antigas Publicado: 13/02/2008 | 09:03

Muito barulho, pouco resultado

Leandro Colon e Fernanda Odilla

Correio Braziliense

Governo e oposição não se entendem sobre quem comandará a CPI dos Cartões, que sequer saiu do papel
 
Governo e oposição intensificaram ontem o empurra-empurra político em torno da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista dos Cartões. Enquanto isso, a data de instalação da comissão é um mistério. A investigação do uso abusivo dos cartões corporativos tão prometida pelos dois lados continua sendo só promessa e o requerimento que pede a CPI está à espera das assinaturas necessárias para a sua criação.

Ontem, PSDB e DEM decidiram exigir um cargo no comando da CPI. Querem a presidência ou a relatoria da comissão. A oposição fez um almoço para tentar mostrar a unidade e negar qualquer tipo de acordo com o governo para blindar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (leia texto na página 3).

Os dois partidos ameaçam impedir as votações no Senado caso o governo não aceite ceder um dos cargos. Os deputados da oposição prometem ser solidários e obstruir os trabalhos na Câmara para pressionar a partilha dos postos-chave da CPI. Pelo regimento, a maior bancada do Senado indica o presidente, que, eleito simbolicamente pela comissão, escolhe o relator, cargo que costuma ser do partido com o maior número de cadeiras na Câmara. Se criada, a CPI terá, em princípio, 11 senadores e 11 deputados titulares repetindo a proporção dos blocos partidários (veja quadro). Mas partidos pequenos, como o PSol, prometem lutar para ampliar para 34 o número de integrantes da comissão.

O PMDB, dono das maiores bancadas nas duas casas, já anunciou que pretende indicar o senador Neuto de Conto (PMDB-SC) para a presidência da CPI. O partido avisou que abre mão da relatoria para o PT, segunda maior bancada de deputados. Não passa pela cabeça do governo abrir mão da função de relator, que conduz as investigações. Ainda se estuda a hipótese de entregar a presidência da CPI a um senador da oposição. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), adotou um discurso conciliador. Afirmou que defende a divisão dos cargos, desde que a oposição não pressione. “Não é com imposição que vamos chegar a um entendimento. Não é com a faca no pescoço”, afirmou, ontem, em plenário.

O discurso, por enquanto, é só político. O líder do governo tenta evitar o embate com a oposição. Diz que, por ele, negocia e pede que os adversários abaixem a guarda. O tom harmonioso faz parte da estratégia do governo de não endurecer o jogo com DEM e PSDB. Não interessa ao Palácio do Planalto um clima bélico nessa CPI. O governo aposta que pelo menos os tucanos estão dispostos a ter uma postura cordial na investigação. Jucá joga a responsabilidade para o PMDB. Diz que cabe ao partido decidir se passa ou não a presidência à oposição.

Jucá diz isso porque sabe que o líder do partido, Valdir Raupp (RO), não cogita, por enquanto, entregar a presidência da comissão. “Não abro mão. Eu assumi um compromisso e convidei o senador Neuto de Conto. O PMDB é a maior bancada”, afirmou. A oposição se irritou com a postura de Raupp de lançar o nome de Conto. Na reunião de líderes partidários com o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Arthur Virgílio (AM), que comanda a bancada do PSDB, e José Agripino (RN), à frente da bancada do DEM, endureceram o discurso. Alegaram que, desde 2005, o governo não divide o comando de uma CPI mista. “Não podemos ficar de fora disso”, disse o tucano. “Se o governo não ceder é porque houve breque do Palácio do Planalto”, atacou Agripino. Os líderes contaram com apoio de Garibaldi nessa briga. “Eu acho que os cargos deveriam ser divididos”, afirmou o presidente do Senado.

Acordo
DEM e PSDB sabem que o governo não é obrigado a ceder, mas fazem questão de constranger o Palácio do Planalto. Esperam, no máximo, um acordo para assumirem a presidência da CPI com um nome “palatável”, segundo um senador de oposição. O PSDB já acertou com o DEM que, se isso ocorrer, um tucano ficará com o posto. Na bolsa de apostas, aparecem Marisa Serrano (MS) e Marconi Perillo (GO). Se sobrar apenas uma sub-relatoria, o nome escolhido é o do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), autor do requerimento que pede a CPI. “Mais importante que a presidência é uma CPI mista”, pondera o líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS).

Enquanto a oposição pressiona pela presidência, o PT já mira quem terá a missão de conduzir interrogatórios e sugerir indiciamentos. Ontem, o novo líder da legenda na Câmara, deputado Maurício Rands (PE), passou parte da noite reunido com petistas para discutir nomes. Não fecharam a indicação para o relator, mas sinalizaram que é preciso um deputado leal, bem articulado com a oposição e que não vai disputar as eleições municipais em outubro. O mais cotado é o ex-líder do partido Luiz Sérgio (RJ), que diz não ter refletido sobre a relatoria. “Mas é sempre bom saber que meu nome é lembrado para missões como essa”, disse ontem. 
 
A provável composição da CPI*

11 deputados e 11 senadores

Câmara

Bloco PMDB/PT/PP/PR/PTB/PSC/PTC/PTdoB – 6 vagas
Bloco DEM/PSDB/PPS – 3 vagas
Bloco PSB/PDT/PCdoB/PMN/PAN – 1 vaga
PV – 1 vaga

Senado

Base do governo (PMDB/PT/PR/PCdoB/PSB/PRB/PP) – 6 vagas
DEM e PSDB – 4 vagas
PDT ou PTB – 1 vaga

Este quadro é baseado na proporção de cada Casa e pode ser alterado, dependendo de acordo entre partidos 
 
personagem da notícia
O discreto Neuto

Um nome pouco conhecido voltou a surgir nas rodas de senadores ontem para assumir um cargo importante no Senado. Neuto de Conto (PMDB-SC) foi lançado pelo líder do PMDB, Valdir Raupp (RO), à presidência da CPI dos Cartões. Conto era suplente do tucano Leonel Pavan, que deixou o Senado no começo de 2007 para ser vice-governador de Santa Catarina.

Ex-deputado federal, ligado ao ramo agropecuário, Conto tem uma atuação discreta e pertence hoje ao chamado baixo clero do Senado. Evita os holofotes da imprensa e o microfone em plenário. Vira e mexe, senadores confundem seu nome. O chamam, às vezes, de Neuto de Couto ou Newton de Conto.

Chegou a sonhar com a sucessão de Renan Calheiros (PMDB-AL) na Presidência do Senado. Perdeu a disputa interna na bancada do PMDB para o senador Garibaldi Alves Filho (RN). No ano passado, foi acusado de empregar o irmão, Neuro de Conto, no gabinete. Pressionado, o exonerou do cargo. Argumentou que tomou essa decisão para não haver “exploração indevida” do caso.

Agora, retorna ao noticiário. Diz que ainda não sabe se aceitará a missão de presidir uma CPI. “Pedi 48 horas. É uma função que exige dedicação e tenho muitas atividades para fazer”, afirmou. Mas não perdeu a chance de opinar sobre a crise envolvendo os cartões corporativos. “Acho que o cartão foi criado para buscar uma solução administrativa. E, pelo o que estou vendo na imprensa, isso não está ocorrendo”. 

 

Leandro Colon e Fernanda Odilla

Correio Braziliense

Governo e oposição não se entendem sobre quem comandará a CPI dos Cartões, que sequer saiu do papel
 
Governo e oposição intensificaram ontem o empurra-empurra político em torno da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista dos Cartões. Enquanto isso, a data de instalação da comissão é um mistério. A investigação do uso abusivo dos cartões corporativos tão prometida pelos dois lados continua sendo só promessa e o requerimento que pede a CPI está à espera das assinaturas necessárias para a sua criação.

Ontem, PSDB e DEM decidiram exigir um cargo no comando da CPI. Querem a presidência ou a relatoria da comissão. A oposição fez um almoço para tentar mostrar a unidade e negar qualquer tipo de acordo com o governo para blindar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (leia texto na página 3).

Os dois partidos ameaçam impedir as votações no Senado caso o governo não aceite ceder um dos cargos. Os deputados da oposição prometem ser solidários e obstruir os trabalhos na Câmara para pressionar a partilha dos postos-chave da CPI. Pelo regimento, a maior bancada do Senado indica o presidente, que, eleito simbolicamente pela comissão, escolhe o relator, cargo que costuma ser do partido com o maior número de cadeiras na Câmara. Se criada, a CPI terá, em princípio, 11 senadores e 11 deputados titulares repetindo a proporção dos blocos partidários (veja quadro). Mas partidos pequenos, como o PSol, prometem lutar para ampliar para 34 o número de integrantes da comissão.

O PMDB, dono das maiores bancadas nas duas casas, já anunciou que pretende indicar o senador Neuto de Conto (PMDB-SC) para a presidência da CPI. O partido avisou que abre mão da relatoria para o PT, segunda maior bancada de deputados. Não passa pela cabeça do governo abrir mão da função de relator, que conduz as investigações. Ainda se estuda a hipótese de entregar a presidência da CPI a um senador da oposição. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), adotou um discurso conciliador. Afirmou que defende a divisão dos cargos, desde que a oposição não pressione. “Não é com imposição que vamos chegar a um entendimento. Não é com a faca no pescoço”, afirmou, ontem, em plenário.

O discurso, por enquanto, é só político. O líder do governo tenta evitar o embate com a oposição. Diz que, por ele, negocia e pede que os adversários abaixem a guarda. O tom harmonioso faz parte da estratégia do governo de não endurecer o jogo com DEM e PSDB. Não interessa ao Palácio do Planalto um clima bélico nessa CPI. O governo aposta que pelo menos os tucanos estão dispostos a ter uma postura cordial na investigação. Jucá joga a responsabilidade para o PMDB. Diz que cabe ao partido decidir se passa ou não a presidência à oposição.

Jucá diz isso porque sabe que o líder do partido, Valdir Raupp (RO), não cogita, por enquanto, entregar a presidência da comissão. “Não abro mão. Eu assumi um compromisso e convidei o senador Neuto de Conto. O PMDB é a maior bancada”, afirmou. A oposição se irritou com a postura de Raupp de lançar o nome de Conto. Na reunião de líderes partidários com o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Arthur Virgílio (AM), que comanda a bancada do PSDB, e José Agripino (RN), à frente da bancada do DEM, endureceram o discurso. Alegaram que, desde 2005, o governo não divide o comando de uma CPI mista. “Não podemos ficar de fora disso”, disse o tucano. “Se o governo não ceder é porque houve breque do Palácio do Planalto”, atacou Agripino. Os líderes contaram com apoio de Garibaldi nessa briga. “Eu acho que os cargos deveriam ser divididos”, afirmou o presidente do Senado.

Acordo
DEM e PSDB sabem que o governo não é obrigado a ceder, mas fazem questão de constranger o Palácio do Planalto. Esperam, no máximo, um acordo para assumirem a presidência da CPI com um nome “palatável”, segundo um senador de oposição. O PSDB já acertou com o DEM que, se isso ocorrer, um tucano ficará com o posto. Na bolsa de apostas, aparecem Marisa Serrano (MS) e Marconi Perillo (GO). Se sobrar apenas uma sub-relatoria, o nome escolhido é o do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), autor do requerimento que pede a CPI. “Mais importante que a presidência é uma CPI mista”, pondera o líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS).

Enquanto a oposição pressiona pela presidência, o PT já mira quem terá a missão de conduzir interrogatórios e sugerir indiciamentos. Ontem, o novo líder da legenda na Câmara, deputado Maurício Rands (PE), passou parte da noite reunido com petistas para discutir nomes. Não fecharam a indicação para o relator, mas sinalizaram que é preciso um deputado leal, bem articulado com a oposição e que não vai disputar as eleições municipais em outubro. O mais cotado é o ex-líder do partido Luiz Sérgio (RJ), que diz não ter refletido sobre a relatoria. “Mas é sempre bom saber que meu nome é lembrado para missões como essa”, disse ontem. 
 
A provável composição da CPI*

11 deputados e 11 senadores

Câmara

Bloco PMDB/PT/PP/PR/PTB/PSC/PTC/PTdoB – 6 vagas
Bloco DEM/PSDB/PPS – 3 vagas
Bloco PSB/PDT/PCdoB/PMN/PAN – 1 vaga
PV – 1 vaga

Senado

Base do governo (PMDB/PT/PR/PCdoB/PSB/PRB/PP) – 6 vagas
DEM e PSDB – 4 vagas
PDT ou PTB – 1 vaga

Este quadro é baseado na proporção de cada Casa e pode ser alterado, dependendo de acordo entre partidos 
 
personagem da notícia
O discreto Neuto

Um nome pouco conhecido voltou a surgir nas rodas de senadores ontem para assumir um cargo importante no Senado. Neuto de Conto (PMDB-SC) foi lançado pelo líder do PMDB, Valdir Raupp (RO), à presidência da CPI dos Cartões. Conto era suplente do tucano Leonel Pavan, que deixou o Senado no começo de 2007 para ser vice-governador de Santa Catarina.

Ex-deputado federal, ligado ao ramo agropecuário, Conto tem uma atuação discreta e pertence hoje ao chamado baixo clero do Senado. Evita os holofotes da imprensa e o microfone em plenário. Vira e mexe, senadores confundem seu nome. O chamam, às vezes, de Neuto de Couto ou Newton de Conto.

Chegou a sonhar com a sucessão de Renan Calheiros (PMDB-AL) na Presidência do Senado. Perdeu a disputa interna na bancada do PMDB para o senador Garibaldi Alves Filho (RN). No ano passado, foi acusado de empregar o irmão, Neuro de Conto, no gabinete. Pressionado, o exonerou do cargo. Argumentou que tomou essa decisão para não haver “exploração indevida” do caso.

Agora, retorna ao noticiário. Diz que ainda não sabe se aceitará a missão de presidir uma CPI. “Pedi 48 horas. É uma função que exige dedicação e tenho muitas atividades para fazer”, afirmou. Mas não perdeu a chance de opinar sobre a crise envolvendo os cartões corporativos. “Acho que o cartão foi criado para buscar uma solução administrativa. E, pelo o que estou vendo na imprensa, isso não está ocorrendo”.