileira. Se estivesse ocorrendo uma diminuição na taxa real neutra de juros, o Brasil teria doravante e em caráter permanente juros reais mais baixos. Não é o que está acontecendo, segundo o relatório.

 
 

A queda é temporária, resulta de uma reação à crise. E, depois que ela passar, a tendência é voltar-se a ter juro real acima da taxa neutra. Por meio de vários canais de transmissão, a crise internacional deprimiu a demanda agregada, abrindo um hiato negativo muito grande de produto. Se o BC não reagisse mantendo a taxa real de juros abaixo da taxa neutra, a inflação convergiria para baixo da meta, e a recessão seria profunda. "A reação correta de política monetária é, portanto, cortar significativa e agressivamente a taxa de juros. Mas quando a crise se encerrar, a taxa real de mercado terá que se elevar novamente para se igualar à taxa neutra de juros", diz o relatório.

Liquidez persiste fortemente empoçada

Apesar das medidas governamentais de incentivo ao crédito e dos sinais de distensão externa, a liquidez bancário persiste fortemente empoçada. Segundo dados do Banco Central, embora o saldo das "operações compromissadas" em mercado aberto - os financiamentos de curto prazo garantidos por títulos públicos que rendem a taxa Selic -, tenha recuado 3,93% em fevereiro, nominalmente a cifra continua muito expressiva. O saldo cedeu de R$ 381,22 bilhões em janeiro para R$ 366,24 bilhões um mês depois. Em tese, trata-se de dinheiro ocioso que, por não encontrar destino melhor no setor privado, abriga-se confortável e temporariamente na segurança das títulos públicos. Em fevereiro, nada menos do que 22% do total, ou R$ 80,738 bilhões, eram rolados no "curtíssimo prazo", praticamente de um dia para o outro. E a fatia rolada com prazo superior a três meses não passava de 11,2%.

A busca de refúgio seguro não é tão temporária assim. O saldo total vem evoluindo acentuadamente à medida em que a crise se acirra e o BC aumenta as liberações de compulsório bancário para combatê-la. No final de 2007, a liquidez estava em R$ 165,813 bilhões. Um ano depois saltou a R$ 300,491 bilhões. Da quebra do Lehman Brothers, em setembro, até janeiro o saldo das compromissadas saltou de R$ 282,368 bilhões para R$ 381,22 bilhões - curiosamente, o equivalente aos quase R$ 100 bilhões liberados pelo BC no período por meio de mudanças nas regras nos depósitos compulsórios.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

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