antigas Publicado: 21/01/2008 | 09:03

Instabilidade se manterá

Ricardo Allan
Correio Braziliense

Expectativa sobre novos passos do governo dos Estados Unidos para afastar risco de recessão deve fazer investidor operar nervoso
 
Sob o temor de que a economia norte-americana mergulhe numa recessão e leve com ela a prosperidade mundial, os mercados financeiros continuarão instáveis nesta semana. A central de más notícias deve arrefecer hoje, feriado nos Estados Unidos, onde se homenageia o ativista dos direitos civis Martin Luther King Jr., assassinado em 1968. Sem a bolsa de Nova York para servir de parâmetro aos negócios, os investidores europeus, asiáticos e latino-americanos devem trabalhar hoje na expectativa dos próximos passos do governo e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para inibir a crise e afastar o risco de retração no nível de atividade neste ano.

Os analistas chegaram ao consenso de que o anúncio do pacote de incentivos fiscais pelo presidente George Bush, que prevê benefícios de US$ 145 bilhões, equivalentes a 1% do Produto Interno Bruto (PIB), foi insuficiente para afastar definitivamente os temores da recessão. Da mesma forma, há um entendimento generalizado de que o Fed cortará a taxa básica de juros em 0,50 ou 0,75 ponto percentual na reunião que termina no dia 30, quarta-feira da semana que vem — a taxa hoje é de 4,25% ao ano. O corte pode incentivar o consumo e os investimentos produtivos, auxiliando a recuperação econômica.

O intenso sobe-e-desce das bolsas mundiais na semana passada se deveu à divulgação de uma série de indicadores ruins, como a inflação ao consumidor de 4,1%, nível mais alto nos últimos 17 anos. Além disso, teve um peso muito forte a publicação dos balanços de grandes grupos financeiros, como Citigroup e Merril Lynch, que tiveram ambos prejuízos de US$ 9,8 bilhões no quarto trimestre de 2007 em virtude do calote nos contratos de financiamento imobiliário de alto risco. Nesta semana, outros dois bancos importantes (o Wachovia e o Bank of America) publicarão seus resultados, também afetados pela inadimplência nos empréstimos para a compra da casa própria.

As seguradoras de crédito devem ter as classificações de risco rebaixadas depois que apresentarem os balanços nesta semana. Além disso, será divulgado o indicador sobre venda de imóveis usados. “O mercado está muito nervoso. Qualquer desses resultados pode afetar os negócios. A volatilidade vai continuar”, prevê Fábio Knijnik, analista-sênior do BES Investimento. Para ele, as coisas só vão melhorar depois que o governo Bush detalhar como fará os cortes de impostos. Só assim, será possível verificar os reais efeitos da medida na recuperação da economia. “Do lado do Fed, não devemos ter novidade nesta semana. O presidente Ben Bernanke vai guardar um período de silêncio até a decisão sobre os juros.”

Alguns analistas acreditam que houve um claro exagero na reação dos investidores às notícias da semana passada. “O pessimismo foi muito grande, mas não há nada de fundamentalmente diferente em relação ao que havia 60 dias atrás. Os mercados estavam muito inflados no mundo inteiro e vão passar por um momento de ajuste natural. Depois disso, a economia dos EUA vai se recuperar. Certamente, não vamos passar por um crash semelhante ao de 1929”, garante o gerente de operações da Fator Corretora em Brasília, Demetrius Borel Lucindo. Segundo ele, o final de semana serviu para os investidores avaliarem com mais cuidado a conjuntura, o que pode contribuir para uma melhora nos índices hoje. 
 
Efeito maior na Bovespa
Na avaliação do economista Demetrius Borel Lucindo, o reforço no compromisso do governo brasileiro com a política econômica ortodoxa foi importante para tranqüilizar um pouco os investidores domésticos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou que o governo vai cumprir a meta de superávit fiscal de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB), manter a inflação sob controle e cuidar da baixa vulnerabilidade externa. Tudo isso para continuar crescendo a um ritmo perto de 5%. “Se os fundamentos brasileiros não fossem bons, o país sofreria mais com essa crise”, diz.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, acredita que os efeitos no Brasil serão mais sentidos na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que não funcionará na sexta-feira por causa do feriado de aniversário da cidade. A desvalorização chega a 10,7% no ano, com redução de R$ 250 bilhões no valor de mercado das companhias. Os investidores estrangeiros podem continuar tirando recursos da Bovespa para comprar dólares, movimento que tem pressionado a cotação da moeda para cima. Na semana passada, a valorização do dólar foi de 2,18%.

Para Agostini, os efeitos na economia real virão caso os preços internacionais dos produtos agrícolas e minérios caiam, prejudicando as receitas com exportações. Os Estados Unidos continuam os maiores compradores dos produtos brasileiros, mas com uma participação cada vez menor — 17,8% das exportações em 2007. “Em compensação, estamos vendendo cada vez mais para a China e a Índia, países que devem continuar crescendo num ritmo forte. Isso pode amenizar os efeitos”, afirma.

Ricardo Allan
Correio Braziliense

Expectativa sobre novos passos do governo dos Estados Unidos para afastar risco de recessão deve fazer investidor operar nervoso
 
Sob o temor de que a economia norte-americana mergulhe numa recessão e leve com ela a prosperidade mundial, os mercados financeiros continuarão instáveis nesta semana. A central de más notícias deve arrefecer hoje, feriado nos Estados Unidos, onde se homenageia o ativista dos direitos civis Martin Luther King Jr., assassinado em 1968. Sem a bolsa de Nova York para servir de parâmetro aos negócios, os investidores europeus, asiáticos e latino-americanos devem trabalhar hoje na expectativa dos próximos passos do governo e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para inibir a crise e afastar o risco de retração no nível de atividade neste ano.

Os analistas chegaram ao consenso de que o anúncio do pacote de incentivos fiscais pelo presidente George Bush, que prevê benefícios de US$ 145 bilhões, equivalentes a 1% do Produto Interno Bruto (PIB), foi insuficiente para afastar definitivamente os temores da recessão. Da mesma forma, há um entendimento generalizado de que o Fed cortará a taxa básica de juros em 0,50 ou 0,75 ponto percentual na reunião que termina no dia 30, quarta-feira da semana que vem — a taxa hoje é de 4,25% ao ano. O corte pode incentivar o consumo e os investimentos produtivos, auxiliando a recuperação econômica.

O intenso sobe-e-desce das bolsas mundiais na semana passada se deveu à divulgação de uma série de indicadores ruins, como a inflação ao consumidor de 4,1%, nível mais alto nos últimos 17 anos. Além disso, teve um peso muito forte a publicação dos balanços de grandes grupos financeiros, como Citigroup e Merril Lynch, que tiveram ambos prejuízos de US$ 9,8 bilhões no quarto trimestre de 2007 em virtude do calote nos contratos de financiamento imobiliário de alto risco. Nesta semana, outros dois bancos importantes (o Wachovia e o Bank of America) publicarão seus resultados, também afetados pela inadimplência nos empréstimos para a compra da casa própria.

As seguradoras de crédito devem ter as classificações de risco rebaixadas depois que apresentarem os balanços nesta semana. Além disso, será divulgado o indicador sobre venda de imóveis usados. “O mercado está muito nervoso. Qualquer desses resultados pode afetar os negócios. A volatilidade vai continuar”, prevê Fábio Knijnik, analista-sênior do BES Investimento. Para ele, as coisas só vão melhorar depois que o governo Bush detalhar como fará os cortes de impostos. Só assim, será possível verificar os reais efeitos da medida na recuperação da economia. “Do lado do Fed, não devemos ter novidade nesta semana. O presidente Ben Bernanke vai guardar um período de silêncio até a decisão sobre os juros.”

Alguns analistas acreditam que houve um claro exagero na reação dos investidores às notícias da semana passada. “O pessimismo foi muito grande, mas não há nada de fundamentalmente diferente em relação ao que havia 60 dias atrás. Os mercados estavam muito inflados no mundo inteiro e vão passar por um momento de ajuste natural. Depois disso, a economia dos EUA vai se recuperar. Certamente, não vamos passar por um crash semelhante ao de 1929”, garante o gerente de operações da Fator Corretora em Brasília, Demetrius Borel Lucindo. Segundo ele, o final de semana serviu para os investidores avaliarem com mais cuidado a conjuntura, o que pode contribuir para uma melhora nos índices hoje. 
 
Efeito maior na Bovespa
Na avaliação do economista Demetrius Borel Lucindo, o reforço no compromisso do governo brasileiro com a política econômica ortodoxa foi importante para tranqüilizar um pouco os investidores domésticos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou que o governo vai cumprir a meta de superávit fiscal de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB), manter a inflação sob controle e cuidar da baixa vulnerabilidade externa. Tudo isso para continuar crescendo a um ritmo perto de 5%. “Se os fundamentos brasileiros não fossem bons, o país sofreria mais com essa crise”, diz.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, acredita que os efeitos no Brasil serão mais sentidos na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que não funcionará na sexta-feira por causa do feriado de aniversário da cidade. A desvalorização chega a 10,7% no ano, com redução de R$ 250 bilhões no valor de mercado das companhias. Os investidores estrangeiros podem continuar tirando recursos da Bovespa para comprar dólares, movimento que tem pressionado a cotação da moeda para cima. Na semana passada, a valorização do dólar foi de 2,18%.

Para Agostini, os efeitos na economia real virão caso os preços internacionais dos produtos agrícolas e minérios caiam, prejudicando as receitas com exportações. Os Estados Unidos continuam os maiores compradores dos produtos brasileiros, mas com uma participação cada vez menor — 17,8% das exportações em 2007. “Em compensação, estamos vendendo cada vez mais para a China e a Índia, países que devem continuar crescendo num ritmo forte. Isso pode amenizar os efeitos”, afirma.