antigas Publicado: 14/09/2007 | 09:38

O Brasil que ainda crê na ética protesta

Gustavo Krieger e Leandro Colon
Correio Braziliense

Sentido-se fortalecido depois da absolvição, Renan Calheiros resiste a pressões e diz que fica na Presidência do Senado. Fora do Congresso, protestos

Apesar dos apelos do governo e dos aliados, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), continua resistindo à pressão para deixar o cargo. Ele não aceita discutir nem a renúncia nem uma licença temporária. Um dia depois de ser absolvido pelo plenário, disse a aliados que sente-se fortalecido pelo resultado. Diante de sua resistência, aliados como Roseana Sarney (PMDB-MA) tentam articular uma saída alternativa. Querem que ele tire férias de pelo menos duas semanas. Seria uma maneira de desanuviar o clima no Senado. Até ontem, o peemedebista descartava até mesmo essa idéia.

A defesa do afastamento de Renan é quase uma unanimidade. A idéia agrada ao Palácio do Planalto, que gostaria de ver o Senado pacificado antes da votação da emenda constitucional que prorroga a CPMF. Também atrai os aliados de Renan, cansados do desgaste de fazer sua defesa diária. “Vou sugerir que ele tire férias, até por uma questão humanitária”, diz a líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney (PMDB-MA). “Minha opinião é que ele deveria se licenciar, mas esse é um direito dele”, diz Aloizio Mercadante (PT-SP).

O problema é que ninguém convence o presidente do Senado. Em conversas reservadas, ele diz que qualquer afastamento criaria um “vácuo político” a ser aproveitado por seus adversários. Credita boa parte de sua vitória ao fato de ter se mantido no comando do Congresso. Avalia que o cargo lhe dá força política e garante a interlocução permanente com o Palácio do Planalto.

Ontem, quando ele chegou ao Senado, um repórter perguntou se a palavra licença poderia entrar em seu vocabulário. Renan respondeu irritado. “Pode sim. Dê licença que eu quero passar”. E seguiu em frente. Mais cedo, em uma entrevista à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, já tinha sido enfático. “Não pensei sobre isso (licença), absolutamente”. Para ele, a absolvição em plenário foi uma espécie de reeleição. “Não deixa de ser uma renovação da confiança da Casa em seu presidente”. Contabilizando a seu favor os 40 votos pela absolvição e as seis abstenções, diz ter o apoio de 46 senadores. Diz que seu próprio voto foi uma abstenção. “Fui eleito com 51 votos. Depois de 100 dias de uma campanha absurda contra mim na mídia só perdi cinco votos. Se eu não tiver condições de presidir o Senado, quem é que vai ter nesse quadro de absoluta divisão?”, questionou.

A entrevista revelou um Renan ainda amargo, apesar da vitória. Ele queixou-se muito da imprensa. “Me calei porque eu dizia uma coisa e publicavam outra”, reclamou. Disse que o voto da oposição contra ele faz parte de uma disputa política. “Desde o início ficou claro que o importante era substituir o presidente do Senado. Recebi propostas de diversos interlocutores, mas deixar a Presidência seria admitir a culpa”.

Renan está preocupado em reabrir os canais de comunicação com os partidos e manter a pauta do Senado em andamento. Em sua contabilidade, teve votos nas bancadas do DEM e do PSDB. Aposta nesses aliados para abrir pontes com a oposição. Prometeu ao Palácio do Planalto e aos outros líderes que seu caso não atrapalhará a agenda do governo. Até aqui, ele conseguiu. Apesar dos protestos da oposição, todos os projetos de interesse do Planalto foram votados. A grande preocupação é com a CPMF, que por ser uma emenda constitucional precisa ser aprovada por três quintos dos senadores. “O clima é tenso”, reconhece o vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC). “Há muito ressentimento e isso pode atrapalhar a CPMF”.

Rebeldia
Mesmo depois do julgamento de Renan, alguns parlamentares da bancada governista continuam atuando junto da oposição na frente pela cassação. Eles ameaçam boicotar votações como um sinal de protesto. Roseana Sarney diz que o Planalto quer pôr limites nessa rebeldia. “Eles estão contra o Renan ou contra o governo? Votações como a CPMF não são do Renan. São do governo”.

Os planos do senador alagoano ontem eram de passar o dia em casa. Ele dormiu mal à noite. Pegou no sono novamente pela manhã e só acordou às 13h. Mudou de idéia e decidiu ir ao Senado ao ver que a sessão da tarde tornara-se um desfile de discursos contra sua absolvição. Ele entrou no plenário no momento em que a tribuna era ocupada por Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos senadores que votaram pela cassação. O pedetista pediu a Renan que renunciasse à Presidência. Sem olhar para ele, Renan respondeu com uma frase irônica. “A democracia é bela porque permite momentos como esse”, limitou-se a dizer.

Pela manhã, diante do Congresso, dois manifestantes vestidos de presidiários protestaram contra a absolvição. Sandro Soares e Eder Teixeira, moradores de Brasília, estenderam uma faixa que dizia “Que vergonha, senadores”. Os dois manifestantes disseram estar revoltados com a decisão do plenário do Senado e que todos deveriam protestar. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, compartilhou da mesma opinião. “Quando o Senado não respeita o ponto de vista do soberano, o povo, com um resultado que não agrada, ele fica com a imagem comprometida.” Para o presidente da Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR), Antonio Carlos Bigonha, o “Senado perdeu a chance de ser mais transparente e agiu na contramão da postura democrática das demais instituições brasileiras. Isso mancha a imagem do poder público como um todo.”

Sem sair da cadeira

De imediato, a absolvição de Renan Calheiros (PMDB-AL), no Senado, provocou uma rápida mudança: não se fala mais em sucessão na cadeira de presidente da Casa. Se até quarta-feira pela manhã discutia-se o nome de seu substituto, a conversa agora é outra. No máximo, uma licença temporária, ou até mesmo férias por alguns dias. Nada além disso. E, claro, se Renan topar. O que nenhum amigo próximo aposta neste momento.

Embora desgastado, o presidente do Senado conseguiu, por enquanto, estancar qualquer especulação em torno de seu substituto. Demonstrou que tem força no plenário, nem que seja por meio de ameaças veladas ou até mesmo diretas. E aposta nessa força para se recompor e ficar no cargo.

Não teve, por exemplo, qualquer pudor político de telefonar ontem aos senadores que votaram por sua cassação. Tem amigos na base aliada e na oposição. Amigos que, sob a proteção do voto secreto, não o abandonaram.

A oposição sofreu uma derrota no plenário. Não admite publicamente, mas sabe disso. E não tem forças no momento para manter Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) ou qualquer outro nome como candidato para o lugar de Renan. DEM e PSDB precisam juntar os cacos, recuperar o fôlego e encontrar alguma estratégia para retomar a artilharia contra ele. Caso contrário, terão que engoli-lo na Presidência. (LC)

Gustavo Krieger e Leandro Colon
Correio Braziliense

Sentido-se fortalecido depois da absolvição, Renan Calheiros resiste a pressões e diz que fica na Presidência do Senado. Fora do Congresso, protestos

Apesar dos apelos do governo e dos aliados, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), continua resistindo à pressão para deixar o cargo. Ele não aceita discutir nem a renúncia nem uma licença temporária. Um dia depois de ser absolvido pelo plenário, disse a aliados que sente-se fortalecido pelo resultado. Diante de sua resistência, aliados como Roseana Sarney (PMDB-MA) tentam articular uma saída alternativa. Querem que ele tire férias de pelo menos duas semanas. Seria uma maneira de desanuviar o clima no Senado. Até ontem, o peemedebista descartava até mesmo essa idéia.

A defesa do afastamento de Renan é quase uma unanimidade. A idéia agrada ao Palácio do Planalto, que gostaria de ver o Senado pacificado antes da votação da emenda constitucional que prorroga a CPMF. Também atrai os aliados de Renan, cansados do desgaste de fazer sua defesa diária. “Vou sugerir que ele tire férias, até por uma questão humanitária”, diz a líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney (PMDB-MA). “Minha opinião é que ele deveria se licenciar, mas esse é um direito dele”, diz Aloizio Mercadante (PT-SP).

O problema é que ninguém convence o presidente do Senado. Em conversas reservadas, ele diz que qualquer afastamento criaria um “vácuo político” a ser aproveitado por seus adversários. Credita boa parte de sua vitória ao fato de ter se mantido no comando do Congresso. Avalia que o cargo lhe dá força política e garante a interlocução permanente com o Palácio do Planalto.

Ontem, quando ele chegou ao Senado, um repórter perguntou se a palavra licença poderia entrar em seu vocabulário. Renan respondeu irritado. “Pode sim. Dê licença que eu quero passar”. E seguiu em frente. Mais cedo, em uma entrevista à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, já tinha sido enfático. “Não pensei sobre isso (licença), absolutamente”. Para ele, a absolvição em plenário foi uma espécie de reeleição. “Não deixa de ser uma renovação da confiança da Casa em seu presidente”. Contabilizando a seu favor os 40 votos pela absolvição e as seis abstenções, diz ter o apoio de 46 senadores. Diz que seu próprio voto foi uma abstenção. “Fui eleito com 51 votos. Depois de 100 dias de uma campanha absurda contra mim na mídia só perdi cinco votos. Se eu não tiver condições de presidir o Senado, quem é que vai ter nesse quadro de absoluta divisão?”, questionou.

A entrevista revelou um Renan ainda amargo, apesar da vitória. Ele queixou-se muito da imprensa. “Me calei porque eu dizia uma coisa e publicavam outra”, reclamou. Disse que o voto da oposição contra ele faz parte de uma disputa política. “Desde o início ficou claro que o importante era substituir o presidente do Senado. Recebi propostas de diversos interlocutores, mas deixar a Presidência seria admitir a culpa”.

Renan está preocupado em reabrir os canais de comunicação com os partidos e manter a pauta do Senado em andamento. Em sua contabilidade, teve votos nas bancadas do DEM e do PSDB. Aposta nesses aliados para abrir pontes com a oposição. Prometeu ao Palácio do Planalto e aos outros líderes que seu caso não atrapalhará a agenda do governo. Até aqui, ele conseguiu. Apesar dos protestos da oposição, todos os projetos de interesse do Planalto foram votados. A grande preocupação é com a CPMF, que por ser uma emenda constitucional precisa ser aprovada por três quintos dos senadores. “O clima é tenso”, reconhece o vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC). “Há muito ressentimento e isso pode atrapalhar a CPMF”.

Rebeldia
Mesmo depois do julgamento de Renan, alguns parlamentares da bancada governista continuam atuando junto da oposição na frente pela cassação. Eles ameaçam boicotar votações como um sinal de protesto. Roseana Sarney diz que o Planalto quer pôr limites nessa rebeldia. “Eles estão contra o Renan ou contra o governo? Votações como a CPMF não são do Renan. São do governo”.

Os planos do senador alagoano ontem eram de passar o dia em casa. Ele dormiu mal à noite. Pegou no sono novamente pela manhã e só acordou às 13h. Mudou de idéia e decidiu ir ao Senado ao ver que a sessão da tarde tornara-se um desfile de discursos contra sua absolvição. Ele entrou no plenário no momento em que a tribuna era ocupada por Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos senadores que votaram pela cassação. O pedetista pediu a Renan que renunciasse à Presidência. Sem olhar para ele, Renan respondeu com uma frase irônica. “A democracia é bela porque permite momentos como esse”, limitou-se a dizer.

Pela manhã, diante do Congresso, dois manifestantes vestidos de presidiários protestaram contra a absolvição. Sandro Soares e Eder Teixeira, moradores de Brasília, estenderam uma faixa que dizia “Que vergonha, senadores”. Os dois manifestantes disseram estar revoltados com a decisão do plenário do Senado e que todos deveriam protestar. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, compartilhou da mesma opinião. “Quando o Senado não respeita o ponto de vista do soberano, o povo, com um resultado que não agrada, ele fica com a imagem comprometida.” Para o presidente da Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR), Antonio Carlos Bigonha, o “Senado perdeu a chance de ser mais transparente e agiu na contramão da postura democrática das demais instituições brasileiras. Isso mancha a imagem do poder público como um todo.”

Sem sair da cadeira

De imediato, a absolvição de Renan Calheiros (PMDB-AL), no Senado, provocou uma rápida mudança: não se fala mais em sucessão na cadeira de presidente da Casa. Se até quarta-feira pela manhã discutia-se o nome de seu substituto, a conversa agora é outra. No máximo, uma licença temporária, ou até mesmo férias por alguns dias. Nada além disso. E, claro, se Renan topar. O que nenhum amigo próximo aposta neste momento.

Embora desgastado, o presidente do Senado conseguiu, por enquanto, estancar qualquer especulação em torno de seu substituto. Demonstrou que tem força no plenário, nem que seja por meio de ameaças veladas ou até mesmo diretas. E aposta nessa força para se recompor e ficar no cargo.

Não teve, por exemplo, qualquer pudor político de telefonar ontem aos senadores que votaram por sua cassação. Tem amigos na base aliada e na oposição. Amigos que, sob a proteção do voto secreto, não o abandonaram.

A oposição sofreu uma derrota no plenário. Não admite publicamente, mas sabe disso. E não tem forças no momento para manter Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) ou qualquer outro nome como candidato para o lugar de Renan. DEM e PSDB precisam juntar os cacos, recuperar o fôlego e encontrar alguma estratégia para retomar a artilharia contra ele. Caso contrário, terão que engoli-lo na Presidência. (LC)