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Publicado: 11/01/2008 | 08:52
Brasil S.A - Abusando da sorte
Correio Braziliense
Expectativas positivas sofrem golpe porque a abulia do governo não o deixa se impor ao pessimismo
Politicamente, já não se discute nem no governo que o anúncio das medidas tributárias e de redução de gastos públicos para compensar a perda da arrecadação da CPMF foi um desastre. Acumulada com o coice da inflação no fim de 2007 e com o crescente consenso de que a economia dos EUA está entrando em recessão, divergindo-se quanto à sua intensidade, a formação de expectativas sofreu uma pancada.
Muito empresário está com o pé atrás, o primeiro movimento para o esfriamento do atual e ainda incipiente forte ciclo de recuperação da taxa de investimentos na economia. Mas o que vinha ruim não era a percepção sobre o desempenho da economia em 2008, que ainda não esboça, concretamente, nenhum sinal consistente de reversão.
O que o sentimento empresarial não havia absorvido era a atitude blasé do governo frente às inconsistências fiscais, a indiferença em relação aos indícios de desaquecimento da economia global, sua relutância em retomar as reformas e os desencontros com a base de apoio político. A isso se soma a pouca interação empresarial com os ministros da área econômica, cada vez menos vistos como fonte de inspiração e providos de luz própria na articulação econômica.
Até aí, no entanto, eram apenas traços particulares de um governo a favor do qual tudo conspirava — da bonança da economia global à estabilidade dos principais indicadores da macroeconomia. Mesmo os riscos maiores sobre a inflação não são diagnosticados como graves nem se dá como certeza uma grande ressaca da economia global.
No máximo, as condições seriam menos fáceis do que foram em 2007, sem implicar reversão das trajetórias ascendentes do investimento e do produto. Assim estava o presidente, envolvido em recuperar a iniciativa prejudicada pelo fiasco do anúncio do aumento do IOF e da CSLL da banca, que a rigor são melhores para a economia que a CPMF. E do corte de gastos orçamentários, que — da forma como os ministros Guido Mantega e Paulo Bernardo o expuseram — não obteve credibilidade, exigindo de Lula o reforço de que “serão na carne”.
Difícil é que tais confusões, comuns ao governo, pudessem piorar as expectativas. Estava tudo segundo o roteiro. Além disso, apesar das palavras duras contra o aumento do IOF e CSLL, o empresariado recebeu com alívio a decisão, menos onerosa que a CPMF. Ela trazia um custo de R$ 28,8 bilhões para a oferta da economia, sem incluir a parcela dos consumidores, estimada pela Receita em 28%. Já o IOF é custo para a demanda, avalia o economista Fernando Montero. IOF e CSLL vão tirar R$ 8 bilhões de famílias e R$ 2 bilhões da banca.
Turvando o otimismo
O golpe na linha de baixo da cintura veio com a divulgação pelas áreas técnicas do governo de que é maior do que se supunha o risco de descompasso da oferta de energia. O desmentido, para o qual se escalou o ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, não foi tão convincente, já que sustentado na crença de que as chuvas de verão chegarão a tempo, estão “apenas” atrasadas, de encher os reservatórios das hidrelétricas, não em informações críveis sobre como a Petrobras dará conta do fornecimento e da logística para a entrega de gás ou óleo combustível em volume suficiente para fazer girar as turbinas das termelétricas emergenciais.
O risco de apagão trouxe para a ribalta uma cena muito parecida com 2001, quanto também a mistura de imprevidência com inépcia fez o país se reencontrar com uma mazela do passado, o racionamento de energia. E isso com a volta desta outra perversão administrativa, o surto de dengue, que também marcou ponto no ano do apagão, agora acumulado a ocorrências de febre amarela sobre a qual não se ouvia falar há muito tempo. O que tudo isso tem em comum é a repetição de falta de planejamento e de ação administrativa pública.
Morrendo pela boca
No fim, vai o governo trombando com problemas reais, que minam as expectativas, cujas repercussões seriam menores se cuidasse melhor da gestão, do planejamento e da comunicação. Exemplos: o aumento do IOF e do CSLL deve onerar o custo do crédito em média 0,7 ponto percentual, quase nada, segundo a Tendências. Mas a medida teve um forte impacto negativo. A inflação pode baixar, não engordar, e no entanto prevê-se aumentar a Selic. Não são certezas o racionamento de energia e a recessão nos EUA. Só que são as piores versões que prosperam, enquanto o governo morre pela boca e pelo que não faz.
Pegue-se o IOF, imposto regulatório para expandir ou contrair o crédito e operações cambiais. Foi aumentado para suprir um naco da perda da CPMF. Mas “fontes” do governo passaram a dizer que se fez tal medida para esfriar o consumo e assim ajudar o Banco Centrar a segurar a inflação. Avaliza com isso a sensação imprecisa de que o crescimento será travado. Equivale a uma cachoeira de água gelada sobre o otimismo de quem está investindo para aumentar a oferta.
O que há de fato, segundo a Tendências, é que as “medidas não são fortes” para barrar a expansão do crédito. Se fosse para esfriá-lo, seria mais eficiente ao BC reduzir o prazo dos financiamentos.
A questão da energia é outro evento que arruína as expectativas. Sabe-se que a oferta será curta até que funcionem as hidrelétricas em construção. Sabe-se que o gás boliviano é incerto e o nacional, insuficiente. A Petrobras já deveria estar com óleo e carvão nas termos, cuja existência é o que diferencia a situação atual da de 2001. Por que não se fez isso, melhorando as percepções, apesar do ônus econômico e ambiental? A resposta dá a solução do problema.
Correio Braziliense
Expectativas positivas sofrem golpe porque a abulia do governo não o deixa se impor ao pessimismo
Politicamente, já não se discute nem no governo que o anúncio das medidas tributárias e de redução de gastos públicos para compensar a perda da arrecadação da CPMF foi um desastre. Acumulada com o coice da inflação no fim de 2007 e com o crescente consenso de que a economia dos EUA está entrando em recessão, divergindo-se quanto à sua intensidade, a formação de expectativas sofreu uma pancada.
Muito empresário está com o pé atrás, o primeiro movimento para o esfriamento do atual e ainda incipiente forte ciclo de recuperação da taxa de investimentos na economia. Mas o que vinha ruim não era a percepção sobre o desempenho da economia em 2008, que ainda não esboça, concretamente, nenhum sinal consistente de reversão.
O que o sentimento empresarial não havia absorvido era a atitude blasé do governo frente às inconsistências fiscais, a indiferença em relação aos indícios de desaquecimento da economia global, sua relutância em retomar as reformas e os desencontros com a base de apoio político. A isso se soma a pouca interação empresarial com os ministros da área econômica, cada vez menos vistos como fonte de inspiração e providos de luz própria na articulação econômica.
Até aí, no entanto, eram apenas traços particulares de um governo a favor do qual tudo conspirava — da bonança da economia global à estabilidade dos principais indicadores da macroeconomia. Mesmo os riscos maiores sobre a inflação não são diagnosticados como graves nem se dá como certeza uma grande ressaca da economia global.
No máximo, as condições seriam menos fáceis do que foram em 2007, sem implicar reversão das trajetórias ascendentes do investimento e do produto. Assim estava o presidente, envolvido em recuperar a iniciativa prejudicada pelo fiasco do anúncio do aumento do IOF e da CSLL da banca, que a rigor são melhores para a economia que a CPMF. E do corte de gastos orçamentários, que — da forma como os ministros Guido Mantega e Paulo Bernardo o expuseram — não obteve credibilidade, exigindo de Lula o reforço de que “serão na carne”.
Difícil é que tais confusões, comuns ao governo, pudessem piorar as expectativas. Estava tudo segundo o roteiro. Além disso, apesar das palavras duras contra o aumento do IOF e CSLL, o empresariado recebeu com alívio a decisão, menos onerosa que a CPMF. Ela trazia um custo de R$ 28,8 bilhões para a oferta da economia, sem incluir a parcela dos consumidores, estimada pela Receita em 28%. Já o IOF é custo para a demanda, avalia o economista Fernando Montero. IOF e CSLL vão tirar R$ 8 bilhões de famílias e R$ 2 bilhões da banca.
Turvando o otimismo
O golpe na linha de baixo da cintura veio com a divulgação pelas áreas técnicas do governo de que é maior do que se supunha o risco de descompasso da oferta de energia. O desmentido, para o qual se escalou o ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, não foi tão convincente, já que sustentado na crença de que as chuvas de verão chegarão a tempo, estão “apenas” atrasadas, de encher os reservatórios das hidrelétricas, não em informações críveis sobre como a Petrobras dará conta do fornecimento e da logística para a entrega de gás ou óleo combustível em volume suficiente para fazer girar as turbinas das termelétricas emergenciais.
O risco de apagão trouxe para a ribalta uma cena muito parecida com 2001, quanto também a mistura de imprevidência com inépcia fez o país se reencontrar com uma mazela do passado, o racionamento de energia. E isso com a volta desta outra perversão administrativa, o surto de dengue, que também marcou ponto no ano do apagão, agora acumulado a ocorrências de febre amarela sobre a qual não se ouvia falar há muito tempo. O que tudo isso tem em comum é a repetição de falta de planejamento e de ação administrativa pública.
Morrendo pela boca
No fim, vai o governo trombando com problemas reais, que minam as expectativas, cujas repercussões seriam menores se cuidasse melhor da gestão, do planejamento e da comunicação. Exemplos: o aumento do IOF e do CSLL deve onerar o custo do crédito em média 0,7 ponto percentual, quase nada, segundo a Tendências. Mas a medida teve um forte impacto negativo. A inflação pode baixar, não engordar, e no entanto prevê-se aumentar a Selic. Não são certezas o racionamento de energia e a recessão nos EUA. Só que são as piores versões que prosperam, enquanto o governo morre pela boca e pelo que não faz.
Pegue-se o IOF, imposto regulatório para expandir ou contrair o crédito e operações cambiais. Foi aumentado para suprir um naco da perda da CPMF. Mas “fontes” do governo passaram a dizer que se fez tal medida para esfriar o consumo e assim ajudar o Banco Centrar a segurar a inflação. Avaliza com isso a sensação imprecisa de que o crescimento será travado. Equivale a uma cachoeira de água gelada sobre o otimismo de quem está investindo para aumentar a oferta.
O que há de fato, segundo a Tendências, é que as “medidas não são fortes” para barrar a expansão do crédito. Se fosse para esfriá-lo, seria mais eficiente ao BC reduzir o prazo dos financiamentos.
A questão da energia é outro evento que arruína as expectativas. Sabe-se que a oferta será curta até que funcionem as hidrelétricas em construção. Sabe-se que o gás boliviano é incerto e o nacional, insuficiente. A Petrobras já deveria estar com óleo e carvão nas termos, cuja existência é o que diferencia a situação atual da de 2001. Por que não se fez isso, melhorando as percepções, apesar do ônus econômico e ambiental? A resposta dá a solução do problema.