antigas Publicado: 3/04/2009 | 10:21

O crash de 2008

 Presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC)

A recessão que ocorreu no Brasil, a partir do último trimestre de 2008, se deveu a várias causas, todas elas representando um empobrecimento do país em relação ao período anterior. O primeiro impacto foi dado pela queda no preço e na demanda do minério de ferro exportado pela Vale, devido à retração da demanda da China, em função da queda na indústria automobilística e, em consequência, dos produtos siderúrgicos e metalúrgicos; em seguida, caiu o preço do petróleo e do gás, que afetou a renda e os planos de investimentos da Petrobras (e os royalties estatais) e arrastou o preço do etanol; no mesmo período, caíram bruscamente os preços — e de alguma forma a demanda — dos alimentos, principalmente do grupo soja, o mais importante dos nossos agroprodutos de exportação. 

Dessa forma, podemos dizer que o Brasil enriqueceu em 2008, até setembro, e empobreceu a partir de outubro, configurando o quadro de recessão representado pela queda da produção e do emprego na economia brasileira. 

Como vem sendo feito em todos os países, também o governo brasileiro se viu obrigado a adotar uma série de medidas anticíclicas, com vistas a contra-arrestar a recessão, ou seja, estimular o consumo e fomentar a produção. Mas, como? Recuperar o preço do minério de ferro, do petróleo e dos alimentos? Impossível, pois as causas dessas perdas vieram de fora e sobre elas o governo brasileiro não tem ação. 

Injetar dinheiro nos bancos, para recompor o capital de giro das empresas e a demanda dos consumidores? Inútil, principalmente face à atitude da aversão ao risco adotada pelos investidores, assim como pelos consumidores (redução da propensão marginal a consumir, na linguagem de Keynes), receosos de perderem seus empregos. Por isso, afirma-se, numa conjuntura de recessão pouco se pode esperar do setor privado, ou seja, cabe ao governo adotar a iniciativa das medidas de recuperação. É nisso que consiste a proposta formulada por Keynes, por ocasião da grande depressão dos anos 1930. É interessante lembrar que as primeiras medidas adotadas pelo governo Hoover foram no sentido de aumentar os impostos, a fim de prover o Tesouro americano de recursos para intervir na crise. Um desastre. 

A experiência dos anos 30 do século passado consagrou a proposta de Keynes: na recessão do setor privado — investidores e consumidores —, cabe ao governo comandar as iniciativas, reduzindo os gastos de custeio e expandindo os investimentos públicos, que vão gerar empregos, aumentar a renda e reativar as atividades econômicas. O aumento do consumo virá, em seguida, como consequência. 

A proposta de Keynes cai como uma luva na atual recessão da economia brasileira. Não há por que fornecer mais crédito para os consumidores comprarem mais automóveis, mais geladeiras ou telefones celulares. O mercado de bens de consumo duráveis teve uma expansão exagerada em 2007 e 2008. O momento, agora, é de volta à normalidade. Mas, e o emprego? O emprego deve e vai ser criado em outras áreas e é aí que entra o PAC. O governo tem um programa extenso de projetos no campo da infraestrutura e da indústria de base, que estavam paralisados há vários anos. Chegou a hora de acioná-los, combinando os recursos privados disponíveis, internos e externos, com os recursos oficiais, sejam do orçamento, sejam da expansão do crédito, como vem sendo feito pelo BNDES. É aqui que entra, como assinalou Keynes, o efeito multiplicador dos investimentos, ou seja o número de vezes que aumenta a renda a partir de cada unidade nova de investimento. 

A recessão mundial pegou em cheio a economia brasileira, como se pode ver pelo espantoso aumento do desemprego da mão de obra. Tem a palavra o governo, temporariamente. Quando a recessão terminar, o governo volta ao normal e deixa o mercado reassumir as iniciativas. Porque, e aqui voltamos a Keynes, não é a propensão a economizar que responde pela formação do capital, mas, sim, a demanda do consumo atual e em perspectiva.

 Presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC)

A recessão que ocorreu no Brasil, a partir do último trimestre de 2008, se deveu a várias causas, todas elas representando um empobrecimento do país em relação ao período anterior. O primeiro impacto foi dado pela queda no preço e na demanda do minério de ferro exportado pela Vale, devido à retração da demanda da China, em função da queda na indústria automobilística e, em consequência, dos produtos siderúrgicos e metalúrgicos; em seguida, caiu o preço do petróleo e do gás, que afetou a renda e os planos de investimentos da Petrobras (e os royalties estatais) e arrastou o preço do etanol; no mesmo período, caíram bruscamente os preços — e de alguma forma a demanda — dos alimentos, principalmente do grupo soja, o mais importante dos nossos agroprodutos de exportação. 

Dessa forma, podemos dizer que o Brasil enriqueceu em 2008, até setembro, e empobreceu a partir de outubro, configurando o quadro de recessão representado pela queda da produção e do emprego na economia brasileira. 

Como vem sendo feito em todos os países, também o governo brasileiro se viu obrigado a adotar uma série de medidas anticíclicas, com vistas a contra-arrestar a recessão, ou seja, estimular o consumo e fomentar a produção. Mas, como? Recuperar o preço do minério de ferro, do petróleo e dos alimentos? Impossível, pois as causas dessas perdas vieram de fora e sobre elas o governo brasileiro não tem ação. 

Injetar dinheiro nos bancos, para recompor o capital de giro das empresas e a demanda dos consumidores? Inútil, principalmente face à atitude da aversão ao risco adotada pelos investidores, assim como pelos consumidores (redução da propensão marginal a consumir, na linguagem de Keynes), receosos de perderem seus empregos. Por isso, afirma-se, numa conjuntura de recessão pouco se pode esperar do setor privado, ou seja, cabe ao governo adotar a iniciativa das medidas de recuperação. É nisso que consiste a proposta formulada por Keynes, por ocasião da grande depressão dos anos 1930. É interessante lembrar que as primeiras medidas adotadas pelo governo Hoover foram no sentido de aumentar os impostos, a fim de prover o Tesouro americano de recursos para intervir na crise. Um desastre. 

A experiência dos anos 30 do século passado consagrou a proposta de Keynes: na recessão do setor privado — investidores e consumidores —, cabe ao governo comandar as iniciativas, reduzindo os gastos de custeio e expandindo os investimentos públicos, que vão gerar empregos, aumentar a renda e reativar as atividades econômicas. O aumento do consumo virá, em seguida, como consequência. 

A proposta de Keynes cai como uma luva na atual recessão da economia brasileira. Não há por que fornecer mais crédito para os consumidores comprarem mais automóveis, mais geladeiras ou telefones celulares. O mercado de bens de consumo duráveis teve uma expansão exagerada em 2007 e 2008. O momento, agora, é de volta à normalidade. Mas, e o emprego? O emprego deve e vai ser criado em outras áreas e é aí que entra o PAC. O governo tem um programa extenso de projetos no campo da infraestrutura e da indústria de base, que estavam paralisados há vários anos. Chegou a hora de acioná-los, combinando os recursos privados disponíveis, internos e externos, com os recursos oficiais, sejam do orçamento, sejam da expansão do crédito, como vem sendo feito pelo BNDES. É aqui que entra, como assinalou Keynes, o efeito multiplicador dos investimentos, ou seja o número de vezes que aumenta a renda a partir de cada unidade nova de investimento. 

A recessão mundial pegou em cheio a economia brasileira, como se pode ver pelo espantoso aumento do desemprego da mão de obra. Tem a palavra o governo, temporariamente. Quando a recessão terminar, o governo volta ao normal e deixa o mercado reassumir as iniciativas. Porque, e aqui voltamos a Keynes, não é a propensão a economizar que responde pela formação do capital, mas, sim, a demanda do consumo atual e em perspectiva.