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Publicado: 17/12/2007 | 11:05
Chance para os excluídos
Correio Braziliense
Pesquisa revela que empresas estão abrindo as portas aos desempregados. Mas, apesar disso, eles recebem salários mais baixos e têm menos opções de escolha em relação a quem troca de emprego
A melhora do mercado de trabalho brasileiro nos últimos anos enfraqueceu o processo de dança das cadeiras verificado até a década passada. Em 1999, mais da metade dos profissionais contratados, 57,18%, estava empregado em outra empresa e apenas mudou de chefe. Neste ano a situação se inverteu. De cada 100 admitidos, 63,08% estavam desempregados quando foram selecionados, como aponta um estudo elaborado pela consultoria em recursos humanos Catho. “Houve uma melhora do mercado de trabalho e, com a competitividade, o nível dos trabalhadores melhorou. Os profissionais estão investindo mais em qualificação profissional, mesmo os que estão desempregados”, analisa Gláucia Santos, uma das responsáveis pelo estudo A contratação, a demissão e a carreira dos executivos brasileiros — edição 2007.
Apesar do aumento das oportunidades, os desempregados continuam sendo discriminados. O levantamento mostra que eles têm menor poder de barganha e, segundo recrutadores de recursos humanos, algumas companhias os excluem dos processos de seleção. A prioridade é convidar funcionários dos concorrentes. Quanto maior a empresa, maior é a probabilidade de ela recusar quem não está trabalhando. Segundo o estudo, nas companhias com faturamento anual abaixo de US$ 15 milhões metade dos admitidos estava desempregado. À medida em que cresce o lucro, diminui a participação dos que estão fora do mercado de trabalho. Nas empresas com faturamento superior a US$ 100 milhões, eles representam apenas 39,81% dos novos contratados.
“As companhias maiores partem do princípio de que os bons estão no mercado. Há o pensamento de que isso só vão encontrar no concorrente ou em uma empresa maior”, analisa a gerente da Intellijob Consultoria, Marillac de Castro. Segundo ela, os desempregados só têm preferência quando a urgência é maior. “Acontece isso, quando as empresas têm urgência e não querem esperar o outro profissional pedir desligamento” explica.
De acordo com as especialistas, quanto maior o tempo de desemprego, menores são as chances de ser selecionado. Apesar de o período de espera por uma vaga ser menor do que em 1997, ele ainda é muito longo. Em média, um desempregado aguarda oito meses para ser selecionado. Em 1997 o tempo era de quase um ano. A demora é maior nos extremos. Um presidente ou diretor de uma empresa procura por 18 meses, em média, segundo a pesquisa. Os ocupantes de cargos administrativos também amargam uma longa espera — de 13,66 meses, em média. Já entre os gerentes, supervisores, consultores e profissionais especializados, esse tempo não passa de sete meses.
Até conseguirem uma vaga, os trabalhadores têm poucos sinais de esperança. Metade dos desempregados disse não ter participado de nenhum processo de seleção nos últimos 12 meses. Outros 37,43% fizeram entre uma e três entrevistas de emprego. Os que ocuparam cargos mais elevados tiveram menos oportunidades. De acordo com o levantamento, 73,81% dos que foram vice-presidentes e 69,46% dos ex-presidentes e ex-diretores disseram não ter sido entrevistados nos últimos 12 meses. O número despenca para 23,70% no caso dos estagiários e 29,59% dos trainees e recém-formados. Segundo Gláucia, da Catho, os cargos com menores nível hierárquico e qualificação levam menos tempo para serem preenchidos porque a exigência é mais baixa. Já dos executivos se espera uma carreira mais estável e, por isso, o preconceito acaba sendo mais forte.
Procurando uma vaga há um ano e três meses, o executivo Maurício Octávio Nascimento de Oliveira, de 40 anos, percebe os obstáculos do mercado em absorver profissionais mais qualificados. Por 15 anos ele foi gerente de contas de uma das maiores gravadoras do país e pediu desligamento para se especializar na Espanha. Graduado e pós-graduado em marketing, ele retornou para Brasília em meados de 2006 e, desde então, já participou de diversas seleções, foi escolhido em algumas, mas recusou porque o salário ou a função eram inferiores ao que procura. “Investi na minha carreira e acho que deveria ser mais valorizado do que um profissional que está empregado há 10 anos em uma mesma empresa e não tem a mesma visão do todo que eu tenho.”
As companhias maiores partem do princípio de que os bons estão no mercado
Marillac de Castro, gerente da Intellijob Consultoria
Margem de negociação é limitada
Os motivos que levam os desempregados a aceitar um emprego são bem diferentes dos profissionais que trocam de empresas. A falta de opção é apontada por 35,65% dos entrevistados que estavam em busca de uma vaga, enquanto apenas 0,86% dos ocupados disseram ser esta a motivação. O que os move é a perspectiva de crescimento dentro da carreira (42,86%), contra 29,37% dos primeiros, e aumento salarial — 12,13% deram esse argumento, enquanto apenas 2,47% dos desempregados apontaram esse motivo.
Precisando da vaga, os desempregados têm menos chances de negociar as condições da contratação. Os empregadores se aproveitam da situação e fazem propostas mais tímidas. Oito em cada 10 deles aceitam a primeira oferta. E destes, seis aceitam ganhar salários iguais ou inferiores aos que recebiam no emprego anterior. Já os que estão empregados só aceitam o emprego quando vão receber mais do que ganhavam antes. “A vantagem de quem está empregado é que tem poder de negociação maior. Isso faz com que recebam salários mais altos, pois os empregadores aceitam dar mais benefícios”, afirma a consultora da Catho em Brasília, Rose Mary Vargas Guidi.
Com um bom currículo e vasta experiência apesar da pouca idade, a publicitária Giselle Armani Tobias, de 30 anos, teve uma oferta de salário reduzida quando a empresa soube que ela não estava ocupada no momento. Em outubro deste ano, ela deixou um cargo elevado em uma empresa de telecomunicações para se aventurar em outras áreas. Depois de oito anos na mesma companhia, achou que era o momento de trabalhar com novos produtos. “Tomei a decisão, me planejei, mas mesmo assim não é fácil. De qualquer forma, acho mais justo não estar empregada para procurar outro emprego, assim consigo estar mais focada e com objetivos bem traçados”, afirma. Em dois meses participou de cinco seleções, em uma delas a proposta salarial mudou quando o contratador soube que estava desempregada. “Mas nesse tempo estou tentando me manter atualizada com o mercado, além de estar cuidando bem de assuntos pessoais”, conta.
Correio Braziliense
Pesquisa revela que empresas estão abrindo as portas aos desempregados. Mas, apesar disso, eles recebem salários mais baixos e têm menos opções de escolha em relação a quem troca de emprego
A melhora do mercado de trabalho brasileiro nos últimos anos enfraqueceu o processo de dança das cadeiras verificado até a década passada. Em 1999, mais da metade dos profissionais contratados, 57,18%, estava empregado em outra empresa e apenas mudou de chefe. Neste ano a situação se inverteu. De cada 100 admitidos, 63,08% estavam desempregados quando foram selecionados, como aponta um estudo elaborado pela consultoria em recursos humanos Catho. “Houve uma melhora do mercado de trabalho e, com a competitividade, o nível dos trabalhadores melhorou. Os profissionais estão investindo mais em qualificação profissional, mesmo os que estão desempregados”, analisa Gláucia Santos, uma das responsáveis pelo estudo A contratação, a demissão e a carreira dos executivos brasileiros — edição 2007.
Apesar do aumento das oportunidades, os desempregados continuam sendo discriminados. O levantamento mostra que eles têm menor poder de barganha e, segundo recrutadores de recursos humanos, algumas companhias os excluem dos processos de seleção. A prioridade é convidar funcionários dos concorrentes. Quanto maior a empresa, maior é a probabilidade de ela recusar quem não está trabalhando. Segundo o estudo, nas companhias com faturamento anual abaixo de US$ 15 milhões metade dos admitidos estava desempregado. À medida em que cresce o lucro, diminui a participação dos que estão fora do mercado de trabalho. Nas empresas com faturamento superior a US$ 100 milhões, eles representam apenas 39,81% dos novos contratados.
“As companhias maiores partem do princípio de que os bons estão no mercado. Há o pensamento de que isso só vão encontrar no concorrente ou em uma empresa maior”, analisa a gerente da Intellijob Consultoria, Marillac de Castro. Segundo ela, os desempregados só têm preferência quando a urgência é maior. “Acontece isso, quando as empresas têm urgência e não querem esperar o outro profissional pedir desligamento” explica.
De acordo com as especialistas, quanto maior o tempo de desemprego, menores são as chances de ser selecionado. Apesar de o período de espera por uma vaga ser menor do que em 1997, ele ainda é muito longo. Em média, um desempregado aguarda oito meses para ser selecionado. Em 1997 o tempo era de quase um ano. A demora é maior nos extremos. Um presidente ou diretor de uma empresa procura por 18 meses, em média, segundo a pesquisa. Os ocupantes de cargos administrativos também amargam uma longa espera — de 13,66 meses, em média. Já entre os gerentes, supervisores, consultores e profissionais especializados, esse tempo não passa de sete meses.
Até conseguirem uma vaga, os trabalhadores têm poucos sinais de esperança. Metade dos desempregados disse não ter participado de nenhum processo de seleção nos últimos 12 meses. Outros 37,43% fizeram entre uma e três entrevistas de emprego. Os que ocuparam cargos mais elevados tiveram menos oportunidades. De acordo com o levantamento, 73,81% dos que foram vice-presidentes e 69,46% dos ex-presidentes e ex-diretores disseram não ter sido entrevistados nos últimos 12 meses. O número despenca para 23,70% no caso dos estagiários e 29,59% dos trainees e recém-formados. Segundo Gláucia, da Catho, os cargos com menores nível hierárquico e qualificação levam menos tempo para serem preenchidos porque a exigência é mais baixa. Já dos executivos se espera uma carreira mais estável e, por isso, o preconceito acaba sendo mais forte.
Procurando uma vaga há um ano e três meses, o executivo Maurício Octávio Nascimento de Oliveira, de 40 anos, percebe os obstáculos do mercado em absorver profissionais mais qualificados. Por 15 anos ele foi gerente de contas de uma das maiores gravadoras do país e pediu desligamento para se especializar na Espanha. Graduado e pós-graduado em marketing, ele retornou para Brasília em meados de 2006 e, desde então, já participou de diversas seleções, foi escolhido em algumas, mas recusou porque o salário ou a função eram inferiores ao que procura. “Investi na minha carreira e acho que deveria ser mais valorizado do que um profissional que está empregado há 10 anos em uma mesma empresa e não tem a mesma visão do todo que eu tenho.”
As companhias maiores partem do princípio de que os bons estão no mercado
Marillac de Castro, gerente da Intellijob Consultoria
Margem de negociação é limitada
Os motivos que levam os desempregados a aceitar um emprego são bem diferentes dos profissionais que trocam de empresas. A falta de opção é apontada por 35,65% dos entrevistados que estavam em busca de uma vaga, enquanto apenas 0,86% dos ocupados disseram ser esta a motivação. O que os move é a perspectiva de crescimento dentro da carreira (42,86%), contra 29,37% dos primeiros, e aumento salarial — 12,13% deram esse argumento, enquanto apenas 2,47% dos desempregados apontaram esse motivo.
Precisando da vaga, os desempregados têm menos chances de negociar as condições da contratação. Os empregadores se aproveitam da situação e fazem propostas mais tímidas. Oito em cada 10 deles aceitam a primeira oferta. E destes, seis aceitam ganhar salários iguais ou inferiores aos que recebiam no emprego anterior. Já os que estão empregados só aceitam o emprego quando vão receber mais do que ganhavam antes. “A vantagem de quem está empregado é que tem poder de negociação maior. Isso faz com que recebam salários mais altos, pois os empregadores aceitam dar mais benefícios”, afirma a consultora da Catho em Brasília, Rose Mary Vargas Guidi.
Com um bom currículo e vasta experiência apesar da pouca idade, a publicitária Giselle Armani Tobias, de 30 anos, teve uma oferta de salário reduzida quando a empresa soube que ela não estava ocupada no momento. Em outubro deste ano, ela deixou um cargo elevado em uma empresa de telecomunicações para se aventurar em outras áreas. Depois de oito anos na mesma companhia, achou que era o momento de trabalhar com novos produtos. “Tomei a decisão, me planejei, mas mesmo assim não é fácil. De qualquer forma, acho mais justo não estar empregada para procurar outro emprego, assim consigo estar mais focada e com objetivos bem traçados”, afirma. Em dois meses participou de cinco seleções, em uma delas a proposta salarial mudou quando o contratador soube que estava desempregada. “Mas nesse tempo estou tentando me manter atualizada com o mercado, além de estar cuidando bem de assuntos pessoais”, conta.