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Publicado: 22/01/2008 | 09:22
Promessa de não repetir 2001
Luís Osvaldo Grossmann e Edna Simão
Correio Braziliense
Correio Braziliense
No discurso da posse do novo ministro de Minas e Energia, Lula faz três menções ao apagão do final do governo tucano e garante que isso não vai ocorrer de novo. Para o presidente, momento é “auspicioso”
Apesar do cenário sem folgas na oferta de energia e da disparada nos preços da eletricidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afastou a possibilidade de racionamento e chamou de pessimista quem sugere o risco de um novo apagão no país. Ao contrário, o presidente acredita que o setor passa por um momento “auspicioso” graças aos investimentos em geração e transmissão de energia elétrica.
“Alguns pessimistas que vendem diariamente a idéia de que vai faltar energia, como se nós pudéssemos repetir 2001”, disse Lula ao dar posse ao novo ministro de Minas e Energia, o senador Edison Lobão (PMDB-MA). O presidente fez mais uma menção direta e outra indireta à crise energética do final do governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A exemplo de Lula, o novo ministro refutou qualquer risco de abastecimento de energia. Juntou-se ao coro o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE, ligada ao Ministério de Minas e Energia), Maurício Tolmasquim, que entende não ser preciso estimular a economia de energia pela população. “Temos como manobrar e gerenciar o sistema sem precisar sacrificar o consumidor brasileiro”, disse Tolmasquim.
Mas o “momento auspicioso” sugerido pelo presidente esbarra nas dificuldades que ficaram evidentes com o aumento recente no preço da energia no mercado de curto prazo. O valor de R$ 569,59 por megawatt/hora é o mais caro desde o fim do apagão de 2001 e foi impulsionado pela falta de chuvas e a conseqüente redução nos níveis dos reservatórios das hidrelétricas.
Num país que tem essas usinas como fonte de praticamente 90% da energia, as chuvas sempre serão um fator importante. O que alimenta as análises que Lula considera pessimistas, porém, é que o sistema de reserva, de usinas termelétricas, também passa por apertos. O principal combustível para as térmicas é o gás natural, insumo em falta no país, como o próprio presidente reconhece.
“Na hora que tiver falta de água e precisar utilizar o gás, todo mundo precisa saber que, se for necessário, até o gás que a Petrobras utiliza para tentar achar petróleo, nós vamos transformá-lo em energia”, disse o presidente. De fato, na semana passada foi acertado que a estatal vai substituir por óleo combustível seu consumo interno de gás natural e desviá-lo para a geração de até 750 MW.
Além disso, as obras de pequenas e grandes hidrelétricas, termelétricas e linhas de transmissão, que basearam as afirmações de Lula sobre o bom momento do setor de energia, não resolvem nada no curto prazo. Mesmo as pequenas usinas incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) só devem ser concluídas entre 2010 e 2011. Já a hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, para a qual o presidente reservou os principais elogios, demora ainda mais. A energia prevista chegará aos brasileiros em 2013.
Ouvir Dilma
Lula defendeu a indicação de um político não-familiarizado com o setor. “Estou convencido de que você exercerá a sua pasta com a grandeza de sua carreira política e vai desmontar uma série de preconceitos que se cria neste país. Eu não podia ser presidente porque era metalúrgico, estou aqui. Você não pode ser ministro porque você não é técnico”, discursou.
Indicado pelo PMDB na negociação de apoio parlamentar, o próprio Edison Lobão reagiu às críticas à sua nomeação. “Sou político e me orgulho disso. Tal fato não me desfavorece. Metade dos ministros dessa cadeira foram políticos. Lula nomeou um administrador e esse é o papel que me cabe. Vamos dar continuidade ao que está sendo feito”, afirmou.
Mais do que se defender, o novo ministro fez questão de demarcar logo seu espaço. “Ninguém tutela o ministro de Minas e Energia, a não ser o presidente da República”, disse. Também tentou desqualificar a suposta derrota política da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que preferia um nome mais próximo do setor elétrico. “Tentou-se fazer intriga. A ministra Dilma não indicou nem vetou ninguém no ministério. Mas sempre, com minha humildade, vou ouvi-la”, disse.
Incentivo a usinas nucleares
Em uma posse lotada, o novo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, defendeu a ampliação da geração de energia nuclear dos atuais 2 mil para 8 mil megawatts dentro de alguns anos. Segundo ele, vários países investem alto no sistema nuclear. Lobão citou como exemplo a França, onde 90% da energia é oriunda do sistema nuclear, assim como no Japão e na Alemanha.
“Nosso parque de geração nuclear, que hoje responde por apenas 2% da capacidade instalada, também merece ser ampliado, o que começa por Angra 3, uma decisão acertada do presidente da República. As térmicas nucleares já se mostraram alternativas seguras de produção de energia. Também geram a preços atrativos, dada a possibilidade de serem construídas nas proximidades dos centros de carga, reduzindo os custos de transmissão”, frisou o ministro.
A meta dos 8 mil MW consta em uma das projeções do Plano Nacional de Energia 2030, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O plano sugere a construção de oito novas usinas nucleares no país nos próximos 22 anos. A primeira da fila, já aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), é a usina Angra 3, que adicionaria outros 1,3 mil MW aos 2 mil gerados atualmente por Angra 1 e 2. Trata-se, na verdade, da conclusão da planta que está paralisada há duas décadas e que deve exigir investimentos de R$ 7 bilhões.
Mesmo essa primeira nova usina, porém, enfrenta dificuldades. Em novembro de 2006, a Justiça Federal de Angra dos Reis (RJ) proibiu a continuidade aos trabalhos de licenciamento da unidade três. No ano passado, o governo conseguiu derrubar essa liminar, mas uma nova decisão judicial voltou a atrasar o processo. A mesma Justiça Federal de Angra determinou que sejam refeitas as audiências públicas que discutem a nova usina nuclear.
Luís Osvaldo Grossmann e Edna Simão
Correio Braziliense
Correio Braziliense
No discurso da posse do novo ministro de Minas e Energia, Lula faz três menções ao apagão do final do governo tucano e garante que isso não vai ocorrer de novo. Para o presidente, momento é “auspicioso”
Apesar do cenário sem folgas na oferta de energia e da disparada nos preços da eletricidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afastou a possibilidade de racionamento e chamou de pessimista quem sugere o risco de um novo apagão no país. Ao contrário, o presidente acredita que o setor passa por um momento “auspicioso” graças aos investimentos em geração e transmissão de energia elétrica.
“Alguns pessimistas que vendem diariamente a idéia de que vai faltar energia, como se nós pudéssemos repetir 2001”, disse Lula ao dar posse ao novo ministro de Minas e Energia, o senador Edison Lobão (PMDB-MA). O presidente fez mais uma menção direta e outra indireta à crise energética do final do governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A exemplo de Lula, o novo ministro refutou qualquer risco de abastecimento de energia. Juntou-se ao coro o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE, ligada ao Ministério de Minas e Energia), Maurício Tolmasquim, que entende não ser preciso estimular a economia de energia pela população. “Temos como manobrar e gerenciar o sistema sem precisar sacrificar o consumidor brasileiro”, disse Tolmasquim.
Mas o “momento auspicioso” sugerido pelo presidente esbarra nas dificuldades que ficaram evidentes com o aumento recente no preço da energia no mercado de curto prazo. O valor de R$ 569,59 por megawatt/hora é o mais caro desde o fim do apagão de 2001 e foi impulsionado pela falta de chuvas e a conseqüente redução nos níveis dos reservatórios das hidrelétricas.
Num país que tem essas usinas como fonte de praticamente 90% da energia, as chuvas sempre serão um fator importante. O que alimenta as análises que Lula considera pessimistas, porém, é que o sistema de reserva, de usinas termelétricas, também passa por apertos. O principal combustível para as térmicas é o gás natural, insumo em falta no país, como o próprio presidente reconhece.
“Na hora que tiver falta de água e precisar utilizar o gás, todo mundo precisa saber que, se for necessário, até o gás que a Petrobras utiliza para tentar achar petróleo, nós vamos transformá-lo em energia”, disse o presidente. De fato, na semana passada foi acertado que a estatal vai substituir por óleo combustível seu consumo interno de gás natural e desviá-lo para a geração de até 750 MW.
Além disso, as obras de pequenas e grandes hidrelétricas, termelétricas e linhas de transmissão, que basearam as afirmações de Lula sobre o bom momento do setor de energia, não resolvem nada no curto prazo. Mesmo as pequenas usinas incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) só devem ser concluídas entre 2010 e 2011. Já a hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, para a qual o presidente reservou os principais elogios, demora ainda mais. A energia prevista chegará aos brasileiros em 2013.
Ouvir Dilma
Lula defendeu a indicação de um político não-familiarizado com o setor. “Estou convencido de que você exercerá a sua pasta com a grandeza de sua carreira política e vai desmontar uma série de preconceitos que se cria neste país. Eu não podia ser presidente porque era metalúrgico, estou aqui. Você não pode ser ministro porque você não é técnico”, discursou.
Indicado pelo PMDB na negociação de apoio parlamentar, o próprio Edison Lobão reagiu às críticas à sua nomeação. “Sou político e me orgulho disso. Tal fato não me desfavorece. Metade dos ministros dessa cadeira foram políticos. Lula nomeou um administrador e esse é o papel que me cabe. Vamos dar continuidade ao que está sendo feito”, afirmou.
Mais do que se defender, o novo ministro fez questão de demarcar logo seu espaço. “Ninguém tutela o ministro de Minas e Energia, a não ser o presidente da República”, disse. Também tentou desqualificar a suposta derrota política da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que preferia um nome mais próximo do setor elétrico. “Tentou-se fazer intriga. A ministra Dilma não indicou nem vetou ninguém no ministério. Mas sempre, com minha humildade, vou ouvi-la”, disse.
Incentivo a usinas nucleares
Em uma posse lotada, o novo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, defendeu a ampliação da geração de energia nuclear dos atuais 2 mil para 8 mil megawatts dentro de alguns anos. Segundo ele, vários países investem alto no sistema nuclear. Lobão citou como exemplo a França, onde 90% da energia é oriunda do sistema nuclear, assim como no Japão e na Alemanha.
“Nosso parque de geração nuclear, que hoje responde por apenas 2% da capacidade instalada, também merece ser ampliado, o que começa por Angra 3, uma decisão acertada do presidente da República. As térmicas nucleares já se mostraram alternativas seguras de produção de energia. Também geram a preços atrativos, dada a possibilidade de serem construídas nas proximidades dos centros de carga, reduzindo os custos de transmissão”, frisou o ministro.
A meta dos 8 mil MW consta em uma das projeções do Plano Nacional de Energia 2030, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O plano sugere a construção de oito novas usinas nucleares no país nos próximos 22 anos. A primeira da fila, já aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), é a usina Angra 3, que adicionaria outros 1,3 mil MW aos 2 mil gerados atualmente por Angra 1 e 2. Trata-se, na verdade, da conclusão da planta que está paralisada há duas décadas e que deve exigir investimentos de R$ 7 bilhões.
Mesmo essa primeira nova usina, porém, enfrenta dificuldades. Em novembro de 2006, a Justiça Federal de Angra dos Reis (RJ) proibiu a continuidade aos trabalhos de licenciamento da unidade três. No ano passado, o governo conseguiu derrubar essa liminar, mas uma nova decisão judicial voltou a atrasar o processo. A mesma Justiça Federal de Angra determinou que sejam refeitas as audiências públicas que discutem a nova usina nuclear.