antigas Publicado: 13/07/2007 | 09:46

NO SENADO, A PAUTA É BAIXARIA

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Renan adia processo contra ele e provoca forte reação de adversários. O peemedebista também atacou Agripino

O clima no Senado piorou ainda mais ontem, sempre por conta da crise que ameaça o mandato do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Renan deixou a oposição revoltada ao adiar para a próxima terça-feira a reunião da Mesa Diretora que vai decidir se autoriza a Polícia Federal a fazer uma perícia na contabilidade dele. Um acordo entre os líderes previa que a reunião acontecesse ontem. Irritados, os senadores de oposição abandonaram o plenário do Senado e ameaçam boicotar todas as votações. Renan também perdeu a calma. Ao deixar seu gabinete, cercado por jornalistas, foi duro ao explicar por que não fez a reunião ontem. “Para convocar uma reunião da Mesa é preciso ganhar a eleição (para presidente do Senado). Não se convoca com 28 votos.” O número foi uma referência clara ao líder do DEM, José Agripino (RN). Em fevereiro ele disputou o comando do Senado contra Renan e foi derrotado por 51 votos a 28. Hoje é um de seus principais adversários.

A disputa pelo calendário é estratégica. O Congresso entra em recesso na próxima quarta-feira, dia 18. A reunião da Mesa foi marcada para um dia antes. Muita coisa pode acontecer. Os aliados de Renan podem esvaziar a reunião, para que não haja quorum, ou um deles pode pedir vistas para adiar a decisão. Os advogados do presidente do Senado estudam a possibilidade de pedir uma liminar ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a perícia. Eles acreditam que o Senado não tem poder para pedir que a polícia investigue um parlamentar. Essa prerrogativa seria do próprio Supremo. Se qualquer dessas coisas acontecer, a decisão pode ficar para depois do recesso, que termina em 1º de agosto. Como a PF estima o prazo mínimo para a perícia em 20 dias, o processo seria atrasado em mais de um mês.

Outra expectativa dos aliados de Renan é usar esse prazo extra para tentar ganhar apoio entre os integrantes da Mesa. Há poucos dias, ele não teve nenhum voto na tentativa de arquivar o processo. Agora, aposta numa tática de medo. Acha que os senadores podem considerar alto demais o risco de dar ao Conselho de Ética o poder de mandar a PF investigar um parlamentar.

Manobras
Único aliado de Renan na Comissão de Inquérito que investiga o caso, o senador Almeida Lima (PMDB-SE) — os outros são Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS) — , rejeitou todas as tentativas de antecipar a reunião na qual seria redigido o pedido de perícia. Só chegou depois do meio-dia e não aceitou nenhum acordo. Com isso, o documento foi concluído por volta das 14h. Só então, foi entregue à Secretaria-Geral da Mesa, que protocola esse tipo de documento. Os papéis demoraram mais duas horas para serem repassados à presidência, que fica a menos de 10 metros de distância. Quando chegaram, Renan concluiu que era tarde demais para chamar a reunião. Alegou que precisava de tempo para “notificar as partes”. Ou seja: seus próprios advogados e o PSol, autor da representação contra ele.

O argumento tirou do sério os senadores da oposição. José Neri (PSol-PA) correu a dizer que seu partido já se considerava notificado. Faltava apenas Renan avisar seus próprios advogados. O senador Tasso Jereissati explodiu: “É uma situação surrealista a que estamos vivendo. Isso leva a uma inteira desmoralização deste plenário e do Conselho de Ética. Estamos fazendo o papel de grandes enganadores da opinião pública e de tolos”.

Os líderes da oposição ainda tentaram apresentar uma questão de ordem para obrigar o vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), a convocar a reunião da Mesa. Quando ele se recusou, propuseram um recurso para que o plenário decidisse no voto. Aliado de Renan, Tião voltou a recusar. Irritados, os partidos de oposição deixaram o plenário e ameaçam boicotar todas as votações na Casa. Quando o movimento de esvaziamento terminou, restavam apenas 10 senadores em plenário, dos 62 que tinham marcado presença.
 

Tensão pré-recesso parlamentar

O caso Renan Calheiros contaminou definitivamente o plenário do Senado. Nos últimos dias, todas as sessões descambaram para bate-boca sobre a crise que envolve o presidente da Casa. A retirada dos parlamentares de oposição do plenário ontem foi o ponto mais tenso de uma situação que vem piorando a cada dia. E esse agravamento no clima não é nada bom para Renan.

Em primeiro lugar, porque retira dele o discurso de que a crise é artificial, fabricada pela mídia, e de que o Senado continua a trabalhar normalmente. Em segundo, porque transforma Renan em um problema para o governo. Com ele na Presidência do Senado e especialmente no comando das sessões, a oposição ameaça não votar os projetos de interesse do Palácio do Planalto. Até aqui, o senador contou com o apoio do Planalto. Isso porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o considera um solucionador de problemas. Esse é um trunfo que o peemedebista não pode perder.

O maior risco está no relacionamento com os outros senadores. Renan sabe que o Conselho de Ética vai propor sua cassação. A relação de forças o desfavorece em uma votação aberta. Aposta em ser absolvido no plenário, quando o voto será secreto. Rompantes de irritação e ataques duros aos adversários podem diminuir a simpatia por ele. O Senado é um clube de políticos experientes, onde vigora uma regra de ouro: Lá não se grita. (GK)

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Renan adia processo contra ele e provoca forte reação de adversários. O peemedebista também atacou Agripino

O clima no Senado piorou ainda mais ontem, sempre por conta da crise que ameaça o mandato do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Renan deixou a oposição revoltada ao adiar para a próxima terça-feira a reunião da Mesa Diretora que vai decidir se autoriza a Polícia Federal a fazer uma perícia na contabilidade dele. Um acordo entre os líderes previa que a reunião acontecesse ontem. Irritados, os senadores de oposição abandonaram o plenário do Senado e ameaçam boicotar todas as votações. Renan também perdeu a calma. Ao deixar seu gabinete, cercado por jornalistas, foi duro ao explicar por que não fez a reunião ontem. “Para convocar uma reunião da Mesa é preciso ganhar a eleição (para presidente do Senado). Não se convoca com 28 votos.” O número foi uma referência clara ao líder do DEM, José Agripino (RN). Em fevereiro ele disputou o comando do Senado contra Renan e foi derrotado por 51 votos a 28. Hoje é um de seus principais adversários.

A disputa pelo calendário é estratégica. O Congresso entra em recesso na próxima quarta-feira, dia 18. A reunião da Mesa foi marcada para um dia antes. Muita coisa pode acontecer. Os aliados de Renan podem esvaziar a reunião, para que não haja quorum, ou um deles pode pedir vistas para adiar a decisão. Os advogados do presidente do Senado estudam a possibilidade de pedir uma liminar ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a perícia. Eles acreditam que o Senado não tem poder para pedir que a polícia investigue um parlamentar. Essa prerrogativa seria do próprio Supremo. Se qualquer dessas coisas acontecer, a decisão pode ficar para depois do recesso, que termina em 1º de agosto. Como a PF estima o prazo mínimo para a perícia em 20 dias, o processo seria atrasado em mais de um mês.

Outra expectativa dos aliados de Renan é usar esse prazo extra para tentar ganhar apoio entre os integrantes da Mesa. Há poucos dias, ele não teve nenhum voto na tentativa de arquivar o processo. Agora, aposta numa tática de medo. Acha que os senadores podem considerar alto demais o risco de dar ao Conselho de Ética o poder de mandar a PF investigar um parlamentar.

Manobras
Único aliado de Renan na Comissão de Inquérito que investiga o caso, o senador Almeida Lima (PMDB-SE) — os outros são Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS) — , rejeitou todas as tentativas de antecipar a reunião na qual seria redigido o pedido de perícia. Só chegou depois do meio-dia e não aceitou nenhum acordo. Com isso, o documento foi concluído por volta das 14h. Só então, foi entregue à Secretaria-Geral da Mesa, que protocola esse tipo de documento. Os papéis demoraram mais duas horas para serem repassados à presidência, que fica a menos de 10 metros de distância. Quando chegaram, Renan concluiu que era tarde demais para chamar a reunião. Alegou que precisava de tempo para “notificar as partes”. Ou seja: seus próprios advogados e o PSol, autor da representação contra ele.

O argumento tirou do sério os senadores da oposição. José Neri (PSol-PA) correu a dizer que seu partido já se considerava notificado. Faltava apenas Renan avisar seus próprios advogados. O senador Tasso Jereissati explodiu: “É uma situação surrealista a que estamos vivendo. Isso leva a uma inteira desmoralização deste plenário e do Conselho de Ética. Estamos fazendo o papel de grandes enganadores da opinião pública e de tolos”.

Os líderes da oposição ainda tentaram apresentar uma questão de ordem para obrigar o vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), a convocar a reunião da Mesa. Quando ele se recusou, propuseram um recurso para que o plenário decidisse no voto. Aliado de Renan, Tião voltou a recusar. Irritados, os partidos de oposição deixaram o plenário e ameaçam boicotar todas as votações na Casa. Quando o movimento de esvaziamento terminou, restavam apenas 10 senadores em plenário, dos 62 que tinham marcado presença.
 

Tensão pré-recesso parlamentar

O caso Renan Calheiros contaminou definitivamente o plenário do Senado. Nos últimos dias, todas as sessões descambaram para bate-boca sobre a crise que envolve o presidente da Casa. A retirada dos parlamentares de oposição do plenário ontem foi o ponto mais tenso de uma situação que vem piorando a cada dia. E esse agravamento no clima não é nada bom para Renan.

Em primeiro lugar, porque retira dele o discurso de que a crise é artificial, fabricada pela mídia, e de que o Senado continua a trabalhar normalmente. Em segundo, porque transforma Renan em um problema para o governo. Com ele na Presidência do Senado e especialmente no comando das sessões, a oposição ameaça não votar os projetos de interesse do Palácio do Planalto. Até aqui, o senador contou com o apoio do Planalto. Isso porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o considera um solucionador de problemas. Esse é um trunfo que o peemedebista não pode perder.

O maior risco está no relacionamento com os outros senadores. Renan sabe que o Conselho de Ética vai propor sua cassação. A relação de forças o desfavorece em uma votação aberta. Aposta em ser absolvido no plenário, quando o voto será secreto. Rompantes de irritação e ataques duros aos adversários podem diminuir a simpatia por ele. O Senado é um clube de políticos experientes, onde vigora uma regra de ouro: Lá não se grita. (GK)