antigas Publicado: 19/10/2007 | 10:05

Diferença nos bolsos

Luciano Pires
Correio Braziliense

Pesquisa do Ipea mostra que, em média, setor privado paga salários melhores que o público. Mas variação entre maior e menor vencimento é grande nas empresas

Diante da polêmica sobre contratações e reajustes salariais no setor público, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou estudo que pode servir de justificativa para a política do governo. O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, criticou ferramentas adotadas pela iniciativa privada e defendeu o gasto público voltado ao custeio da folha de pessoal. Ele explicou que, em grande medida, as desigualdades do país estão relacionadas às distâncias entre os maiores e menores salários.

O levantamento baseou-se na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e constatou que o maior salário pago a um trabalhador privado chega a 1,7 mil vezes o menor. Já no setor público, a diferença é de 186 vezes. Entretanto, as empresas pagam melhor, e os governos gastariam 8,7% a mais para igualar os vencimentos.

Sob a coordenação de Pochmann, pesquisadores do Ipea calcularam as remunerações médias dos servidores e as compararam, levando em conta escolaridade, tempo de serviço e faixa etária, com o que acontece nas empresas. “Muitas vezes dizem que o governo aloca mal os recursos. No limite, quem aloca mal é o setor privado. Então vamos parar com essa conversa”, disse defendendo os gastos salariais da União.

No primeiro grupo avaliado, formado por trabalhadores com idade entre 25 e 59 anos, 12 anos de escolaridade e cinco anos ou mais no serviço, o salário médio privado, em 2006, foi 13,8% superior ao do público. Nesse segmento, os profissionais que desempenham funções ou ocupam cargos de direção são mais valorizados nas empresas, tendência que se inverte quando a análise aborda níveis técnico, administrativo e de serviços.

No segundo grupo, composto por trabalhadores de 25 a 59 anos, até oito anos de estudo e até cinco no empreendimento, o salário médio no setor privado, ano passado, foi 14,9% maior que o de um servidor. Novamente, nos cargos de dirigente, o setor público superou o privado. Em níveis técnico e de serviços, a prevalência foi dos salários da iniciativa privada. Nas empresas, a maior renda declarada foi de R$ 120 mil por mês e a menor, R$ 70. Na esfera estatal, o maior foi de R$ 28 mil e o menor, R$ 175.

Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a necessidade de contratar mais e pagar melhor seus funcionários. “Passam para a sociedade a idéia de que é possível fazer um choque de gestão diminuindo o número de pessoas que trabalham. Na verdade, choque é contratar mais gente qualificada e mais bem remunerada.” Só este ano, a estimativa do Executivo é gastar R$ 130 bilhões com a folha de pessoal.

Para o economista Amir Khair, a discussão sobre a burocracia de Estado está contaminada por ideologias. Isso tira o foco de questões centrais. “Existe falta de gestão em geral. Do ponto de vista gerencial, o setor privado gasta melhor porque há acompanhamento de desempenho e de promoção funcional”, disse.

O setor privado, no entanto, não deve servir de modelo, completou Khair. Segundo o especialista, há práticas ultrapassadas na gestão de recursos humanos que angustiam o trabalhador e impõem a pressão pelo medo de ser demitido ao menor sinal de incompetência ou dificuldade financeira da corporação.

análise da notícia
Avanços ainda são tímidos

Na ponta do lápis, funcionários do setor privado e servidores públicos sempre acham que ganham menos do que deveriam. É da natureza humana supervalorizar as qualidades e minimizar os próprios defeitos. No âmbito da burocracia, quem quer ganhar mais enfrenta a concorrência e se submete a concursos — mas pode simplesmente entrar em greve e pressionar o governante de plantão. Já os profissionais da iniciativa privada também têm a opção de cruzar os braços — tática pouco eficaz em tempos de economia estável. O mais comum é buscar se atualizar, mostrar habilidades e não ter medo de ser avaliado.

Competência e incompetência existem nos dois mundos. A diferença é que nas empresas o bom desempenho leva à premiação e o mau à demissão. No setor público, independentemente da performance profissional, o salário é o mesmo. O risco de afastamento inexiste porque o benefício invisível e tão valioso da estabilidade acaba contaminando mentes e corações.

É na falta de instrumentos de aferição de resultados que a máquina — seja ela federal, estadual ou municipal — emperra. Uma pena. Apesar dos esforços dos governos nos últimos anos, os avanços ainda são tímidos. Sindicatos e servidores cultivam resistências históricas e rechaçam a maioria dos mecanismos modernos de acompanhamento de desempenho. Com isso, a sociedade perde a chance de ter melhores serviços a seu dispor. E o profissional, de saber se seu trabalho pode ou não ser aperfeiçoado. 

Luciano Pires
Correio Braziliense

Pesquisa do Ipea mostra que, em média, setor privado paga salários melhores que o público. Mas variação entre maior e menor vencimento é grande nas empresas

Diante da polêmica sobre contratações e reajustes salariais no setor público, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou estudo que pode servir de justificativa para a política do governo. O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, criticou ferramentas adotadas pela iniciativa privada e defendeu o gasto público voltado ao custeio da folha de pessoal. Ele explicou que, em grande medida, as desigualdades do país estão relacionadas às distâncias entre os maiores e menores salários.

O levantamento baseou-se na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e constatou que o maior salário pago a um trabalhador privado chega a 1,7 mil vezes o menor. Já no setor público, a diferença é de 186 vezes. Entretanto, as empresas pagam melhor, e os governos gastariam 8,7% a mais para igualar os vencimentos.

Sob a coordenação de Pochmann, pesquisadores do Ipea calcularam as remunerações médias dos servidores e as compararam, levando em conta escolaridade, tempo de serviço e faixa etária, com o que acontece nas empresas. “Muitas vezes dizem que o governo aloca mal os recursos. No limite, quem aloca mal é o setor privado. Então vamos parar com essa conversa”, disse defendendo os gastos salariais da União.

No primeiro grupo avaliado, formado por trabalhadores com idade entre 25 e 59 anos, 12 anos de escolaridade e cinco anos ou mais no serviço, o salário médio privado, em 2006, foi 13,8% superior ao do público. Nesse segmento, os profissionais que desempenham funções ou ocupam cargos de direção são mais valorizados nas empresas, tendência que se inverte quando a análise aborda níveis técnico, administrativo e de serviços.

No segundo grupo, composto por trabalhadores de 25 a 59 anos, até oito anos de estudo e até cinco no empreendimento, o salário médio no setor privado, ano passado, foi 14,9% maior que o de um servidor. Novamente, nos cargos de dirigente, o setor público superou o privado. Em níveis técnico e de serviços, a prevalência foi dos salários da iniciativa privada. Nas empresas, a maior renda declarada foi de R$ 120 mil por mês e a menor, R$ 70. Na esfera estatal, o maior foi de R$ 28 mil e o menor, R$ 175.

Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a necessidade de contratar mais e pagar melhor seus funcionários. “Passam para a sociedade a idéia de que é possível fazer um choque de gestão diminuindo o número de pessoas que trabalham. Na verdade, choque é contratar mais gente qualificada e mais bem remunerada.” Só este ano, a estimativa do Executivo é gastar R$ 130 bilhões com a folha de pessoal.

Para o economista Amir Khair, a discussão sobre a burocracia de Estado está contaminada por ideologias. Isso tira o foco de questões centrais. “Existe falta de gestão em geral. Do ponto de vista gerencial, o setor privado gasta melhor porque há acompanhamento de desempenho e de promoção funcional”, disse.

O setor privado, no entanto, não deve servir de modelo, completou Khair. Segundo o especialista, há práticas ultrapassadas na gestão de recursos humanos que angustiam o trabalhador e impõem a pressão pelo medo de ser demitido ao menor sinal de incompetência ou dificuldade financeira da corporação.

análise da notícia
Avanços ainda são tímidos

Na ponta do lápis, funcionários do setor privado e servidores públicos sempre acham que ganham menos do que deveriam. É da natureza humana supervalorizar as qualidades e minimizar os próprios defeitos. No âmbito da burocracia, quem quer ganhar mais enfrenta a concorrência e se submete a concursos — mas pode simplesmente entrar em greve e pressionar o governante de plantão. Já os profissionais da iniciativa privada também têm a opção de cruzar os braços — tática pouco eficaz em tempos de economia estável. O mais comum é buscar se atualizar, mostrar habilidades e não ter medo de ser avaliado.

Competência e incompetência existem nos dois mundos. A diferença é que nas empresas o bom desempenho leva à premiação e o mau à demissão. No setor público, independentemente da performance profissional, o salário é o mesmo. O risco de afastamento inexiste porque o benefício invisível e tão valioso da estabilidade acaba contaminando mentes e corações.

É na falta de instrumentos de aferição de resultados que a máquina — seja ela federal, estadual ou municipal — emperra. Uma pena. Apesar dos esforços dos governos nos últimos anos, os avanços ainda são tímidos. Sindicatos e servidores cultivam resistências históricas e rechaçam a maioria dos mecanismos modernos de acompanhamento de desempenho. Com isso, a sociedade perde a chance de ter melhores serviços a seu dispor. E o profissional, de saber se seu trabalho pode ou não ser aperfeiçoado.