antigas Publicado: 17/10/2007 | 10:03

Democracia virou detalhe

Artigo - João Claudio Garcia
Correio Braziliense

Pensei que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tivesse cometido mais uma gafe ao afirmar ontem, durante visita à República do Congo, que o país africano “ensina a construir uma democracia cada vez mais forte e na paz”. Tudo bem que o continente conquista aos poucos sua estabilidade política, deixando para trás conflitos históricos e melhorando a qualidade de vida, enquanto atrai mais investimentos estrangeiros. Mas é preciso lembrar o passado recente.

Denis Sassou-Nguesso, presidente congolês, assumiu o poder pela primeira vez depois de um golpe de Estado, em 1979. Voltou após uma guerra civil, em 1997, e venceu as eleições pouco democráticas e boicotadas por seus principais adversários em 2002. Na visita da véspera, a Burkina Faso, Lula já havia participado de um fórum sobre democracia e desenvolvimento. Paradoxalmente, o evento ocorreu no mesmo dia do aniversário do golpe de Estado que levou o presidente Blaise Compaoré ao governo. No mínimo, algo curioso.

Na prática, porém, não houve gafe. O problema é que o conceito de democracia mudou nos últimos anos, e hoje está em aberto. Cada um tem uma opinião sobre o que é ser democrático. Para o Planalto, Hugo Chávez é um grande democrata: basta recuperar a lista de inúmeros plebiscitos, referendos e eleições que já realizou. Ao mesmo tempo em que consideram autoritários os dirigentes de nações como Síria, Coréia do Norte e Zimbábue, os Estados Unidos são lenientes com outros governantes que tampouco toleram uma oposição atuante, como Hosni Mubarak (Egito) e Pervez Musharraf (Paquistão).

Neste seu segundo mandato, o presidente George W. Bush colocou como prioridade na política externa a promoção da democracia. Fracassou se a intenção era disseminar um modelo de alternância no governo e respeito à independência dos poderes. Na América do Sul, ganha força o movimento de reforma constitucional para permitir sucessivos mandatos presidenciais. Vladimir Putin acaba de divulgar seus planos para continuar dando as cartas na Rússia. A diplomacia brasileira evita dar palpite sobre reformas em regimes autoritários (como fazem os EUA). No entanto, também não precisa exagerar na cortesia.

Artigo - João Claudio Garcia
Correio Braziliense

Pensei que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tivesse cometido mais uma gafe ao afirmar ontem, durante visita à República do Congo, que o país africano “ensina a construir uma democracia cada vez mais forte e na paz”. Tudo bem que o continente conquista aos poucos sua estabilidade política, deixando para trás conflitos históricos e melhorando a qualidade de vida, enquanto atrai mais investimentos estrangeiros. Mas é preciso lembrar o passado recente.

Denis Sassou-Nguesso, presidente congolês, assumiu o poder pela primeira vez depois de um golpe de Estado, em 1979. Voltou após uma guerra civil, em 1997, e venceu as eleições pouco democráticas e boicotadas por seus principais adversários em 2002. Na visita da véspera, a Burkina Faso, Lula já havia participado de um fórum sobre democracia e desenvolvimento. Paradoxalmente, o evento ocorreu no mesmo dia do aniversário do golpe de Estado que levou o presidente Blaise Compaoré ao governo. No mínimo, algo curioso.

Na prática, porém, não houve gafe. O problema é que o conceito de democracia mudou nos últimos anos, e hoje está em aberto. Cada um tem uma opinião sobre o que é ser democrático. Para o Planalto, Hugo Chávez é um grande democrata: basta recuperar a lista de inúmeros plebiscitos, referendos e eleições que já realizou. Ao mesmo tempo em que consideram autoritários os dirigentes de nações como Síria, Coréia do Norte e Zimbábue, os Estados Unidos são lenientes com outros governantes que tampouco toleram uma oposição atuante, como Hosni Mubarak (Egito) e Pervez Musharraf (Paquistão).

Neste seu segundo mandato, o presidente George W. Bush colocou como prioridade na política externa a promoção da democracia. Fracassou se a intenção era disseminar um modelo de alternância no governo e respeito à independência dos poderes. Na América do Sul, ganha força o movimento de reforma constitucional para permitir sucessivos mandatos presidenciais. Vladimir Putin acaba de divulgar seus planos para continuar dando as cartas na Rússia. A diplomacia brasileira evita dar palpite sobre reformas em regimes autoritários (como fazem os EUA). No entanto, também não precisa exagerar na cortesia.