antigas Publicado: 7/02/2008 | 08:27

Lula paga para ver

Leandro Colon e Fernanda Odilla
Correio Braziliense

Planalto se antecipa à oposição e colhe assinaturas para a CPI dos Cartões que investigará até a gestão de FHC
 
O governo decidiu embaralhar o jogo da CPI dos Cartões. O líder do Palácio do Planalto no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), protocolou ontem um pedido de criação de uma CPI na Casa sobre esse tema. Com uma pitada de provocação: incluiu gastos desde 1998, atingindo o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Como o cartão foi criado em 2001, Jucá colocou no documento as contas bancárias que recebiam o mesmo dinheiro até então. São as chamadas “contas tipo B”, que foram mantidas, mas reduzidas após a chegada do cartão corporativo. “O governo não tem medo de CPI”, afirmou Jucá.

A jogada do líder do governo tem como principal objetivo inviabilizar qualquer comissão de inquérito, e principalmente a mista (Câmara e Senado), proposta pela oposição. A primeira ação, já realizada, foi se antecipar e protocolar um pedido de investigação parlamentar somente no Senado. A segunda é acuar o PSDB, que levantou a bandeira por uma investigação no Congresso após as recentes denúncias sobre o uso abusivo do cartão. Ao propor apuração desde 1998, o governo tenta intimidar os tucanos e diminuir o impacto de qualquer investigação.

A estratégia foi acertada num telefonema entre o líder do governo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim da manhã de ontem. Jucá ligou para Lula, que passa férias no Guarujá, e o convenceu de que sair na frente da oposição seria uma forma de mostrar que o governo não estava preocupado com a CPI. Além de diminuir o espaço de pressão dos adversários. “O governo não pode ficar refém”, avalia Jucá. Até porque, dizem os governistas, o Palácio do Planalto tem força para impedir uma investigação na Câmara, onde possui maioria folgada. Não tem, porém, como evitar uma no Senado. A oposição consegue sem problemas as 27 assinaturas exigidas entre os 81 senadores para instalar uma CPI.

Lula topou a jogada e deu carta branca a Jucá, que ainda convenceu a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Tática combinada, chegava a hora de buscar assinaturas. O Congresso realizava a sua primeira sessão do ano. Na Mesa Diretora, os presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP); do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN); e do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie, além de Dilma Rousseff. Jucá roubou a cena. Surpreendeu parlamentares e jornalistas com um requerimento na mão. E passou a coletar assinaturas dos colegas. Em pouco tempo, atingiu as 27 mínimas necessárias para uma CPI. Protocolou o requerimento na Secretaria-Geral com 32.

Pronto para coletar adesões a uma CPI Mista, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) se irritou com a postura do líder do governo no Senado. Chegou a procurá-lo dentro do plenário para entender o que estava acontecendo. Logo depois, partiu para o ataque. “É uma manobra para evitar investigação. Quando o líder do governo começa a coletar assinaturas, bem intencionado ele não está. Além de ser uma proposta deselegante, foi motivada por uma causa obscura, típica de quem não quer investigar, disse Sampaio. O deputado tucano avisou que insistirá na tentativa de criar uma CPI Mista, embora saiba que, com o boicote do governo, será difícil atingir as 171 assinaturas de deputados.

Entre os 32 senadores que assinaram o requerimento de Jucá, apareceram alguns da oposição, como Demostenes Torres (DEM-GO) e Heráclito Fortes (DEM-PI). “Se o jogo é esse, vamos jogá-lo. Eu já me ofereço para ser o relator”, alfinetou Demostenes. Pega de surpresa, a oposição no Senado não deu uma resposta imediata à ação do governo. Até porque os líderes do DEM no Senado, José Agripino (RN); e do PSDB, Arthur Virgílio (AM), não estavam em plenário ontem. A expectativa é que eles discutam a partir de hoje como responder à iniciativa do governo. Já o PPS informou que pretende entrar com ação no STF para derrubar o sigilo em gastos da Presidência da República. Arthur Virgílio também pretende fazer o mesmo na segunda-feira.

Agora, o requerimento que pede a CPI no Senado depende de uma leitura em plenário do presidente da Casa. Logo depois, é aberto um prazo para indicar os seus membros. O governo torce para que até lá haja um clima menos bélico com a oposição, podendo até abrir uma CPI, mas evitando aprofundar a investigação.


GASTOS COM O AEROLULA
Informação veiculada no blog do Democratas aponta que quatro tripulantes do Aerolula recebem como Pessoa Física e Jurídica. No total, eles, todos militares da ativa na Aeronáutica, receberam R$ 2 milhões em 2007. Um dos pilotos do avião presidencial recebeu, segundo dados levantados no Portal da Transparência do governo federal, R$ 623.694,15 ao longo do ano. Uma média mensal de R$ 51.974,45. Um outro tripulante recebeu R$ 444.640,26, o que corresponde a uma média de R$ 37 mil. Fontes do Palácio do Planalto informavam ontem que essas despesas se referem a gastos nos aeroportos e estão relacionadas a combustível, alimentação dos passageiros e parking (estacionamento) da aeronave. 
 
personagem da notícia
O líder de todos os governos

O senador Romero Jucá (PMDB-RR) é um velho conhecido de governistas e oposicionistas. Mas é, acima de tudo, um homem de confiança de presidentes da República. Foi assim no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). E a história se repete no de Luiz Inácio Lula da Silva. Jucá liderou o governo FHC no Congresso, e faz o mesmo no de Lula. Era filiado ao PSDB. Hoje está no PMDB. Ex-governador de Roraima, Jucá tem fama de bom articulador. Transita bem em todos os partidos e conhece os meandros das negociações políticas.

Vira e mexe tem que ouvir que jamais abandonará o posto de líder do governo, seja qual for o presidente da República. Chegou a ser ministro da Previdência de Lula, mas virou alvo de denúncias de que teria usado fazendas fantasmas para garantia de um empréstimo bancário. Saiu da pasta, mas não do governo. Assumiu a liderança do Palácio do Planalto no Senado com a queda de Aloizio Mercadante (PT-SP), envolvido no escândalo do dossiê da máfia dos sanguessugas em outubro de 2006.

Desde então, Jucá vive uma queda-de-braço com o PT. O partido não engoliu até hoje ter perdido a liderança do governo. Nos bastidores, não poupa críticas a Jucá. Responsabiliza-o, por exemplo, pela derrota da CPMF. O PT alega que Jucá dialoga demais com a oposição e pouco com a própria base do governo.

O partido sonha em reassumir o posto. Dentro da bancada petista, o preferido é o senador Tião Viana (PT-AC). Jucá evita bater de frente. Dá pouca bola aos petistasmais radicais. Quando alguém pergunta sobre a cobrança do partido, diz que cabe a Lula escolher quem comandará sua tropa de choque.

Jucá é um sobrevivente político por excelência. Conseguiu manter-se no poder mesmo com a mudança de FHC por Lula. Aliado de Renan Calheiros, passou incólume pela queda do ex-presidente do Senado. Não é fácil de derrubar.

Leandro Colon e Fernanda Odilla
Correio Braziliense

Planalto se antecipa à oposição e colhe assinaturas para a CPI dos Cartões que investigará até a gestão de FHC
 
O governo decidiu embaralhar o jogo da CPI dos Cartões. O líder do Palácio do Planalto no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), protocolou ontem um pedido de criação de uma CPI na Casa sobre esse tema. Com uma pitada de provocação: incluiu gastos desde 1998, atingindo o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Como o cartão foi criado em 2001, Jucá colocou no documento as contas bancárias que recebiam o mesmo dinheiro até então. São as chamadas “contas tipo B”, que foram mantidas, mas reduzidas após a chegada do cartão corporativo. “O governo não tem medo de CPI”, afirmou Jucá.

A jogada do líder do governo tem como principal objetivo inviabilizar qualquer comissão de inquérito, e principalmente a mista (Câmara e Senado), proposta pela oposição. A primeira ação, já realizada, foi se antecipar e protocolar um pedido de investigação parlamentar somente no Senado. A segunda é acuar o PSDB, que levantou a bandeira por uma investigação no Congresso após as recentes denúncias sobre o uso abusivo do cartão. Ao propor apuração desde 1998, o governo tenta intimidar os tucanos e diminuir o impacto de qualquer investigação.

A estratégia foi acertada num telefonema entre o líder do governo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim da manhã de ontem. Jucá ligou para Lula, que passa férias no Guarujá, e o convenceu de que sair na frente da oposição seria uma forma de mostrar que o governo não estava preocupado com a CPI. Além de diminuir o espaço de pressão dos adversários. “O governo não pode ficar refém”, avalia Jucá. Até porque, dizem os governistas, o Palácio do Planalto tem força para impedir uma investigação na Câmara, onde possui maioria folgada. Não tem, porém, como evitar uma no Senado. A oposição consegue sem problemas as 27 assinaturas exigidas entre os 81 senadores para instalar uma CPI.

Lula topou a jogada e deu carta branca a Jucá, que ainda convenceu a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Tática combinada, chegava a hora de buscar assinaturas. O Congresso realizava a sua primeira sessão do ano. Na Mesa Diretora, os presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP); do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN); e do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie, além de Dilma Rousseff. Jucá roubou a cena. Surpreendeu parlamentares e jornalistas com um requerimento na mão. E passou a coletar assinaturas dos colegas. Em pouco tempo, atingiu as 27 mínimas necessárias para uma CPI. Protocolou o requerimento na Secretaria-Geral com 32.

Pronto para coletar adesões a uma CPI Mista, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) se irritou com a postura do líder do governo no Senado. Chegou a procurá-lo dentro do plenário para entender o que estava acontecendo. Logo depois, partiu para o ataque. “É uma manobra para evitar investigação. Quando o líder do governo começa a coletar assinaturas, bem intencionado ele não está. Além de ser uma proposta deselegante, foi motivada por uma causa obscura, típica de quem não quer investigar, disse Sampaio. O deputado tucano avisou que insistirá na tentativa de criar uma CPI Mista, embora saiba que, com o boicote do governo, será difícil atingir as 171 assinaturas de deputados.

Entre os 32 senadores que assinaram o requerimento de Jucá, apareceram alguns da oposição, como Demostenes Torres (DEM-GO) e Heráclito Fortes (DEM-PI). “Se o jogo é esse, vamos jogá-lo. Eu já me ofereço para ser o relator”, alfinetou Demostenes. Pega de surpresa, a oposição no Senado não deu uma resposta imediata à ação do governo. Até porque os líderes do DEM no Senado, José Agripino (RN); e do PSDB, Arthur Virgílio (AM), não estavam em plenário ontem. A expectativa é que eles discutam a partir de hoje como responder à iniciativa do governo. Já o PPS informou que pretende entrar com ação no STF para derrubar o sigilo em gastos da Presidência da República. Arthur Virgílio também pretende fazer o mesmo na segunda-feira.

Agora, o requerimento que pede a CPI no Senado depende de uma leitura em plenário do presidente da Casa. Logo depois, é aberto um prazo para indicar os seus membros. O governo torce para que até lá haja um clima menos bélico com a oposição, podendo até abrir uma CPI, mas evitando aprofundar a investigação.


GASTOS COM O AEROLULA
Informação veiculada no blog do Democratas aponta que quatro tripulantes do Aerolula recebem como Pessoa Física e Jurídica. No total, eles, todos militares da ativa na Aeronáutica, receberam R$ 2 milhões em 2007. Um dos pilotos do avião presidencial recebeu, segundo dados levantados no Portal da Transparência do governo federal, R$ 623.694,15 ao longo do ano. Uma média mensal de R$ 51.974,45. Um outro tripulante recebeu R$ 444.640,26, o que corresponde a uma média de R$ 37 mil. Fontes do Palácio do Planalto informavam ontem que essas despesas se referem a gastos nos aeroportos e estão relacionadas a combustível, alimentação dos passageiros e parking (estacionamento) da aeronave. 
 
personagem da notícia
O líder de todos os governos

O senador Romero Jucá (PMDB-RR) é um velho conhecido de governistas e oposicionistas. Mas é, acima de tudo, um homem de confiança de presidentes da República. Foi assim no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). E a história se repete no de Luiz Inácio Lula da Silva. Jucá liderou o governo FHC no Congresso, e faz o mesmo no de Lula. Era filiado ao PSDB. Hoje está no PMDB. Ex-governador de Roraima, Jucá tem fama de bom articulador. Transita bem em todos os partidos e conhece os meandros das negociações políticas.

Vira e mexe tem que ouvir que jamais abandonará o posto de líder do governo, seja qual for o presidente da República. Chegou a ser ministro da Previdência de Lula, mas virou alvo de denúncias de que teria usado fazendas fantasmas para garantia de um empréstimo bancário. Saiu da pasta, mas não do governo. Assumiu a liderança do Palácio do Planalto no Senado com a queda de Aloizio Mercadante (PT-SP), envolvido no escândalo do dossiê da máfia dos sanguessugas em outubro de 2006.

Desde então, Jucá vive uma queda-de-braço com o PT. O partido não engoliu até hoje ter perdido a liderança do governo. Nos bastidores, não poupa críticas a Jucá. Responsabiliza-o, por exemplo, pela derrota da CPMF. O PT alega que Jucá dialoga demais com a oposição e pouco com a própria base do governo.

O partido sonha em reassumir o posto. Dentro da bancada petista, o preferido é o senador Tião Viana (PT-AC). Jucá evita bater de frente. Dá pouca bola aos petistasmais radicais. Quando alguém pergunta sobre a cobrança do partido, diz que cabe a Lula escolher quem comandará sua tropa de choque.

Jucá é um sobrevivente político por excelência. Conseguiu manter-se no poder mesmo com a mudança de FHC por Lula. Aliado de Renan Calheiros, passou incólume pela queda do ex-presidente do Senado. Não é fácil de derrubar.