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Publicado: 24/01/2008 | 09:55
BC avisa que juros podem subir
Vicente Nunes
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Copom decide, por unanimidade, manter a taxa básica em 11,25% ao ano. Mas sinaliza que só definirá os rumos da política monetária após confirmar que a inflação está sob controle
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem manter, pela terceira vez consecutiva, a taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano. Ao anunciar, porém, o resultado de sua primeira reunião no ano, o Copom deixou em aberto a possibilidade de elevar os juros no encontro marcado para os dia 4 e 5 de março. Tudo vai depender do andamento da inflação. “O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”, ressaltou em nota o BC.
No final do ano passado, o Banco Central se mostrou bastante confortável com a inflação. No relatório trimestral divulgado em dezembro, estimou alta de apenas 1% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no acumulado do primeiro trimestre do ano. Mas as projeções mais otimistas do mercado apontam para uma taxa de 1,4%. “Somente para janeiro, estimamos um IPCA de 0,60%. Portanto, o BC verá números bem maiores do que previu”, afirmou Bruno Carvalho, economista da Paraty Investimentos. “Com o comunicado, o BC deixou as portas abertas. Deixou um grau de liberdade para fazer o que for necessário”, assinalou.
A manutenção dos juros foi decidida por unanimidade, um importante sinal de que o BC — mesmo contando com três novos diretores, todos servidores de carreira — está coeso diante das pressões inflacionárias, que ficaram bem mais fortes no final de 2007, e do agravamento da crise externa, diante da possibilidade concreta de os Estados Unidos entrarem em recessão. “Mesmo não indicando um viés claro para a Selic, os juros podem, sim, subir a partir de março, se o quadro inflacionário piorar. No cenário atual, o BC não pode se descuidar em nenhum momento”, afirmou o economista Nuno Câmara, do Dresdner Bank em Nova York. “Tem de agir rápido”, emendou.
Câmbio, o tormento
Para Sandra Utsumi, diretora, em Portugal, de renda fixa do Banco BES Investimento, com os preços dos alimentos ainda em alta, o Copom passou a se preocupar com outra variável que pode impactar negativamente a inflação: o câmbio. Com a crise externa se estendendo pelos próximos meses, o real pode se desvalorizar frente ao dólar, devido ao menor fluxo de recursos para o país, contaminando as expectativas futuras dos agentes econômicos e, por tabela, estimulando remarcações preventivas. Ela ressaltou que os investidores estrangeiros estão muito avessos ao risco. E mesmo vendo boas oportunidades de compra no Brasil, preferem ficar distantes do país até que as turbulências internacionais se dissipem.
A aversão ao risco é tamanha, destacou Bruno Carvalho, que nem mesmo o fato de o diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos ter aumentado — aqui, a Selic se manteve estável e, nos EUA, a taxa básica caiu 0,75 ponto percentual, para 3,50% — será suficiente para convencer os investidores estrangeiros a trazerem mais dinheiro para o país. “Quando os juros nos EUA estavam subindo e os do Brasil, baixando, o capital externo veio para cá porque estava tranqüilo quanto aos rumos da economia. Agora, nem juros mais elevados justificam a migração”, frisou.
Na avaliação de Elson Teles, economista-chefe da Corretora Concórdia, por enquanto, mesmo com toda a piora do cenário internacional, o BC está em uma situação confortável. “As projeções de inflação continuam ancoradas na meta de 4,5% para este ano. Isso justifica a estabilidade da Selic”, destacou. O importante, porém, é que as expectativas não fujam desse nível, superando os 5%, entrando em um patamar que o BC considera uma “zona cinzenta”, difícil de controlar. “Teremos, mais do que nunca, um BC mais conservador e vigilante nos próximos meses”, afirmou.
IPC-S é o maior desde 2005
Puxado pelos reajustes dos materiais escolares, alimentos e habitação, o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) saltou de 0,92% para 0,98% na semana passada. Com esse resultado, a inflação, contabilizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV),atingiu a maior taxa desde a terceira semana de maio de 2005, que foi 0,99%. O economista da consultoria Tendência, Gian Barbosa, explicou que a pressão das carnes na inflação diminuiu, porém foi compensada pela elevação dos preços dos produtos in natura (foto) e mensalidades escolares. A maior contribuição para a inflação, assim como tem ocorrido nos últimos meses, vem do subgrupo alimentos, que registrou uma alta de 2,32% na semana passada. (Edna Simão)
Decisão é criticada
Se o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) encontrou respaldo junto aos economistas para a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano, entre empresários e sindicalistas foi duramente criticado. Segundo o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, a decisão é contraditória com o que está ocorrendo no resto do mundo, que tem optado pelo corte de juros. “No momento em que o BC norte-americano baixa os juros, induzindo os demais BCs a seguirem essa mesma postura, o BC do Brasil opta pela contramão”, disse. Para ele, nem mesmo o agravamento da crise mundial justifica a estabilidade da Selic. “A crise é lá, nos Estados Unidos, mas o juro alto é nosso”, disparou.
Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a retomada da queda dos juros deve ser rápida. E o caminho mais viável para que isso aconteça é o governo controlar os gastos e fazer com que a política fiscal ande em sintonia maior com a política monetária. Presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva disse que a decisão do Copom foi decepcionante e que o BC “insiste em manter uma camisa-de-força no setor produtivo, inibindo a geração de empregos e renda”.
Entre as financeiras, a percepção foi a de que o BC agiu com serenidade. “O momento da economia internacional é de muita incerteza. Por isso, a opção do Copom de não mexer na Selic foi a mais correta”, frisou o conselheiro econômico da Associação Nacional das Instituições de Crédito Financiamento e Investimento, Istvan Kasznar. Mesmo com a Selic estável, o Banco Real ABN Amro reduziu as taxas nos financiamentos a pessoas com deficiência, para a educação e projetos de sustentabilidade social e as de MBA e pós-graduação. (VN)
Vicente Nunes
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Copom decide, por unanimidade, manter a taxa básica em 11,25% ao ano. Mas sinaliza que só definirá os rumos da política monetária após confirmar que a inflação está sob controle
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem manter, pela terceira vez consecutiva, a taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano. Ao anunciar, porém, o resultado de sua primeira reunião no ano, o Copom deixou em aberto a possibilidade de elevar os juros no encontro marcado para os dia 4 e 5 de março. Tudo vai depender do andamento da inflação. “O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”, ressaltou em nota o BC.
No final do ano passado, o Banco Central se mostrou bastante confortável com a inflação. No relatório trimestral divulgado em dezembro, estimou alta de apenas 1% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no acumulado do primeiro trimestre do ano. Mas as projeções mais otimistas do mercado apontam para uma taxa de 1,4%. “Somente para janeiro, estimamos um IPCA de 0,60%. Portanto, o BC verá números bem maiores do que previu”, afirmou Bruno Carvalho, economista da Paraty Investimentos. “Com o comunicado, o BC deixou as portas abertas. Deixou um grau de liberdade para fazer o que for necessário”, assinalou.
A manutenção dos juros foi decidida por unanimidade, um importante sinal de que o BC — mesmo contando com três novos diretores, todos servidores de carreira — está coeso diante das pressões inflacionárias, que ficaram bem mais fortes no final de 2007, e do agravamento da crise externa, diante da possibilidade concreta de os Estados Unidos entrarem em recessão. “Mesmo não indicando um viés claro para a Selic, os juros podem, sim, subir a partir de março, se o quadro inflacionário piorar. No cenário atual, o BC não pode se descuidar em nenhum momento”, afirmou o economista Nuno Câmara, do Dresdner Bank em Nova York. “Tem de agir rápido”, emendou.
Câmbio, o tormento
Para Sandra Utsumi, diretora, em Portugal, de renda fixa do Banco BES Investimento, com os preços dos alimentos ainda em alta, o Copom passou a se preocupar com outra variável que pode impactar negativamente a inflação: o câmbio. Com a crise externa se estendendo pelos próximos meses, o real pode se desvalorizar frente ao dólar, devido ao menor fluxo de recursos para o país, contaminando as expectativas futuras dos agentes econômicos e, por tabela, estimulando remarcações preventivas. Ela ressaltou que os investidores estrangeiros estão muito avessos ao risco. E mesmo vendo boas oportunidades de compra no Brasil, preferem ficar distantes do país até que as turbulências internacionais se dissipem.
A aversão ao risco é tamanha, destacou Bruno Carvalho, que nem mesmo o fato de o diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos ter aumentado — aqui, a Selic se manteve estável e, nos EUA, a taxa básica caiu 0,75 ponto percentual, para 3,50% — será suficiente para convencer os investidores estrangeiros a trazerem mais dinheiro para o país. “Quando os juros nos EUA estavam subindo e os do Brasil, baixando, o capital externo veio para cá porque estava tranqüilo quanto aos rumos da economia. Agora, nem juros mais elevados justificam a migração”, frisou.
Na avaliação de Elson Teles, economista-chefe da Corretora Concórdia, por enquanto, mesmo com toda a piora do cenário internacional, o BC está em uma situação confortável. “As projeções de inflação continuam ancoradas na meta de 4,5% para este ano. Isso justifica a estabilidade da Selic”, destacou. O importante, porém, é que as expectativas não fujam desse nível, superando os 5%, entrando em um patamar que o BC considera uma “zona cinzenta”, difícil de controlar. “Teremos, mais do que nunca, um BC mais conservador e vigilante nos próximos meses”, afirmou.
IPC-S é o maior desde 2005
Puxado pelos reajustes dos materiais escolares, alimentos e habitação, o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) saltou de 0,92% para 0,98% na semana passada. Com esse resultado, a inflação, contabilizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV),atingiu a maior taxa desde a terceira semana de maio de 2005, que foi 0,99%. O economista da consultoria Tendência, Gian Barbosa, explicou que a pressão das carnes na inflação diminuiu, porém foi compensada pela elevação dos preços dos produtos in natura (foto) e mensalidades escolares. A maior contribuição para a inflação, assim como tem ocorrido nos últimos meses, vem do subgrupo alimentos, que registrou uma alta de 2,32% na semana passada. (Edna Simão)
Decisão é criticada
Se o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) encontrou respaldo junto aos economistas para a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano, entre empresários e sindicalistas foi duramente criticado. Segundo o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, a decisão é contraditória com o que está ocorrendo no resto do mundo, que tem optado pelo corte de juros. “No momento em que o BC norte-americano baixa os juros, induzindo os demais BCs a seguirem essa mesma postura, o BC do Brasil opta pela contramão”, disse. Para ele, nem mesmo o agravamento da crise mundial justifica a estabilidade da Selic. “A crise é lá, nos Estados Unidos, mas o juro alto é nosso”, disparou.
Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a retomada da queda dos juros deve ser rápida. E o caminho mais viável para que isso aconteça é o governo controlar os gastos e fazer com que a política fiscal ande em sintonia maior com a política monetária. Presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva disse que a decisão do Copom foi decepcionante e que o BC “insiste em manter uma camisa-de-força no setor produtivo, inibindo a geração de empregos e renda”.
Entre as financeiras, a percepção foi a de que o BC agiu com serenidade. “O momento da economia internacional é de muita incerteza. Por isso, a opção do Copom de não mexer na Selic foi a mais correta”, frisou o conselheiro econômico da Associação Nacional das Instituições de Crédito Financiamento e Investimento, Istvan Kasznar. Mesmo com a Selic estável, o Banco Real ABN Amro reduziu as taxas nos financiamentos a pessoas com deficiência, para a educação e projetos de sustentabilidade social e as de MBA e pós-graduação. (VN)