antigas Publicado: 4/02/2009 | 10:44

Niemeyer desiste da praça na esplanada

NIEMEYER ABRE MÃO DA POLÊMICA PRAÇA
Autor(es): Nahima Maciel
Correio Braziliense - 04/02/2009
 

 

O projeto do monumento à soberania, com obelisco e Memorial dos Presidentes, ficará na gaveta. Arquiteto desistiu da obra que inflamou a capital, acatando argumento da falta de dinheiro para a construção

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 11/12/08
Niemeyer: “O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada”
 

Arquivo/Escritório de arquitetura Oscar Niemeyer
Praça da Soberania: Tema discutido na “medida certa”, diz o arquiteto
 
 
Depois de duas semanas na trincheira, alvo de intensos debates e discussões, Oscar Niemeyer decidiu encerrar a polêmica sobre a construção da Praça da Soberania na Esplanada dos Ministérios. Entristecido, emocionalmente exausto e convicto de que o tema foi discutido na “medida certa”, o arquiteto escreveu o artigo em que se propõe a encerrar a questão e colocar de lado a ideia da praça — ao menos, “provisoriamente”. Aliviado e convencido de que este é o ponto final, Niemeyer vai se entregar novamente à leitura de A viagem do elefante, do português José Saramago, o romance que conta a história de um elefante transportado de Portugal à Áustria no século 16. O elefante era um presente para a coroa austríaca. Um presente menos polêmico que aquele oferecido pelo arquiteto a Brasília.

O texto ao lado é o quarto escrito pelo arquiteto nos últimos 14 dias — todos foram publicados pelo Correio. No primeiro, Niemeyer, que esteve em Brasília no fim de 2008 às vésperas de completar 101 anos, criticou o tombamento. Afirmou, em 22 de janeiro, que “as metrópoles mundiais vêm sofrendo mudanças que se justificam, impossíveis de conter”.

No artigo do último dia 30, quando muitos especialistas e a população brasiliense já haviam se manifestado contra a construção da praça, o arquiteto ofereceu uma explicação do projeto. Dizia que a “briga” estava boa, polarizada entre as opiniões que considerava “elegantes” e aquelas “petulantes”. E já sugeria ao governador José Roberto Arruda criar uma comissão para tratar dos problemas urbanísticos de Brasília e demais cidades do Distrito Federal.

O arquiteto insistia, em seu terceiro texto, no dia 1º deste mês, na necessidade de voltar os olhares para todo o DF. A separação entre ricos bem acomodados no Plano Piloto e pobres amontoados nos arredores perturbou Niemeyer. Mais uma vez, ele pediu comissão para avaliaros desafios urbanísticas da capital. A proposta dividiu os especialistas. Alguns lembraram que já existem vários grupos com essa função, entre eles o Conselho de Planejamento Territorial do DF (Conplan) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Arruda acolheu a ideia de reunir arquitetos, mas não prometeu criar a comissão.

Agora, Niemeyer reforça a importância da praça, mas acata a falta de dinheiro alegada pelo governador para não prosseguir com o projeto. E avisa que vai se recolher às suas leituras e aulas de cosmologia, uma atividade que encara como um aprendizado da pequenez humana no universo infinito.


Leia: artigos de especialistas

Decisão

Dois ou três dias atrás era com entusiasmo que eu acompanhava, nos jornais, as discussões surgidas em torno da possibilidade de se inserir em Brasília a nova praça que projetei. Uma praça monumental, tão bonita que, acreditávamos, daria ao Plano Piloto a importância desejada.

Sabíamos que essa obra em nada prejudicaria o Plano Piloto, que, ao contrário, garantiria a esta capital o estacionamento para 3.000 carros que faltava. E parecia-nos ver a praça já construída, tendo, de um lado, o prédio baixo e sinuoso correspondente ao Memorial dos Presidentes, e, no centro, um grande triângulo destinado a uma exposição permanente sobre o progresso de nosso país — triângulo que, pouco a pouco, se ia transformando no monumento principal da cidade.

E foi com a apresentação desse projeto que há várias semanas uma polêmica se estendeu, ocupando os jornais. Confesso que eu não esperava tanto apoio dos que sobre a questão se manifestaram. Na verdade, alguns dos mais conhecidos arquitetos que atuaram em Brasília acorreram a me prestigiar, inclusive Lelé, que para mim telefonou esta manhã dizendo: “Oscar, estou doente, febril. Mas, se você precisar de mim, é só me ligar”.

E foi diante dessas provas de grande amizade que li nos jornais que o governador José Roberto Arruda, por falta de verba e de tempo, reconhecia ser agora impossível realizar a construção da praça que tanto desejava.

Com pesar nos reunimos, eu e meus companheiros de Brasília, para avaliar o que se passava. E chegamos à conclusão de que o governador do Distrito Federal não teria, como nos comunicou, condições para executar aquele projeto que tanto o empolgava.

O que fazer? O único pensamento que nos ocorria era, compreensivos, agradecer o apoio que o governador, com inegável interesse, nos dera e pôr de lado — provisoriamente — a idéia que muito nos entusiasmara. O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada.

Confesso que, ao tomar esta decisão, alguns dos meus companheiros pareceram magoados, embora sentisse em todos e em mim mesmo um certo alívio em pôr um ponto final a essa celeuma que tanto nos ocupara.

E compreendi que esta noite, mais tranquilo, voltaria à leitura de A viagem do elefante, que Saramago, esse grande escritor português, tão gentilmente me enviou. E amanhã, terça-feira [ontem], vou assistir com os meus amigos às aulas de cosmologia e filosofia que há cinco anos o físico Luiz Alberto Oliveira ministra para nós, fazendo-nos sentir que o que mais importa não são as tarefas que às vezes com sucesso realizamos, mas sim a luta por um mundo mais justo e solidário que nos ocupa, e que um dia, mais próximo do que imaginamos, se tornará realidade.

Oscar Niemeyer
 

Opinião popular

Entre 25 e 28 de janeiro, uma enquete realizada pelo Correiobraziliense.com.br contou com o voto de 4.066 internautas — 75,87% deles rejeitaram a proposta da Praça da Soberania. Durante a semana, artigos e entrevistas de especialistas expuseram a celeuma. O obelisco de 100m ofuscaria a monumentalidade da Esplanada, disseram alguns. A genialidade de Niemeyer justificaria sua nova criação, argumentaram outros.
 

NIEMEYER ABRE MÃO DA POLÊMICA PRAÇA
Autor(es): Nahima Maciel
Correio Braziliense - 04/02/2009
 

 

O projeto do monumento à soberania, com obelisco e Memorial dos Presidentes, ficará na gaveta. Arquiteto desistiu da obra que inflamou a capital, acatando argumento da falta de dinheiro para a construção

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 11/12/08
Niemeyer: “O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada”
 

Arquivo/Escritório de arquitetura Oscar Niemeyer
Praça da Soberania: Tema discutido na “medida certa”, diz o arquiteto
 
 
Depois de duas semanas na trincheira, alvo de intensos debates e discussões, Oscar Niemeyer decidiu encerrar a polêmica sobre a construção da Praça da Soberania na Esplanada dos Ministérios. Entristecido, emocionalmente exausto e convicto de que o tema foi discutido na “medida certa”, o arquiteto escreveu o artigo em que se propõe a encerrar a questão e colocar de lado a ideia da praça — ao menos, “provisoriamente”. Aliviado e convencido de que este é o ponto final, Niemeyer vai se entregar novamente à leitura de A viagem do elefante, do português José Saramago, o romance que conta a história de um elefante transportado de Portugal à Áustria no século 16. O elefante era um presente para a coroa austríaca. Um presente menos polêmico que aquele oferecido pelo arquiteto a Brasília.

O texto ao lado é o quarto escrito pelo arquiteto nos últimos 14 dias — todos foram publicados pelo Correio. No primeiro, Niemeyer, que esteve em Brasília no fim de 2008 às vésperas de completar 101 anos, criticou o tombamento. Afirmou, em 22 de janeiro, que “as metrópoles mundiais vêm sofrendo mudanças que se justificam, impossíveis de conter”.

No artigo do último dia 30, quando muitos especialistas e a população brasiliense já haviam se manifestado contra a construção da praça, o arquiteto ofereceu uma explicação do projeto. Dizia que a “briga” estava boa, polarizada entre as opiniões que considerava “elegantes” e aquelas “petulantes”. E já sugeria ao governador José Roberto Arruda criar uma comissão para tratar dos problemas urbanísticos de Brasília e demais cidades do Distrito Federal.

O arquiteto insistia, em seu terceiro texto, no dia 1º deste mês, na necessidade de voltar os olhares para todo o DF. A separação entre ricos bem acomodados no Plano Piloto e pobres amontoados nos arredores perturbou Niemeyer. Mais uma vez, ele pediu comissão para avaliaros desafios urbanísticas da capital. A proposta dividiu os especialistas. Alguns lembraram que já existem vários grupos com essa função, entre eles o Conselho de Planejamento Territorial do DF (Conplan) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Arruda acolheu a ideia de reunir arquitetos, mas não prometeu criar a comissão.

Agora, Niemeyer reforça a importância da praça, mas acata a falta de dinheiro alegada pelo governador para não prosseguir com o projeto. E avisa que vai se recolher às suas leituras e aulas de cosmologia, uma atividade que encara como um aprendizado da pequenez humana no universo infinito.


Leia: artigos de especialistas

Decisão

Dois ou três dias atrás era com entusiasmo que eu acompanhava, nos jornais, as discussões surgidas em torno da possibilidade de se inserir em Brasília a nova praça que projetei. Uma praça monumental, tão bonita que, acreditávamos, daria ao Plano Piloto a importância desejada.

Sabíamos que essa obra em nada prejudicaria o Plano Piloto, que, ao contrário, garantiria a esta capital o estacionamento para 3.000 carros que faltava. E parecia-nos ver a praça já construída, tendo, de um lado, o prédio baixo e sinuoso correspondente ao Memorial dos Presidentes, e, no centro, um grande triângulo destinado a uma exposição permanente sobre o progresso de nosso país — triângulo que, pouco a pouco, se ia transformando no monumento principal da cidade.

E foi com a apresentação desse projeto que há várias semanas uma polêmica se estendeu, ocupando os jornais. Confesso que eu não esperava tanto apoio dos que sobre a questão se manifestaram. Na verdade, alguns dos mais conhecidos arquitetos que atuaram em Brasília acorreram a me prestigiar, inclusive Lelé, que para mim telefonou esta manhã dizendo: “Oscar, estou doente, febril. Mas, se você precisar de mim, é só me ligar”.

E foi diante dessas provas de grande amizade que li nos jornais que o governador José Roberto Arruda, por falta de verba e de tempo, reconhecia ser agora impossível realizar a construção da praça que tanto desejava.

Com pesar nos reunimos, eu e meus companheiros de Brasília, para avaliar o que se passava. E chegamos à conclusão de que o governador do Distrito Federal não teria, como nos comunicou, condições para executar aquele projeto que tanto o empolgava.

O que fazer? O único pensamento que nos ocorria era, compreensivos, agradecer o apoio que o governador, com inegável interesse, nos dera e pôr de lado — provisoriamente — a idéia que muito nos entusiasmara. O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada.

Confesso que, ao tomar esta decisão, alguns dos meus companheiros pareceram magoados, embora sentisse em todos e em mim mesmo um certo alívio em pôr um ponto final a essa celeuma que tanto nos ocupara.

E compreendi que esta noite, mais tranquilo, voltaria à leitura de A viagem do elefante, que Saramago, esse grande escritor português, tão gentilmente me enviou. E amanhã, terça-feira [ontem], vou assistir com os meus amigos às aulas de cosmologia e filosofia que há cinco anos o físico Luiz Alberto Oliveira ministra para nós, fazendo-nos sentir que o que mais importa não são as tarefas que às vezes com sucesso realizamos, mas sim a luta por um mundo mais justo e solidário que nos ocupa, e que um dia, mais próximo do que imaginamos, se tornará realidade.

Oscar Niemeyer
 

Opinião popular

Entre 25 e 28 de janeiro, uma enquete realizada pelo Correiobraziliense.com.br contou com o voto de 4.066 internautas — 75,87% deles rejeitaram a proposta da Praça da Soberania. Durante a semana, artigos e entrevistas de especialistas expuseram a celeuma. O obelisco de 100m ofuscaria a monumentalidade da Esplanada, disseram alguns. A genialidade de Niemeyer justificaria sua nova criação, argumentaram outros.