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Publicado: 22/11/2007 | 09:32
Chantagem dentro da própria base aliada
Daniel Pereira
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Líderes denunciam colegas que cobram liberação de emendas e nomeações de aliados para aprovar a prorrogação da CPMF
Depois da oposição, agora é a vez de líderes governistas acusarem colegas da base, mas sem nominá-los, de usar a proposta de emenda constitucional (PEC) que prorroga a cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) para chantagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros. Responsáveis por comandar as negociações no Senado, líderes dizem que aliados ameaçam votar contra a renovação do imposto do cheque para conseguir benefícios pessoais, como liberação de emendas e nomeação de afilhados para cargos públicos.
“Quando você tem maioria estreita como no Senado, é óbvio que o terreno fica propício para determinados vôos solos. Por isso, trabalhamos para evitar propostas não-publicáveis”, diz a líder do PT na Casa, Ideli Salvatti (SC). O partido tem 12 senadores. Como todos são favoráveis à prorrogação da CPMF, a queixa é destinada a outras bancadas. Ontem, Ideli conversou com o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que condiciona o apoio ao governo ao aumento das verbas para a área da educação.
A senadora elogia o nível da proposta de Cristovam, que teria o objetivo de melhorar o país. Ressalva, no entanto, que ela está longe de ser a regra. “Muitos percebem no debate condições de avançar em outras áreas. Agora, há os que têm outros tipos de interesse”, declara Ideli. Não republicanos? “Sempre aparece, né”, acrescenta. Segundo o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), o fracasso das negociações com o PSDB jogou nos ombros da bancada governista a responsabilidade de prorrogar a CPMF.
E, assim, deixou uma margem apertada para a aprovação. “Isso aumenta o poder de negociação dos parlamentares. O governo tem de ouvir os senadores e atender o que for justo”, declara Mercadante. Já Eduardo Suplicy (PT-SP) ressalta que a chantagem não é novidade. Lembra, por exemplo, da revolta da “turma dos franciscanos” do PMDB, que resultou na rejeição da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. “Em algumas situações isso (chantagem) acontece. A minha recomendação é para que se vote sempre de acordo com a consciência e não porque foi liberada tal emenda ou preenchido certo cargo público”, diz Suplicy.
Cobrança
Líder da bancada do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO) engrossa o coro. E acusa um senador do PR de cobrar muito caro para votar a favor da CPMF. “Ele está pedindo o que o governo não pode dar.” Ontem, o Correio revelou que dois senadores do PR — Expedito Júnior (RO) e César Borges (BA) — se negaram a almoçar com o ministro de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, no Palácio do Planalto. Ambos prometem votar contra a CPMF. Nada que não possa ser revertido, aposta Raupp.
Conhecedor do estilo dos colegas, o líder está encarregado de convencer o senador Valter Pereira (PMDB-MS) a apoiar a renovação do tributo. A missão não é das mais difíceis, conforme outros parlamentares. Para ser cumprida, bastaria a nomeação de Flodoaldo Alves de Alencar para o Incra de Mato Grosso do Sul. A barganha é tão explícita que ontem o senador Osmar Dias (PDT-PR) resolveu agir preventivamente, a fim de se livrar da pecha de fisiológico.
Dias anunciou em plenário que encaminhará ofício ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, colocando à sua disposição o cargo de delegado regional do Trabalho no Paraná, hoje ocupado por João Alberto Graça. “Darei meu voto de acordo com a minha consciência, sem vínculo de participação do PDT em indicação.”
Esperança nos tucanos
Pressionado por parte da base aliada, o governo aposta nas negociações de bastidor com a oposição para garantir a prorrogação da CPMF até 2011. Nesta semana, por exemplo, espera contar com a ajuda dos governadores tucanos, sobretudo José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), para impedir que o PSDB feche questão contra a renovação do imposto do cheque. Se a articulação der certo, o Palácio do Planalto acredita que conseguirá o apoio de pelo menos quatro dos 13 integrantes da bancada tucana.
São eles: Tasso Jereissati (CE), João Tenório (AL), Eduardo Azeredo (MG) e Cícero Lucena (PB). “Parte do PSDB tem expectativa de poder em 2010”, lembra um ministro que conversou recentemente com Serra e Aécio, possíveis candidatos à sucessão de Lula.
No DEM, são cortejados os senadores Jonas Pinheiro (MT) e Jayme Campos (MT), afagados com o atendimento de demandas do agronegócio. Adelmir Santana (DEM-DF) também é assediado. A tarefa de convencê-lo a aprovar a contribuição está nas mãos, entre outros, do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, aliado do presidente.
Negociação
A idéia do governo é aproveitar as três semanas até a votação da CPMF em plenário para sacramentar os acordos. “Vai depender muito da habilidade do governo para propor uma nova negociação”, diz o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), referindo-se aos tucanos.
Auxiliares do presidente Lula alegam que um acordo com o PSDB seria importante não apenas por assegurar à União uma fonte de receita estimada em R$ 40 bilhões no próximo ano. Mas por criar um novo tipo de relacionamento entre governo e oposição, no qual os interesses do país prevaleceriam sobre disputas eleitorais e sepultariam a barganha e o fisiologismo.
Daniel Pereira
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Líderes denunciam colegas que cobram liberação de emendas e nomeações de aliados para aprovar a prorrogação da CPMF
Depois da oposição, agora é a vez de líderes governistas acusarem colegas da base, mas sem nominá-los, de usar a proposta de emenda constitucional (PEC) que prorroga a cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) para chantagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros. Responsáveis por comandar as negociações no Senado, líderes dizem que aliados ameaçam votar contra a renovação do imposto do cheque para conseguir benefícios pessoais, como liberação de emendas e nomeação de afilhados para cargos públicos.
“Quando você tem maioria estreita como no Senado, é óbvio que o terreno fica propício para determinados vôos solos. Por isso, trabalhamos para evitar propostas não-publicáveis”, diz a líder do PT na Casa, Ideli Salvatti (SC). O partido tem 12 senadores. Como todos são favoráveis à prorrogação da CPMF, a queixa é destinada a outras bancadas. Ontem, Ideli conversou com o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que condiciona o apoio ao governo ao aumento das verbas para a área da educação.
A senadora elogia o nível da proposta de Cristovam, que teria o objetivo de melhorar o país. Ressalva, no entanto, que ela está longe de ser a regra. “Muitos percebem no debate condições de avançar em outras áreas. Agora, há os que têm outros tipos de interesse”, declara Ideli. Não republicanos? “Sempre aparece, né”, acrescenta. Segundo o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), o fracasso das negociações com o PSDB jogou nos ombros da bancada governista a responsabilidade de prorrogar a CPMF.
E, assim, deixou uma margem apertada para a aprovação. “Isso aumenta o poder de negociação dos parlamentares. O governo tem de ouvir os senadores e atender o que for justo”, declara Mercadante. Já Eduardo Suplicy (PT-SP) ressalta que a chantagem não é novidade. Lembra, por exemplo, da revolta da “turma dos franciscanos” do PMDB, que resultou na rejeição da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. “Em algumas situações isso (chantagem) acontece. A minha recomendação é para que se vote sempre de acordo com a consciência e não porque foi liberada tal emenda ou preenchido certo cargo público”, diz Suplicy.
Cobrança
Líder da bancada do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO) engrossa o coro. E acusa um senador do PR de cobrar muito caro para votar a favor da CPMF. “Ele está pedindo o que o governo não pode dar.” Ontem, o Correio revelou que dois senadores do PR — Expedito Júnior (RO) e César Borges (BA) — se negaram a almoçar com o ministro de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, no Palácio do Planalto. Ambos prometem votar contra a CPMF. Nada que não possa ser revertido, aposta Raupp.
Conhecedor do estilo dos colegas, o líder está encarregado de convencer o senador Valter Pereira (PMDB-MS) a apoiar a renovação do tributo. A missão não é das mais difíceis, conforme outros parlamentares. Para ser cumprida, bastaria a nomeação de Flodoaldo Alves de Alencar para o Incra de Mato Grosso do Sul. A barganha é tão explícita que ontem o senador Osmar Dias (PDT-PR) resolveu agir preventivamente, a fim de se livrar da pecha de fisiológico.
Dias anunciou em plenário que encaminhará ofício ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, colocando à sua disposição o cargo de delegado regional do Trabalho no Paraná, hoje ocupado por João Alberto Graça. “Darei meu voto de acordo com a minha consciência, sem vínculo de participação do PDT em indicação.”
Esperança nos tucanos
Pressionado por parte da base aliada, o governo aposta nas negociações de bastidor com a oposição para garantir a prorrogação da CPMF até 2011. Nesta semana, por exemplo, espera contar com a ajuda dos governadores tucanos, sobretudo José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), para impedir que o PSDB feche questão contra a renovação do imposto do cheque. Se a articulação der certo, o Palácio do Planalto acredita que conseguirá o apoio de pelo menos quatro dos 13 integrantes da bancada tucana.
São eles: Tasso Jereissati (CE), João Tenório (AL), Eduardo Azeredo (MG) e Cícero Lucena (PB). “Parte do PSDB tem expectativa de poder em 2010”, lembra um ministro que conversou recentemente com Serra e Aécio, possíveis candidatos à sucessão de Lula.
No DEM, são cortejados os senadores Jonas Pinheiro (MT) e Jayme Campos (MT), afagados com o atendimento de demandas do agronegócio. Adelmir Santana (DEM-DF) também é assediado. A tarefa de convencê-lo a aprovar a contribuição está nas mãos, entre outros, do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, aliado do presidente.
Negociação
A idéia do governo é aproveitar as três semanas até a votação da CPMF em plenário para sacramentar os acordos. “Vai depender muito da habilidade do governo para propor uma nova negociação”, diz o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), referindo-se aos tucanos.
Auxiliares do presidente Lula alegam que um acordo com o PSDB seria importante não apenas por assegurar à União uma fonte de receita estimada em R$ 40 bilhões no próximo ano. Mas por criar um novo tipo de relacionamento entre governo e oposição, no qual os interesses do país prevaleceriam sobre disputas eleitorais e sepultariam a barganha e o fisiologismo.