antigas Publicado: 30/07/2007 | 11:01

De olho no cenário político

Gazeta Mercantil

As férias escolares terminam e o recesso parlamentar também. Executivos financeiros e o Congresso voltam ao trabalho e vão dar de cara com um novo cenário, representado pela troca de comando no Ministério da Defesa e um agitado e arisco mercado financeiro.
Forte movimento de realização de lucros nos mercados internacionais tiraram da rota os principais indicadores monitorados, aqui e lá fora, por tesoureiros, economistas e formuladores de política econômica.
"Se o salto de quase 40% do risco Brasil em cerca de dez dias foi apenas um solavanco, o tempo dirá. É inegável, porém, que a intensa volatilidade dos ativos brasileiros é um fato político novo", alerta o cientista político Carlos Melo, professor do Ibmec-SP.
Tarefa urgente
"Enquanto reinava apenas o otimismo, havia um brutal desinteresse pela política do país. Tenho dúvida de que será assim daqui para frente. É óbvio que o mercado está interessado no resultado do superávit primário, mas isso vale mais para um estrangeiro do que para um investidor local. Quem tem interesse no Brasil percebeu, nos últimos dias, que o País tem, sim, problemas de infra-estrutura, de investimentos insuficientes e carga tributária excessiva."
O professor pondera que o Congresso volta ao trabalho com a urgente tarefa de votar a prorrogação da CPMF, que expira no fim do ano, ao mesmo tempo em que o governo tende a ser cobrado pelo encaminhamento de uma agenda econômica que não avançou além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Corte e costura
"O mercado é leniente quando os negócios vão bem, mas tende a ficar mais atento, principalmente se as condições do cenário externo continuarem a se deteriorar e isso pode ser bom ou ruim. É ruim se o momento despertar desalento quanto às perspectivas para o País. É bom se o presidente Lula se sentir pressionado, parar de comemorar a reeleição e cobrar para valer avanços na área econômica", comenta Melo. Ele entende que o mercado vai dirigir "um olhar mais crítico" ao governo, que enfrentará desafios a curto prazo.
"É premente a costura das alianças no Congresso porque ela não se deu completamente e o processo tornou-se mais lento nos últimos meses... A maior prova disso é o atraso na aprovação de medidas como a prorrogação da CPMF", diz.
"Temos ainda a crise Renan Calheiros, que é presidente do Senado e do Congresso mas também é poderoso aliado do governo. A CPI do apagão aéreo é outro alvo a ser monitorado porque poderá ser fortalecida após os acontecimentos recentes."
Verdade insuficiente
Carlos Melo concorda com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que alertou, na quinta-feira, para o fato de o Brasil estar resistente às crises externas por ter fundamentos econômicos mais sólidos.
"É verdade, mas insuficiente", diz Melo. "O Brasil vai ter que provar que tem qualidade e não apenas preço atraente para investidores estrangeiros ou não... e, nesse contexto, acredito que o presidente Lula -- com tendência a tomar decisões pragmáticas na hora do sufoco e da aflição -- acabará dando um aperto na equipe econômica para garantir resultados e resistência ainda maior às turbulências."
Edgard Pereira, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e professor da Unicamp, alerta para os movimentos especulativos que sacudiram os mercados nos últimos dias e se concentra no risco Brasil. "O salto do risco-País confirma que estamos no mesmo barco de todos os países emergentes, mesmo a caminho do grau de investimento e tendo bons fundamentos, além da forte proteção exercida pelo elevado estoque de reservas internacionais."
Gostar não é casar
Pereira explica que o Brasil é bem sensível aos movimentos do mercado financeiro internacional, dada a combinação de juro ainda muito alto e câmbio apreciado.
De janeiro a junho, cita o professor da Unicamp, as transações correntes tiveram saldo da ordem de US$ 4 bilhões, sendo que a conta de capital apresentou saldo de US$ 59 bilhões --propiciada por investidores estrangeiros.
"Esses investidores olham para o mercado internacional e avaliam perspectivas de ganho. Eles fazem uma leitura fria de dados. Procuram avaliar quanto de Brasil cabe no portfólio, mas isso não significa ""casar"" com o Brasil..., e vendem suas posições se for a opção para não ter perda e ter lucro."
Pereira explica que o quadro internacional já é de alta liquidez há algum tempo, incentivando a busca de retornos mais atraentes em um cenário de baixo risco.
Os ativos referenciais, neste caso, são as moedas e os mercados emergentes. "No entanto, a alta persistente dos ativos amplia o temor quanto ao final do processo de alta... o que é típico de movimentos especulativos, que só estão concluídos quando ganhos são realizados", diz o professor.
Estalo virá dos EUA
O professor da Unicamp explica que a turbulência dos mercados vista nos últimos dias indica que um contingente de investidores concluiu que era hora de "realizar lucro".
"Esses movimentos levam a grandes perdas e muitos fundos acabam comprando ativos, promovendo operações de contenção de perdas... E a volatilidade ampliada resulta de vendas e da iniciativa de autopreservação do próprio mercado", acredita.
A variável de "última instância para o consenso de realização" é a economia mundial e, sobretudo, a norte-americana.
"Quando a economia americana iniciar uma desaceleração prolongada, ninguém vai segurar os mercados. Todos os ativos e expectativas serão ajustados em novo patamar."
Agenda da semana
Segunda-feira - Relatório Focus, balança comercial (4 semana julho), IGP-M (julho), Tesouro divulga resultado primário do governo central (junho);
Terça-feira - BC divulga resultado primário consolidado (junho), Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulga Sondagem da Indústria (julho);
Quarta-feira - IPC-S (julho), balança comercial (julho), Associação Comercial de São Paulo (ACSP) divulga indicadores de inadimplência e crédito (julho);
Quinta-feira - sem indicadores previstos;
Sexta-feira - IPC-Fipe (julho), IBGE divulga produção industrial (junho).
kicker: O Brasil vai ter que provar que tem qualidade e não apenas preço atraente para investidores estrangeiros. 

Gazeta Mercantil

As férias escolares terminam e o recesso parlamentar também. Executivos financeiros e o Congresso voltam ao trabalho e vão dar de cara com um novo cenário, representado pela troca de comando no Ministério da Defesa e um agitado e arisco mercado financeiro.
Forte movimento de realização de lucros nos mercados internacionais tiraram da rota os principais indicadores monitorados, aqui e lá fora, por tesoureiros, economistas e formuladores de política econômica.
"Se o salto de quase 40% do risco Brasil em cerca de dez dias foi apenas um solavanco, o tempo dirá. É inegável, porém, que a intensa volatilidade dos ativos brasileiros é um fato político novo", alerta o cientista político Carlos Melo, professor do Ibmec-SP.
Tarefa urgente
"Enquanto reinava apenas o otimismo, havia um brutal desinteresse pela política do país. Tenho dúvida de que será assim daqui para frente. É óbvio que o mercado está interessado no resultado do superávit primário, mas isso vale mais para um estrangeiro do que para um investidor local. Quem tem interesse no Brasil percebeu, nos últimos dias, que o País tem, sim, problemas de infra-estrutura, de investimentos insuficientes e carga tributária excessiva."
O professor pondera que o Congresso volta ao trabalho com a urgente tarefa de votar a prorrogação da CPMF, que expira no fim do ano, ao mesmo tempo em que o governo tende a ser cobrado pelo encaminhamento de uma agenda econômica que não avançou além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Corte e costura
"O mercado é leniente quando os negócios vão bem, mas tende a ficar mais atento, principalmente se as condições do cenário externo continuarem a se deteriorar e isso pode ser bom ou ruim. É ruim se o momento despertar desalento quanto às perspectivas para o País. É bom se o presidente Lula se sentir pressionado, parar de comemorar a reeleição e cobrar para valer avanços na área econômica", comenta Melo. Ele entende que o mercado vai dirigir "um olhar mais crítico" ao governo, que enfrentará desafios a curto prazo.
"É premente a costura das alianças no Congresso porque ela não se deu completamente e o processo tornou-se mais lento nos últimos meses... A maior prova disso é o atraso na aprovação de medidas como a prorrogação da CPMF", diz.
"Temos ainda a crise Renan Calheiros, que é presidente do Senado e do Congresso mas também é poderoso aliado do governo. A CPI do apagão aéreo é outro alvo a ser monitorado porque poderá ser fortalecida após os acontecimentos recentes."
Verdade insuficiente
Carlos Melo concorda com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que alertou, na quinta-feira, para o fato de o Brasil estar resistente às crises externas por ter fundamentos econômicos mais sólidos.
"É verdade, mas insuficiente", diz Melo. "O Brasil vai ter que provar que tem qualidade e não apenas preço atraente para investidores estrangeiros ou não... e, nesse contexto, acredito que o presidente Lula -- com tendência a tomar decisões pragmáticas na hora do sufoco e da aflição -- acabará dando um aperto na equipe econômica para garantir resultados e resistência ainda maior às turbulências."
Edgard Pereira, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e professor da Unicamp, alerta para os movimentos especulativos que sacudiram os mercados nos últimos dias e se concentra no risco Brasil. "O salto do risco-País confirma que estamos no mesmo barco de todos os países emergentes, mesmo a caminho do grau de investimento e tendo bons fundamentos, além da forte proteção exercida pelo elevado estoque de reservas internacionais."
Gostar não é casar
Pereira explica que o Brasil é bem sensível aos movimentos do mercado financeiro internacional, dada a combinação de juro ainda muito alto e câmbio apreciado.
De janeiro a junho, cita o professor da Unicamp, as transações correntes tiveram saldo da ordem de US$ 4 bilhões, sendo que a conta de capital apresentou saldo de US$ 59 bilhões --propiciada por investidores estrangeiros.
"Esses investidores olham para o mercado internacional e avaliam perspectivas de ganho. Eles fazem uma leitura fria de dados. Procuram avaliar quanto de Brasil cabe no portfólio, mas isso não significa ""casar"" com o Brasil..., e vendem suas posições se for a opção para não ter perda e ter lucro."
Pereira explica que o quadro internacional já é de alta liquidez há algum tempo, incentivando a busca de retornos mais atraentes em um cenário de baixo risco.
Os ativos referenciais, neste caso, são as moedas e os mercados emergentes. "No entanto, a alta persistente dos ativos amplia o temor quanto ao final do processo de alta... o que é típico de movimentos especulativos, que só estão concluídos quando ganhos são realizados", diz o professor.
Estalo virá dos EUA
O professor da Unicamp explica que a turbulência dos mercados vista nos últimos dias indica que um contingente de investidores concluiu que era hora de "realizar lucro".
"Esses movimentos levam a grandes perdas e muitos fundos acabam comprando ativos, promovendo operações de contenção de perdas... E a volatilidade ampliada resulta de vendas e da iniciativa de autopreservação do próprio mercado", acredita.
A variável de "última instância para o consenso de realização" é a economia mundial e, sobretudo, a norte-americana.
"Quando a economia americana iniciar uma desaceleração prolongada, ninguém vai segurar os mercados. Todos os ativos e expectativas serão ajustados em novo patamar."
Agenda da semana
Segunda-feira - Relatório Focus, balança comercial (4 semana julho), IGP-M (julho), Tesouro divulga resultado primário do governo central (junho);
Terça-feira - BC divulga resultado primário consolidado (junho), Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulga Sondagem da Indústria (julho);
Quarta-feira - IPC-S (julho), balança comercial (julho), Associação Comercial de São Paulo (ACSP) divulga indicadores de inadimplência e crédito (julho);
Quinta-feira - sem indicadores previstos;
Sexta-feira - IPC-Fipe (julho), IBGE divulga produção industrial (junho).
kicker: O Brasil vai ter que provar que tem qualidade e não apenas preço atraente para investidores estrangeiros.