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Publicado: 5/12/2007 | 09:19
As pesquisas e suas horas
Coluna - Marcos Coimbra
Correio Braziliense
Correio Braziliense
O PT tem as mais evidentes dificuldades para lançar um bom nome em 2010 e não vai abrir mão do sonho de ter Lula
Às vezes, as pesquisas de opinião são importantes pelo que dizem, pelo que revelam. É o caso daquelas que mostram aspectos desconhecidos ou pouco compreendidos da sociedade e que, quando são divulgadas, têm um efeito iluminador. Daí em diante, costumam ser citadas como a fonte de uma nova percepção.
Há outras, no entanto, que nada dizem de diferente do que todos já sabiam, mas cuja publicação acontece em tal momento que elas se tornam importantes. Nesse caso, o relevante não é o resultado em si, mas a hora.
Veja-se, como exemplo, a pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no fim de semana pelo jornal Folha de S. Paulo. Tratou de muitos aspectos, mas o principal (pelo menos o que mereceu destaque em toda a imprensa), foi o relativo à proporção de pessoas favoráveis à tese de uma mudança constitucional que permitisse a Lula disputar, em 2010, um terceiro mandato. Segundo a pesquisa, apenas 31% dos brasileiros aprovariam a medida, o que quer dizer que dois terços dos eleitores são contrários a ela.
Não há propriamente surpresa com esses números. Ao longo dos últimos meses, tínhamos já pleno conhecimento de que é majoritário o sentimento da inconveniência de uma mexida na Constituição com esse intuito. Foram diversas pesquisas com resultados parecidos, algumas amplamente divulgadas.
Em julho, uma pesquisa da Vox Populi, feita para a Rede Bandeirantes e a revista Carta Capital, tinha chegado a um resultado quase idêntico. Perguntados se estariam de acordo com a possibilidade de um “terceiro mandato seguido” para presidente, governadores e prefeitos, 60% dos entrevistados disseram ser contra e 35% a favor.
Entre julho e o final de novembro, período de campo dessa pesquisa do Datafolha, nada mudou nas opiniões da população. Tampouco mudou a distribuição regional das respostas, identificada nas pesquisas: em ambas, a mudança é reprovada de norte a sul do país. As diferenças entre os levantamentos são irrelevantes, do ponto de vista estatístico.
Vale assinalar que as perguntas tinham redação ligeiramente diferente, mas que isso não teve qualquer conseqüência nas respostas. Na pesquisa da Vox Populi, o texto da pergunta não falava explicitamente que a “lei” tinha que ser mudada, como deixava claro o questionário do Datafolha. Poder-se-ia supor que isso causasse algum efeito nas respostas, mas, pelo visto, não foi o caso. Não há, de fato, apoio popular para uma mudança constitucional como essa.
Mas há uma grande diferença entre as duas pesquisas: a hora em que foram divulgadas. A hora política, que fique claro.
Ao longo dos meses entre julho e agora, as movimentações de petistas e outros parlamentares de partidos da base governista com intenções continuistas só aumentaram. Algumas genuinamente inspiradas pelo tema do terceiro mandato, outras por trás das quais se viam manobras para obtenção de vantagens no jogo de nomeações e negociações políticas.
A divulgação dessa nova pesquisa não vai mudar isso, como as anteriores não o fizeram. O PT tem as mais evidentes dificuldades para lançar um bom nome em 2010 e não vai abrir mão do sonho de ter Lula, somente porque uma pesquisa desfavorável à tese foi publicada. No Congresso, espertos de todos os matizes continuarão a postos para agir, sempre que enxergarem uma oportunidade de benefícios em mantê-la em pauta.
O que a divulgação da pesquisa do Datafolha teve de bom foi ter oferecido a Lula uma chance de expressar, com clareza, o que ele próprio havia deixado vago, quando defendeu a “normalidade” dos mandatos longos. Ao comentar os resultados, disse o que tinha que dizer.
Resta saber se, no futuro, não volta a ser mordido pela tentação de deixar o quadro incerto outra vez.
Coluna - Marcos Coimbra
Correio Braziliense
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O PT tem as mais evidentes dificuldades para lançar um bom nome em 2010 e não vai abrir mão do sonho de ter Lula
Às vezes, as pesquisas de opinião são importantes pelo que dizem, pelo que revelam. É o caso daquelas que mostram aspectos desconhecidos ou pouco compreendidos da sociedade e que, quando são divulgadas, têm um efeito iluminador. Daí em diante, costumam ser citadas como a fonte de uma nova percepção.
Há outras, no entanto, que nada dizem de diferente do que todos já sabiam, mas cuja publicação acontece em tal momento que elas se tornam importantes. Nesse caso, o relevante não é o resultado em si, mas a hora.
Veja-se, como exemplo, a pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no fim de semana pelo jornal Folha de S. Paulo. Tratou de muitos aspectos, mas o principal (pelo menos o que mereceu destaque em toda a imprensa), foi o relativo à proporção de pessoas favoráveis à tese de uma mudança constitucional que permitisse a Lula disputar, em 2010, um terceiro mandato. Segundo a pesquisa, apenas 31% dos brasileiros aprovariam a medida, o que quer dizer que dois terços dos eleitores são contrários a ela.
Não há propriamente surpresa com esses números. Ao longo dos últimos meses, tínhamos já pleno conhecimento de que é majoritário o sentimento da inconveniência de uma mexida na Constituição com esse intuito. Foram diversas pesquisas com resultados parecidos, algumas amplamente divulgadas.
Em julho, uma pesquisa da Vox Populi, feita para a Rede Bandeirantes e a revista Carta Capital, tinha chegado a um resultado quase idêntico. Perguntados se estariam de acordo com a possibilidade de um “terceiro mandato seguido” para presidente, governadores e prefeitos, 60% dos entrevistados disseram ser contra e 35% a favor.
Entre julho e o final de novembro, período de campo dessa pesquisa do Datafolha, nada mudou nas opiniões da população. Tampouco mudou a distribuição regional das respostas, identificada nas pesquisas: em ambas, a mudança é reprovada de norte a sul do país. As diferenças entre os levantamentos são irrelevantes, do ponto de vista estatístico.
Vale assinalar que as perguntas tinham redação ligeiramente diferente, mas que isso não teve qualquer conseqüência nas respostas. Na pesquisa da Vox Populi, o texto da pergunta não falava explicitamente que a “lei” tinha que ser mudada, como deixava claro o questionário do Datafolha. Poder-se-ia supor que isso causasse algum efeito nas respostas, mas, pelo visto, não foi o caso. Não há, de fato, apoio popular para uma mudança constitucional como essa.
Mas há uma grande diferença entre as duas pesquisas: a hora em que foram divulgadas. A hora política, que fique claro.
Ao longo dos meses entre julho e agora, as movimentações de petistas e outros parlamentares de partidos da base governista com intenções continuistas só aumentaram. Algumas genuinamente inspiradas pelo tema do terceiro mandato, outras por trás das quais se viam manobras para obtenção de vantagens no jogo de nomeações e negociações políticas.
A divulgação dessa nova pesquisa não vai mudar isso, como as anteriores não o fizeram. O PT tem as mais evidentes dificuldades para lançar um bom nome em 2010 e não vai abrir mão do sonho de ter Lula, somente porque uma pesquisa desfavorável à tese foi publicada. No Congresso, espertos de todos os matizes continuarão a postos para agir, sempre que enxergarem uma oportunidade de benefícios em mantê-la em pauta.
O que a divulgação da pesquisa do Datafolha teve de bom foi ter oferecido a Lula uma chance de expressar, com clareza, o que ele próprio havia deixado vago, quando defendeu a “normalidade” dos mandatos longos. Ao comentar os resultados, disse o que tinha que dizer.
Resta saber se, no futuro, não volta a ser mordido pela tentação de deixar o quadro incerto outra vez.