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Publicado: 23/07/2007 | 09:37
PF evitou desvio de R$ 3,5 bilhões
Edson Luiz
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Entrevista - Getúlio Bezerra
Diretor de Combate ao Crime Organizado garante que não há mais volta na luta contra a corrupção
Com seu jeito discreto, o delegado Getúlio Bezerra dos Santos, 61 anos, não parece ser o responsável por uma das áreas que mais atua no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas e drogas. Por trás do estilo contido, está um persistente combatente da corrupção, principalmente a que ocorre nas altas esferas. “Não temos mais medo dos elevadores panorâmicos dos edifícios elegantes, nem dos escritórios de ar condicionado com som ambiente”, desafia Bezerra.
Há 33 anos na PF, onde entrou como agente, Bezerra é hoje o diretor de Combate ao Crime Organizado e responde interinamente pela diretoria executiva da instituição, o que lhe atribuiu a missão de atacar também os crimes previdenciários, cibernéticos e fazendários. Em entrevista ao Correio, ele estima que a PF estancou cerca de R$ 3,5 bilhões de fraudes contra os cofres públicos. Torcedor do Sport de Pernambuco, estado que costuma dizer de que é natural, apesar de ser do sertão da Paraíba, o delegado garante que dentre da Polícia Federal não haverá mais volta no combate à corrupção.
O que mudou hoje no país em relação ao combate à corrupção?
A PF, nos anos do regime militar, era voltada para as questões políticas e ideológicas. Com a abertura política, o foco da PF mudou. Miramos no tráfico de drogas, onde começou a surgir a especialização dos policiais na repressão a este tipo de crime. Com isso, passaram a investigar crimes em outras áreas. E aí começam a aparecer os agentes públicos corruptos.
Mesmo assim, não dá para comparar a PF de alguns anos com a de hoje porque os mecanismos atuais são mais modernos.
Isso é verdade, mas não é tudo. Tivemos uma geração de delegados da chamada turma dos papeleiros, como eram conhecidos os antigos investigadores de crimes financeiros e um deles é o atual diretor-geral da PF, Paulo Lacerda. Ele fez mudanças estruturais importantes, como a criação de diretorias e coordenações, o que fortalece o combate ao crime. E hoje, há uma integração bem maior entre a PF, MP e Poder Judiciário, o que garante respaldo ao trabalho. Não pode se dizer que existe um só motivo para atuarmos da forma que estamos atuando, mas a partir da nova estrutura, isso se elevou. Hoje, se ficarmos um ano sem trabalhar, temos material suficiente para fazer investigações e para cruzarmos com outras apurações.
Isso, então, é que dá respaldo para a Polícia Federal para prender grandes empresários e políticos?
A gente aprendeu a não ter medo de andar em elevadores panorâmicos dos edifícios elegantes, nem a respirar em ar condicionado com música ambiente dos grandes escritórios. E isso não tem mais retorno. Não podemos mais focar apenas no pé de chinelo, os pequenos criminosos. Se formos fazer isso, os níveis mais elevados do crime, com certeza, vão agradecer.
Quer dizer que as investigações da PF centralizarão os poderosos?
Estabelecemos a seletividade. Ou seja, se formos fazer de tudo, gastamos e no final não fazemos nada. Por isso decidimos fazer um processo seletivo.
A PF tem idéia de quanto se rouba dos cofres públicos hoje no país?
Nenhuma instituição pode responder a esta pergunta. Mas uma coisa é certa: o que conseguimos estancar de desvios e roubo do dinheiro público, juntando com o que deixou de ser sonegado ou voltou a ser arrecadado, como o caso da previdência, calculo, em torno de R$ 3,5 bilhões. Isso sem falar de armas e drogas.
A morosidade da Justiça causa prejuízo às operações da PF?
A morosidade é legal, mas faz muito mal. A culpa não é da Justiça. O que precisa ser feito é mudar a legislação. Muitas vezes fazemos grandes operações, com dezenas e até centenas de prisões, e quando o processo chega ao Poder Judiciário, com milhares de páginas, ele é analisado apenas por um que tem outros casos para resolver. Na maior parte das vezes, o gargalo não é culpa do magistrado. A prisão temporária (de cinco dias) existe para evitar que a pessoa investigada destrua provas, ameace testemunhas e forneça mais informações para o inquérito policial. Não é culpa da justiça, a temporária está na lei.
Pelo lado dos empresários e políticos, as operações da PF são vistas com certo receio e muitas vezes taxadas de pirotécnicas.
Quando se trata de pessoas conhecidas, de grandes empresários ou políticos, é claro que nossas operações chamam atenção, especialmente na imprensa. No entanto, o uniforme operacional que usamos é preto fosco, não tem brilho. O que brilha mesmo são as algemas nos punhos dos que tiram do erário, dos agentes públicos de alta patente que agridem a sociedade roubando o dinheiro dela.
O senhor não acha que há prisões demais ou sem necessidade?
Tem juiz que analisa um caso por até 40 dias para decidir pelas prisões. Então, há critério. Se não for assim, que coloquem os pedidos em uma plenária.
Mas a PF não abusa do uso de escutas telefônicas que, quando vazam, prejudicam investigações e pessoas?
Temos outros meios de investigação, e a interceptação telefônica é só um deles. A vigilância e a análise de documentos, que muitas vezes dá mais resultados que a escuta.
Edson Luiz
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Entrevista - Getúlio Bezerra
Diretor de Combate ao Crime Organizado garante que não há mais volta na luta contra a corrupção
Com seu jeito discreto, o delegado Getúlio Bezerra dos Santos, 61 anos, não parece ser o responsável por uma das áreas que mais atua no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas e drogas. Por trás do estilo contido, está um persistente combatente da corrupção, principalmente a que ocorre nas altas esferas. “Não temos mais medo dos elevadores panorâmicos dos edifícios elegantes, nem dos escritórios de ar condicionado com som ambiente”, desafia Bezerra.
Há 33 anos na PF, onde entrou como agente, Bezerra é hoje o diretor de Combate ao Crime Organizado e responde interinamente pela diretoria executiva da instituição, o que lhe atribuiu a missão de atacar também os crimes previdenciários, cibernéticos e fazendários. Em entrevista ao Correio, ele estima que a PF estancou cerca de R$ 3,5 bilhões de fraudes contra os cofres públicos. Torcedor do Sport de Pernambuco, estado que costuma dizer de que é natural, apesar de ser do sertão da Paraíba, o delegado garante que dentre da Polícia Federal não haverá mais volta no combate à corrupção.
O que mudou hoje no país em relação ao combate à corrupção?
A PF, nos anos do regime militar, era voltada para as questões políticas e ideológicas. Com a abertura política, o foco da PF mudou. Miramos no tráfico de drogas, onde começou a surgir a especialização dos policiais na repressão a este tipo de crime. Com isso, passaram a investigar crimes em outras áreas. E aí começam a aparecer os agentes públicos corruptos.
Mesmo assim, não dá para comparar a PF de alguns anos com a de hoje porque os mecanismos atuais são mais modernos.
Isso é verdade, mas não é tudo. Tivemos uma geração de delegados da chamada turma dos papeleiros, como eram conhecidos os antigos investigadores de crimes financeiros e um deles é o atual diretor-geral da PF, Paulo Lacerda. Ele fez mudanças estruturais importantes, como a criação de diretorias e coordenações, o que fortalece o combate ao crime. E hoje, há uma integração bem maior entre a PF, MP e Poder Judiciário, o que garante respaldo ao trabalho. Não pode se dizer que existe um só motivo para atuarmos da forma que estamos atuando, mas a partir da nova estrutura, isso se elevou. Hoje, se ficarmos um ano sem trabalhar, temos material suficiente para fazer investigações e para cruzarmos com outras apurações.
Isso, então, é que dá respaldo para a Polícia Federal para prender grandes empresários e políticos?
A gente aprendeu a não ter medo de andar em elevadores panorâmicos dos edifícios elegantes, nem a respirar em ar condicionado com música ambiente dos grandes escritórios. E isso não tem mais retorno. Não podemos mais focar apenas no pé de chinelo, os pequenos criminosos. Se formos fazer isso, os níveis mais elevados do crime, com certeza, vão agradecer.
Quer dizer que as investigações da PF centralizarão os poderosos?
Estabelecemos a seletividade. Ou seja, se formos fazer de tudo, gastamos e no final não fazemos nada. Por isso decidimos fazer um processo seletivo.
A PF tem idéia de quanto se rouba dos cofres públicos hoje no país?
Nenhuma instituição pode responder a esta pergunta. Mas uma coisa é certa: o que conseguimos estancar de desvios e roubo do dinheiro público, juntando com o que deixou de ser sonegado ou voltou a ser arrecadado, como o caso da previdência, calculo, em torno de R$ 3,5 bilhões. Isso sem falar de armas e drogas.
A morosidade da Justiça causa prejuízo às operações da PF?
A morosidade é legal, mas faz muito mal. A culpa não é da Justiça. O que precisa ser feito é mudar a legislação. Muitas vezes fazemos grandes operações, com dezenas e até centenas de prisões, e quando o processo chega ao Poder Judiciário, com milhares de páginas, ele é analisado apenas por um que tem outros casos para resolver. Na maior parte das vezes, o gargalo não é culpa do magistrado. A prisão temporária (de cinco dias) existe para evitar que a pessoa investigada destrua provas, ameace testemunhas e forneça mais informações para o inquérito policial. Não é culpa da justiça, a temporária está na lei.
Pelo lado dos empresários e políticos, as operações da PF são vistas com certo receio e muitas vezes taxadas de pirotécnicas.
Quando se trata de pessoas conhecidas, de grandes empresários ou políticos, é claro que nossas operações chamam atenção, especialmente na imprensa. No entanto, o uniforme operacional que usamos é preto fosco, não tem brilho. O que brilha mesmo são as algemas nos punhos dos que tiram do erário, dos agentes públicos de alta patente que agridem a sociedade roubando o dinheiro dela.
O senhor não acha que há prisões demais ou sem necessidade?
Tem juiz que analisa um caso por até 40 dias para decidir pelas prisões. Então, há critério. Se não for assim, que coloquem os pedidos em uma plenária.
Mas a PF não abusa do uso de escutas telefônicas que, quando vazam, prejudicam investigações e pessoas?
Temos outros meios de investigação, e a interceptação telefônica é só um deles. A vigilância e a análise de documentos, que muitas vezes dá mais resultados que a escuta.