antigas Publicado: 29/01/2008 | 08:33

Distante da crise

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Estrangeiros mantêm fluxo recorde de investimentos para o Brasil apesar da turbulência internacional. Recursos devem atingir US$ 4,5 bilhões este mês, 86% superiores aos do mesmo período do ano passado

A crise financeira que sacode o mundo ainda não causou estragos na economia brasileira. Apesar de toda a turbulência provocada pelo medo de recessão nos Estados Unidos e das significativas perdas nos mercados acionários, os estrangeiros continuam trazendo volumes recordes de recursos para o setor produtivo brasileiro e liberando linhas de crédito para as empresas do país. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) mostram que os investimentos diretos (IED), que resultam em mais emprego e renda, atingiram, até o dia 28 de janeiro, US$ 4 bilhões, saldo que deve fechar o mês em US$ 4,5 bilhões. Se confirmado, esse montante será 86% superior ao computado no mesmo período de 2007, de US$ 2,4 bilhões, quando os mercados se inebriavam com os ganhos de cinco anos seguidos de forte crescimento da economia global. “Teremos o melhor janeiro desde que o BC passou a fazer esse tipo de levantamento, em 1947”, disse o chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes.

No caso das linhas de crédito, as taxas de rolagem dos empréstimos ficaram em 281%. Ou seja, em vez de pagarem as dívidas nos vencimentos, as empresas brasileiras não só refinanciaram os débitos, como pegaram mais dinheiro no exterior. Para cada US$ 100 vencidos e renovados, elas tomaram outros US$ 181. “Em um momento de desconfiança tão grande, em que grandes bancos americanos e europeus acumulam prejuízos e restringem o crédito, tal resultado é um feito, assim como o volume de IED”, afirmou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. “Mas isso só está sendo possível graças aos bons fundamentos da economia brasileira, que tem combinado o controle da inflação com crescimento robusto, equilíbrio fiscal e reservas internacionais próximas a US$ 190 bilhões”, assinalou.

Em 2002, por exemplo, diante do temor dos estrangeiros de mudanças bruscas na política econômica por causa da eleição de Lula, o Brasil viu todas as linhas de financiamentos externas se fecharem. Além de retirarem volumes expressivos de recursos do país, os investidores suspenderam os empréstimos. No máximo, no dia dos vencimentos, as empresas conseguiam refinanciar 26% das dívidas. De cada US$ 100, eram obrigadas a pagar US$ 74. A escassez de recursos externos foi tamanha, que o dólar chegou a encostar nos R$ 4. Hoje, mesmo com o maremoto provocado pelo estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, a moeda americana continua cotada abaixo de R$ 1,80.

Segundo Altamir Lopes, a única conta financeira que está negativa no balanço de pagamentos do Brasil com exterior é a que engloba os investimentos em ações e em títulos de renda fixa: o déficit acumulado no mês, até ontem, estava em US$ 1,8 bilhão (veja matéria na página 18). “Mesmo assim, trata-se de uma saída pequena de recursos, se levarmos em consideração que, somente no mercado de ações, houve ingresso líquido de US$ 26,2 bilhões no ano passado”, assinalou.

Força real
O forte fluxo de IED em janeiro — valor inflado pelos US$ 728 milhões da compra, pela Bolsa de Chicago, de cerca de 10% do capital da Bolsa de Mercadorias e de Futuros (BM&F) — refletiu o comportamento verificado em todo o ano de 2007, quando somou US$ 34,6 bilhões, recorde histórico. “Nem mesmo nos períodos de privatização entrou tanto investimento direto no país”, assinalou o economista do BC. “Isso mostra que os investidores estão confiantes no longo prazo. Eles acreditam que, a despeito de os EUA, ou mesmo alguns países da Europa e o Japão entrarem em recessão, o Brasil continuará crescendo e mantendo uma política econômica consistente”, emendou Bruno Carvalho, economista da Paraty Investimentos. “Por mais que a atual crise se estenda até 2009, os estrangeiros estão apostando que vale à pena investir no Brasil. São decisões de longo prazo, de abertura de fábricas”, destacou.

Para Zeina Latif, economista-chefe do Banco Real ABN Amro, não é apenas o Brasil que está se destacando positivamente no meio da crise internacional. “Todos os emergentes estão indo bem. Tanto que suas moedas, incluindo o real, têm mantido a força frente ao dólar”, destacou. “A grande discussão dos últimos dias foi a de que os emergentes seriam afetados pela crise por meio da queda dos preços das commodities (mercadorias com cotação internacional) exportadas por esses países. O dólar chegou a bater em R$ 1,83, mas acabou recuando” disse. “Enfim, estamos tendo um bom início de ano e vamos manter, por enquanto, a nossa previsão para 2008 de IED de US$ 28 bilhões”, ressaltou Altamir Lopes.

DE DEVEDOR A CREDOR
Até o final de fevereiro, no máximo em março, o Brasil marcará um feito histórico: de devedor contumaz, passará a ser credor internacional. É o que prevê o Banco Central. Em dezembro passado, faltaram apenas US$ 4,3 bilhões para que o país zerasse toda a sua dívida externa, de US$ 197,7 bilhões, aí incluídos os débitos do setor público e as dívidas das empresas e bancos privados. O fato determinante para o fim da condição de devedor foi o aumento das reservas cambiais do país em 2007, de US$ 94,5 bilhões. Esse seguro anticrise atingiu R$ 180,3 bilhões. Valor que, somado aos créditos que o país tem a receber, de US$ 2,9 bilhões, e aos depósitos de bancos brasileiros no exterior, de US$ 10,2 bilhões, quase supera o total do endividamento externo.

Conta deve fechar 2008 negativa
A despeito do forte sinal de confiança dado pelos investidores estrangeiros, que destinaram US$ 4 bilhões nos primeiros 28 dias de janeiro para o setor produtivo brasileiro, os cerca de 100 analistas consultados semanalmente pelo Banco Central (BC) ampliaram as projeções de déficit na conta de transações correntes do país com o exterior. Agora, eles estimam um rombo de US$ 6,5 bilhões, quase o dobro dos US$ 3,5 bilhões de quatro semanas atrás.

A brusca virada decorreu da perspectiva de queda mais acentuada nos preços das principais commodities (mercadorias com cotação internacional) exportadas pelo Brasil. Os especialistas acreditam que, diante da iminente recessão nos Estados Unidos e do menor ritmo de crescimento global, haverá recuo na demanda pelos produtos brasileiros, o que, por tabela, derrubará seus preços. Com isso, o saldo comercial, que passou dos US$ 40 bilhões em 2007, cairá para US$ 30 bilhões, afetando as transações correntes, que têm na balança seu principal componente. Para 2009, os analistas prevêem um buraco de US$ 12 bilhões na conta corrente.

Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, não há, no momento, nada que justifique a mudança de projeção de déficit nas transações correntes. “A nossa estimativa para todo o ano se mantém em US$ 3,5 bilhões”, assinalou. Ele admitiu, porém, que em janeiro, período de forte volatilidade no mercado internacional, por causa dos sinais cada vez mais evidentes de recessão nos EUA, o buraco nas transações correntes ficará em US$ 2,8 bilhões. Em dezembro do ano passado, o BC errou feio. Apostou em um rombo de US$ 1,8 bilhão e o déficit foi de apenas US$ 699 milhões.

Bancos recuam
Mesmo estimando déficit maior nas transações correntes e nervosismo no mercado, os especialistas ouvidos pelo BC não trabalham com um cenário de disparada nos preços do dólar. O consenso é de que a moeda americana feche 2008 cotada a R$ 1,80 e suba para R$ 1,90 no próximo ano.

A estabilidade da moeda americana está fazendo a festa, sobretudo, dos brasileiros que viajam para o exterior. No ano passado, eles gastaram o volume recorde de US$ 8,2 bilhões, o que resultou em um déficit nessa conta de R$ 3,3 bilhões. Também as empresas aproveitaram o câmbio favorável para remeter, em forma de lucros e dividendos, US$ 21,2 bilhões em 2007, valor sem precedentes.

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Estrangeiros mantêm fluxo recorde de investimentos para o Brasil apesar da turbulência internacional. Recursos devem atingir US$ 4,5 bilhões este mês, 86% superiores aos do mesmo período do ano passado

A crise financeira que sacode o mundo ainda não causou estragos na economia brasileira. Apesar de toda a turbulência provocada pelo medo de recessão nos Estados Unidos e das significativas perdas nos mercados acionários, os estrangeiros continuam trazendo volumes recordes de recursos para o setor produtivo brasileiro e liberando linhas de crédito para as empresas do país. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) mostram que os investimentos diretos (IED), que resultam em mais emprego e renda, atingiram, até o dia 28 de janeiro, US$ 4 bilhões, saldo que deve fechar o mês em US$ 4,5 bilhões. Se confirmado, esse montante será 86% superior ao computado no mesmo período de 2007, de US$ 2,4 bilhões, quando os mercados se inebriavam com os ganhos de cinco anos seguidos de forte crescimento da economia global. “Teremos o melhor janeiro desde que o BC passou a fazer esse tipo de levantamento, em 1947”, disse o chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes.

No caso das linhas de crédito, as taxas de rolagem dos empréstimos ficaram em 281%. Ou seja, em vez de pagarem as dívidas nos vencimentos, as empresas brasileiras não só refinanciaram os débitos, como pegaram mais dinheiro no exterior. Para cada US$ 100 vencidos e renovados, elas tomaram outros US$ 181. “Em um momento de desconfiança tão grande, em que grandes bancos americanos e europeus acumulam prejuízos e restringem o crédito, tal resultado é um feito, assim como o volume de IED”, afirmou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. “Mas isso só está sendo possível graças aos bons fundamentos da economia brasileira, que tem combinado o controle da inflação com crescimento robusto, equilíbrio fiscal e reservas internacionais próximas a US$ 190 bilhões”, assinalou.

Em 2002, por exemplo, diante do temor dos estrangeiros de mudanças bruscas na política econômica por causa da eleição de Lula, o Brasil viu todas as linhas de financiamentos externas se fecharem. Além de retirarem volumes expressivos de recursos do país, os investidores suspenderam os empréstimos. No máximo, no dia dos vencimentos, as empresas conseguiam refinanciar 26% das dívidas. De cada US$ 100, eram obrigadas a pagar US$ 74. A escassez de recursos externos foi tamanha, que o dólar chegou a encostar nos R$ 4. Hoje, mesmo com o maremoto provocado pelo estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, a moeda americana continua cotada abaixo de R$ 1,80.

Segundo Altamir Lopes, a única conta financeira que está negativa no balanço de pagamentos do Brasil com exterior é a que engloba os investimentos em ações e em títulos de renda fixa: o déficit acumulado no mês, até ontem, estava em US$ 1,8 bilhão (veja matéria na página 18). “Mesmo assim, trata-se de uma saída pequena de recursos, se levarmos em consideração que, somente no mercado de ações, houve ingresso líquido de US$ 26,2 bilhões no ano passado”, assinalou.

Força real
O forte fluxo de IED em janeiro — valor inflado pelos US$ 728 milhões da compra, pela Bolsa de Chicago, de cerca de 10% do capital da Bolsa de Mercadorias e de Futuros (BM&F) — refletiu o comportamento verificado em todo o ano de 2007, quando somou US$ 34,6 bilhões, recorde histórico. “Nem mesmo nos períodos de privatização entrou tanto investimento direto no país”, assinalou o economista do BC. “Isso mostra que os investidores estão confiantes no longo prazo. Eles acreditam que, a despeito de os EUA, ou mesmo alguns países da Europa e o Japão entrarem em recessão, o Brasil continuará crescendo e mantendo uma política econômica consistente”, emendou Bruno Carvalho, economista da Paraty Investimentos. “Por mais que a atual crise se estenda até 2009, os estrangeiros estão apostando que vale à pena investir no Brasil. São decisões de longo prazo, de abertura de fábricas”, destacou.

Para Zeina Latif, economista-chefe do Banco Real ABN Amro, não é apenas o Brasil que está se destacando positivamente no meio da crise internacional. “Todos os emergentes estão indo bem. Tanto que suas moedas, incluindo o real, têm mantido a força frente ao dólar”, destacou. “A grande discussão dos últimos dias foi a de que os emergentes seriam afetados pela crise por meio da queda dos preços das commodities (mercadorias com cotação internacional) exportadas por esses países. O dólar chegou a bater em R$ 1,83, mas acabou recuando” disse. “Enfim, estamos tendo um bom início de ano e vamos manter, por enquanto, a nossa previsão para 2008 de IED de US$ 28 bilhões”, ressaltou Altamir Lopes.

DE DEVEDOR A CREDOR
Até o final de fevereiro, no máximo em março, o Brasil marcará um feito histórico: de devedor contumaz, passará a ser credor internacional. É o que prevê o Banco Central. Em dezembro passado, faltaram apenas US$ 4,3 bilhões para que o país zerasse toda a sua dívida externa, de US$ 197,7 bilhões, aí incluídos os débitos do setor público e as dívidas das empresas e bancos privados. O fato determinante para o fim da condição de devedor foi o aumento das reservas cambiais do país em 2007, de US$ 94,5 bilhões. Esse seguro anticrise atingiu R$ 180,3 bilhões. Valor que, somado aos créditos que o país tem a receber, de US$ 2,9 bilhões, e aos depósitos de bancos brasileiros no exterior, de US$ 10,2 bilhões, quase supera o total do endividamento externo.

Conta deve fechar 2008 negativa
A despeito do forte sinal de confiança dado pelos investidores estrangeiros, que destinaram US$ 4 bilhões nos primeiros 28 dias de janeiro para o setor produtivo brasileiro, os cerca de 100 analistas consultados semanalmente pelo Banco Central (BC) ampliaram as projeções de déficit na conta de transações correntes do país com o exterior. Agora, eles estimam um rombo de US$ 6,5 bilhões, quase o dobro dos US$ 3,5 bilhões de quatro semanas atrás.

A brusca virada decorreu da perspectiva de queda mais acentuada nos preços das principais commodities (mercadorias com cotação internacional) exportadas pelo Brasil. Os especialistas acreditam que, diante da iminente recessão nos Estados Unidos e do menor ritmo de crescimento global, haverá recuo na demanda pelos produtos brasileiros, o que, por tabela, derrubará seus preços. Com isso, o saldo comercial, que passou dos US$ 40 bilhões em 2007, cairá para US$ 30 bilhões, afetando as transações correntes, que têm na balança seu principal componente. Para 2009, os analistas prevêem um buraco de US$ 12 bilhões na conta corrente.

Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, não há, no momento, nada que justifique a mudança de projeção de déficit nas transações correntes. “A nossa estimativa para todo o ano se mantém em US$ 3,5 bilhões”, assinalou. Ele admitiu, porém, que em janeiro, período de forte volatilidade no mercado internacional, por causa dos sinais cada vez mais evidentes de recessão nos EUA, o buraco nas transações correntes ficará em US$ 2,8 bilhões. Em dezembro do ano passado, o BC errou feio. Apostou em um rombo de US$ 1,8 bilhão e o déficit foi de apenas US$ 699 milhões.

Bancos recuam
Mesmo estimando déficit maior nas transações correntes e nervosismo no mercado, os especialistas ouvidos pelo BC não trabalham com um cenário de disparada nos preços do dólar. O consenso é de que a moeda americana feche 2008 cotada a R$ 1,80 e suba para R$ 1,90 no próximo ano.

A estabilidade da moeda americana está fazendo a festa, sobretudo, dos brasileiros que viajam para o exterior. No ano passado, eles gastaram o volume recorde de US$ 8,2 bilhões, o que resultou em um déficit nessa conta de R$ 3,3 bilhões. Também as empresas aproveitaram o câmbio favorável para remeter, em forma de lucros e dividendos, US$ 21,2 bilhões em 2007, valor sem precedentes.