antigas
Publicado: 20/09/2007 | 11:04
A nova xerife da Anac
Leonel Rocha
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Ministro da Defesa indica a economista Solange Vieira para comandar o órgão regulador da aviação civil. Atual presidente da agência, Milton Zuanazzi anunciou que não pretende deixar o cargo. Ele é do PT
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, recomendou ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação da economista Solange Vieira para a direção da Agência Nacional de Aviação Civil(Anac), com o objetivo de transformá-la em presidente do órgão regulador. Jobim avisou a vários parlamentares que o visitaram esta semana da sua intenção de substituir o atual presidente da agência, Milton Zuanazzi. O ministro teme que a crise aérea seja sempre lembrada se o dirigente continuar à frente do órgão. Mas admite mantê-lo na diretoria. Zuanazzi garantiu a amigos e assessores que não vai pedir afastamento nem renunciar ao mandato, cujo prazo legal expira em 2011, quando completará cinco anos.
A agência está funcionando burocraticamente, com apenas dois diretores, sem o número mínimo exigido por lei para tomar decisões importantes sobre a aviação civil. Além de Zuanazzi, ficou na diretoria Jorge Barat, um dos primeiros a renunciar — chegou a apresentar uma carta, mas ficou no cargo a pedido de Jobim, preocupado com a possibilidade de a agência ficar acéfala. Depois da renúncia dos antigos diretores Denise Abreu, Leur Lomanto e o brigadeiro Jorge Velozo, que deixaram a agência em função da crise e dos dois acidentes aéreos, o ministro quer trocar toda a diretoria. Mas está difícil. Sendo do PMDB e um dos nomes cotados do partido para suceder Lula, Jobim esbarrou na força de Zuanazzi junto ao PT gaúcho (leia ao lado).
Solange Vieira é economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma das mais importantes assessoras de Jobim. Com fama de boa administradora e mão-de-ferro, será os olhos e ouvidos do ministro na Anac. Se o seu nome for indicado ao
Legislativo por Lula, será sabatinada e sua posse dependerá apenas da confirmação pelo Senado. Fontes do governo garantem que, além do apoio de Jobim, Solange também leva para a Anac a simpatia e a retaguarda técnica do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.
Estratégia
Se a economista for confirmada, Lula pode destituir Zuanazzi da presidência da agência e transferi-lo para uma das outras diretorias – Infra-Estrutura Aeroportuária, Segurança Operacional, Investigação e Prevenção de Acidentes e Serviços Aéreos e Relações com o Usuário. Jobim articula no Palácio do Planalto a abertura de um inquérito administrativo para criar um pretexto e pedir a renúncia de Zuanazzi. O seu nome chegou a ser cogitado para presidir a Embratur, a estatal do turismo. Mas ele já mandou dizer que vai enfrentar todos os inquéritos, porque não se considera culpado pela crise aérea.
No cargo atual de assessora especial do ministro da Defesa, Solange se aproximou dos militares e reforçou seu prestígio junto a Jobim. Por ter sido secretária de Previdência Complementar no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, terá apoio da bancada tucana na sabatina da Comissão de Infra-Estrutura no Senado. O brigadeiro Allemander Pereira Filho, indicado na semana passada pelo Palácio do Planalto para a diretoria da Anac, também aguarda ter seu nome submetido ao Congresso.
Os senadores pretendem inquirir o brigadeiro sobre sua participação na elaboração do business plan (plano de negócios) da Gol enquanto era coronel da ativa da Força Aérea Brasileira. Promovido a brigadeiro, foi para a reserva com duas estrelas, desgastado com a acusação de ter trabalhado indevidamente para uma companhia aérea enquanto era oficial da ativa. Jobim está com dificuldades para encontrar nomes que aceitem comandar a Anac. Foi isso que o levou a abrir mão da assessoria direta de Solange Vieira. Ainda falta mais uma indicação para a agência.
O número
2011
é o prazo legal para o fim do mandato de Milton Zuanazzi, presidente da Agência Nacional de Aviação Civil
O número
1 vaga
na diretoria da Anac ainda não foi preenchida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. Ele não encontra nomes
Análise da notícia
Uma briga de gaúchos
A crise aérea que se arrasta desde o final do ano passado gerou um explosivo subproduto político. Trata-se da disputa pelo poder no Rio Grande do Sul que começou com a nomeação do gaúcho Nelson Jobim para o Ministério da Defesa e sua insistência em substituir toda a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil( Anac). Na mira de Jobim está o gaúcho Milton Zuanazzi, que é presidente da Anac. Afilhado político da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, de quem foi assessor quando ela era secretária de Minas e Energia no governo de Olívio Dutra, ele tem o apoio do vice-líder do governo no Congresso, deputado Henrique Fontana (PR-RS). E resiste a renunciar ao mandato.
O presidente da Anac conta, ainda, com a ajuda de dois ministros palacianos, interlocutores diretos de Lula: o gaúcho Tarso Genro (Justiça) e o mineiro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais). Com essa tropa do seu lado, Zuanazzi mandou avisar a Jobim que não renuncia ao mandato. O máximo de espaço que pretende ceder é a presidência da agência, desde que seja transferido para uma das diretorias. Mas sem humilhação. A cúpula petista gaúcha, incluindo o ex-governador e ex-ministro das Cidades Olívio Dutra, amigo pessoal de Lula, teme ceder espaço para Jobim que tem aspirações a concorrer à Presidência da República.
Para conseguir substituir Zuanazzi, Jobim terá que se desgastar junto a Lula porque a mudança do comando de uma agência reguladora depende da vontade do Planalto. Os petistas já cederam a cabeça da ex-diretora da Anac Denise Abreu, que renunciou no mês passado, e não estão dispostos a ceder mais espaço. Consideram que já bastam as vítimas políticas feitas na legenda. O discurso de defesa de Zuanazzi é que a diretoria da agência está sendo sacrificada e apontada como responsável pelo caos aéreo. (LR)
As falhas no acidente com o Airbus
Contratado pela CPI do Apagão Aéreo da Câmara para analisar as duas caixas-pretas do Airbus da TAM que explodiu após chocar-se com o prédio da empresa aérea, nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, o coronel Antônio Junqueira concluiu que se a pista fosse mais extensa, o acidente que matou 199 pessoas, em 17 de julho, poderia ter sido evitado.
Ex-diretor do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira, Antônio Junqueira afirmou que a pista principal de Congonhas é muito curta para aeronaves de grande porte. Ele afirmou que se houvesse mais 1.278m de pista, o avião da TAM, mesmo com problema num dos reversos, não teria explodido. A pista principal do Aeroporto de Congonhas só tem 1.940m.
A partir de gráficos feitos com os dados da caixa-preta da aeronave, Junqueira apontou que o piloto do Airbus só pisou no freio nove segundos após ter tocado na pista. Essa demora em acionar o pedal fez o avião avançar 630m de pista sem sinais de frenagem. Para evitar o acidente, a pista do terminal teria que ter uma extensão total de 3.218m. “Naquela situação de pouso, com pista molhada, o avião a 200km/h e pesando 63t, só haveria condições de pousar em Cumbica (Guarulhos), em Viracopos (Campinas), no Galeão (Rio) ou no Aeroporto de Brasília”, afirmou Junqueira.
Para o especialista, a demora do piloto se deveu à aposta de que o freio automático iria funcionar, uma vez que nem ele nem o co-piloto teriam visto que os manetes da aeronave estavam em posições diferentes. Enquanto o manete direito estava na posição idle (ponto morto), o outro estava em climb (aceleração). Na avaliação do coronel, no momento em que um dos pilotos disse “vira, vira”, já no fim da pista, estava sugerindo uma guinada para a esquerda, em uma tentativa de dar um “cavalo de pau” e frear a aeronave.
Ao apresentar suas conclusões, contudo, o coronel responsabilizou a Airbus por não ter sido categórica no boletim aos pilotos sobre o posicionamento correto dos manetes. A empresa avisou, no final do ano passado, que essa posição seria apenas “desejável”, e não obrigatória. “É injustificável que a Airbus tenha sido tão condecendente, mesmo depois de terem ocorridos dois acidentes semelhantes ao da TAM, em Taiwan e Filipinas”, disse. Para o coronel, a TAM também teria falhado ao não ter sido mais contundente e exigido dos pilotos que cumprissem a diretriz do boletim.
Junqueira defendeu que as mesmas restrições que hoje valem para o Aeroporto de Santos Dumont, no Rio, sejam aplicadas em Congonhas. No aeroporto carioca, é proibido o pouso de aeronave com reverso pinado (com problemas) quando a pista está molhada.
Leonel Rocha
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Ministro da Defesa indica a economista Solange Vieira para comandar o órgão regulador da aviação civil. Atual presidente da agência, Milton Zuanazzi anunciou que não pretende deixar o cargo. Ele é do PT
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, recomendou ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação da economista Solange Vieira para a direção da Agência Nacional de Aviação Civil(Anac), com o objetivo de transformá-la em presidente do órgão regulador. Jobim avisou a vários parlamentares que o visitaram esta semana da sua intenção de substituir o atual presidente da agência, Milton Zuanazzi. O ministro teme que a crise aérea seja sempre lembrada se o dirigente continuar à frente do órgão. Mas admite mantê-lo na diretoria. Zuanazzi garantiu a amigos e assessores que não vai pedir afastamento nem renunciar ao mandato, cujo prazo legal expira em 2011, quando completará cinco anos.
A agência está funcionando burocraticamente, com apenas dois diretores, sem o número mínimo exigido por lei para tomar decisões importantes sobre a aviação civil. Além de Zuanazzi, ficou na diretoria Jorge Barat, um dos primeiros a renunciar — chegou a apresentar uma carta, mas ficou no cargo a pedido de Jobim, preocupado com a possibilidade de a agência ficar acéfala. Depois da renúncia dos antigos diretores Denise Abreu, Leur Lomanto e o brigadeiro Jorge Velozo, que deixaram a agência em função da crise e dos dois acidentes aéreos, o ministro quer trocar toda a diretoria. Mas está difícil. Sendo do PMDB e um dos nomes cotados do partido para suceder Lula, Jobim esbarrou na força de Zuanazzi junto ao PT gaúcho (leia ao lado).
Solange Vieira é economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma das mais importantes assessoras de Jobim. Com fama de boa administradora e mão-de-ferro, será os olhos e ouvidos do ministro na Anac. Se o seu nome for indicado ao
Legislativo por Lula, será sabatinada e sua posse dependerá apenas da confirmação pelo Senado. Fontes do governo garantem que, além do apoio de Jobim, Solange também leva para a Anac a simpatia e a retaguarda técnica do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.
Estratégia
Se a economista for confirmada, Lula pode destituir Zuanazzi da presidência da agência e transferi-lo para uma das outras diretorias – Infra-Estrutura Aeroportuária, Segurança Operacional, Investigação e Prevenção de Acidentes e Serviços Aéreos e Relações com o Usuário. Jobim articula no Palácio do Planalto a abertura de um inquérito administrativo para criar um pretexto e pedir a renúncia de Zuanazzi. O seu nome chegou a ser cogitado para presidir a Embratur, a estatal do turismo. Mas ele já mandou dizer que vai enfrentar todos os inquéritos, porque não se considera culpado pela crise aérea.
No cargo atual de assessora especial do ministro da Defesa, Solange se aproximou dos militares e reforçou seu prestígio junto a Jobim. Por ter sido secretária de Previdência Complementar no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, terá apoio da bancada tucana na sabatina da Comissão de Infra-Estrutura no Senado. O brigadeiro Allemander Pereira Filho, indicado na semana passada pelo Palácio do Planalto para a diretoria da Anac, também aguarda ter seu nome submetido ao Congresso.
Os senadores pretendem inquirir o brigadeiro sobre sua participação na elaboração do business plan (plano de negócios) da Gol enquanto era coronel da ativa da Força Aérea Brasileira. Promovido a brigadeiro, foi para a reserva com duas estrelas, desgastado com a acusação de ter trabalhado indevidamente para uma companhia aérea enquanto era oficial da ativa. Jobim está com dificuldades para encontrar nomes que aceitem comandar a Anac. Foi isso que o levou a abrir mão da assessoria direta de Solange Vieira. Ainda falta mais uma indicação para a agência.
O número
2011
é o prazo legal para o fim do mandato de Milton Zuanazzi, presidente da Agência Nacional de Aviação Civil
O número
1 vaga
na diretoria da Anac ainda não foi preenchida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. Ele não encontra nomes
Análise da notícia
Uma briga de gaúchos
A crise aérea que se arrasta desde o final do ano passado gerou um explosivo subproduto político. Trata-se da disputa pelo poder no Rio Grande do Sul que começou com a nomeação do gaúcho Nelson Jobim para o Ministério da Defesa e sua insistência em substituir toda a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil( Anac). Na mira de Jobim está o gaúcho Milton Zuanazzi, que é presidente da Anac. Afilhado político da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, de quem foi assessor quando ela era secretária de Minas e Energia no governo de Olívio Dutra, ele tem o apoio do vice-líder do governo no Congresso, deputado Henrique Fontana (PR-RS). E resiste a renunciar ao mandato.
O presidente da Anac conta, ainda, com a ajuda de dois ministros palacianos, interlocutores diretos de Lula: o gaúcho Tarso Genro (Justiça) e o mineiro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais). Com essa tropa do seu lado, Zuanazzi mandou avisar a Jobim que não renuncia ao mandato. O máximo de espaço que pretende ceder é a presidência da agência, desde que seja transferido para uma das diretorias. Mas sem humilhação. A cúpula petista gaúcha, incluindo o ex-governador e ex-ministro das Cidades Olívio Dutra, amigo pessoal de Lula, teme ceder espaço para Jobim que tem aspirações a concorrer à Presidência da República.
Para conseguir substituir Zuanazzi, Jobim terá que se desgastar junto a Lula porque a mudança do comando de uma agência reguladora depende da vontade do Planalto. Os petistas já cederam a cabeça da ex-diretora da Anac Denise Abreu, que renunciou no mês passado, e não estão dispostos a ceder mais espaço. Consideram que já bastam as vítimas políticas feitas na legenda. O discurso de defesa de Zuanazzi é que a diretoria da agência está sendo sacrificada e apontada como responsável pelo caos aéreo. (LR)
As falhas no acidente com o Airbus
Contratado pela CPI do Apagão Aéreo da Câmara para analisar as duas caixas-pretas do Airbus da TAM que explodiu após chocar-se com o prédio da empresa aérea, nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, o coronel Antônio Junqueira concluiu que se a pista fosse mais extensa, o acidente que matou 199 pessoas, em 17 de julho, poderia ter sido evitado.
Ex-diretor do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira, Antônio Junqueira afirmou que a pista principal de Congonhas é muito curta para aeronaves de grande porte. Ele afirmou que se houvesse mais 1.278m de pista, o avião da TAM, mesmo com problema num dos reversos, não teria explodido. A pista principal do Aeroporto de Congonhas só tem 1.940m.
A partir de gráficos feitos com os dados da caixa-preta da aeronave, Junqueira apontou que o piloto do Airbus só pisou no freio nove segundos após ter tocado na pista. Essa demora em acionar o pedal fez o avião avançar 630m de pista sem sinais de frenagem. Para evitar o acidente, a pista do terminal teria que ter uma extensão total de 3.218m. “Naquela situação de pouso, com pista molhada, o avião a 200km/h e pesando 63t, só haveria condições de pousar em Cumbica (Guarulhos), em Viracopos (Campinas), no Galeão (Rio) ou no Aeroporto de Brasília”, afirmou Junqueira.
Para o especialista, a demora do piloto se deveu à aposta de que o freio automático iria funcionar, uma vez que nem ele nem o co-piloto teriam visto que os manetes da aeronave estavam em posições diferentes. Enquanto o manete direito estava na posição idle (ponto morto), o outro estava em climb (aceleração). Na avaliação do coronel, no momento em que um dos pilotos disse “vira, vira”, já no fim da pista, estava sugerindo uma guinada para a esquerda, em uma tentativa de dar um “cavalo de pau” e frear a aeronave.
Ao apresentar suas conclusões, contudo, o coronel responsabilizou a Airbus por não ter sido categórica no boletim aos pilotos sobre o posicionamento correto dos manetes. A empresa avisou, no final do ano passado, que essa posição seria apenas “desejável”, e não obrigatória. “É injustificável que a Airbus tenha sido tão condecendente, mesmo depois de terem ocorridos dois acidentes semelhantes ao da TAM, em Taiwan e Filipinas”, disse. Para o coronel, a TAM também teria falhado ao não ter sido mais contundente e exigido dos pilotos que cumprissem a diretriz do boletim.
Junqueira defendeu que as mesmas restrições que hoje valem para o Aeroporto de Santos Dumont, no Rio, sejam aplicadas em Congonhas. No aeroporto carioca, é proibido o pouso de aeronave com reverso pinado (com problemas) quando a pista está molhada.